ESTREIA-"O Mestre dos Gênios" é retrato superficial de relação entre escritor e editor

SÃO PAULO (Reuters) - Logo nas primeiras imagens de “O Mestre dos Gênios”, estreia na direção do ator Michael Grandage, é possível perceber o que está por vir.

A fotografia em tons de sépia, o tom reverente e a as atuações empostadas já avisam: estamos diante de pessoas que você precisa admirar porque foram importantes – no caso, para a literatura norte-americana. E o problema está logo aí: um filme que os entrega importantes sem se dar ao trabalho de construir devidamente os termos dessa importância.

Vemos o editor Max Perkins (Colin Firth), Thomas Wolfe (Jude Law), Ernest Hemingway (Dominic West), F. Scott Fitzgerald (Guy Pearce) e sua mulher Zelda (Vanessa Kirby) em cena, sabemos que são prestigiados e isso basta para o diretor, que trabalha com um roteiro de John Logan a partir da biografia de Perkins, assinada por A. Scott Berg.

Ao centro, a relação turbulenta do editor com Wolfe (não confundir com Tom Wolfe, autor de, entre outros, “A Fogueira das Vaidades”). Desde o começo do longa, em 1929, toda a profundidade intelectual e emocional dos dois personagens é deixada de escanteio, assim como a também turbulenta relação entre mercado/negócio e literatura, em favor de uma espécie de bromance literário enfadonho.

Grandage não é um diretor de muita ambição – embora o pedigree do projeto e o elenco tenham levado seu longa à competição no Festival de Berlim – e isso chega a doer quando se percebe o desperdício da história dos dois personagens e o talento dos intérpretes (inclua-se na lista Laura Linney, como mulher de Perkins).

Como transformar em cinema uma trama sobre dois homens discutindo sobre um livro? Depois da publicação do primeiro romance de Wolfe, “Look homeward, angel” (1929), os dois entram em longas conversas sobre passagens da obra seguinte, “Of time and the river” (que seria publicado em 1935). O que fica, o que sai do livro? É tudo tão mecânico e sem brilho, que em alguns momentos parece estar na tela uma dramatização de trivias da wikipedia.

De gênios opostos – Perkins, conservador, puritano; Wolfe, temperamental, expansivo –, os dois protagonistas representariam impulsos e visões diferentes sobre a literatura (como mercadoria, como arte – embora arte também seja mercadoria, mas o diretor parece não ter notado isso). Ao final, chega-se a um paradoxo: um filme sobre a edição de romances, sobre as coisas que ficaram de fora quando o livro foi publicado.

O filme nunca se dá ao trabalho de entrar na arte de Wolfe, por exemplo. Nem ao menos, de dizer sobre o que é “Look homeward, angel” – um romance sobre os anos de formação e amadurecimento de um jovem, inspirado na própria vida do autor.

No fim, pouco sabemos sobre o que o escritor pensa da vida, do mundo e da arte, mas somos informados de que escreve em parágrafos longos. E há ainda os outros escritores que entram e saem de cena, deixando a impressão de que algo mais interessante está acontecendo na vida deles, mais do que no escritório de Perkins. E como o próprio personagem faz escolhas em sua edição, o diretor também as fez – embora as do primeiro pareçam ter sido mais acertadas.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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