Trecho do linhão de Belo Monte entra na mira de autoridades por início lento

Por Luciano Costa

SÃO PAULO (Reuters) - Um dos oito lotes em que foi dividida a obra de 2 mil quilômetros de um dos linhões que levarão a energia da mega hidrelétrica de Belo Monte, do Norte até o Sudeste, está na mira de equipes de fiscalização do setor elétrico devido a um ritmo inicial lento da construção, de acordo com documentos vistos pela Reuters e duas fontes com conhecimento do assunto.

Os atrasos nas obras têm gerado algumas cobranças das autoridades à empreiteira responsável, uma subsidiária brasileira da gigante chinesa SEPCO1, para um aumento no número de trabalhadores.

Órgãos de monitoramento do setor elétrico querem acelerar o empreendimento, de propriedade da BMTE --sociedade entre a também chinesa State Grid e Furnas e Eletronorte, ambas empresas do grupo Eletrobras-- para aproveitar o aumento da oferta de energia de Belo Monte, que começou a colocar suas primeiras máquinas em operação, e evitar que a usina não tenha como jogar no sistema elétrico toda sua geração, o que aconteceu recentemente com diversas usinas devido a atrasos em linhas.

Os primeiros meses atribulados da construção, que incluíram a morte de dois operários, um no final de setembro e um nos últimos dias, mostram o enorme desafio que será para o Brasil fazer a ligação da usina do Xingu, na Amazônia, ao sistema elétrico, uma empreitada que envolverá ao menos quatro grandes linhões e mais de 15 bilhões de reais em investimentos.

A primeira dessas linhas a ter construção iniciada está orçada em cerca de 5 bilhões de reais, com início das operações esperado para fevereiro de 2018.

O empreendimento foi alvo de uma fiscalização realizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) nesta semana. Os técnicos da autarquia estão preocupados com o andamento das obras tocadas pela SEPCO1, e já pediram à empresa um aumento no número de trabalhadores "com o objetivo de se conseguir terminar as obras no prazo estabelecido", segundo um documento ao qual a Reuters teve acesso.

O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que reúne autoridades do governo para acompanhar o cumprimento de cronogramas de obras de energia, já apontou que a SEPCO1 apresenta "baixo desempenho em suas atividades" e que o trecho da empresa tinha avanço de 1 por cento, segundo ata da última reunião do órgão, em meados de agosto.

A SEPCO1 não retornou pedidos de comentário. A BMTE não respondeu questionamentos sobre o cronograma da linha.

PROBLEMAS NAS OBRAS

Uma fonte do governo confirmou à Reuters, sob a condição de anonimato, que o trecho enfrenta problemas, com dificuldades da empreiteira chinesa para engatar um bom ritmo de trabalho.

A situação é atribuída em parte a dificuldades da empresa para tocar uma mega obra em uma região remota do país, o que inclui até mesmo problemas de coordenação e comunicação entre equipes brasileiras e orientais no empreendimento.

Segundo essa fonte no governo e uma fonte ligada ao empreendimento, é possível recuperar o atraso inicial, mas a situação merece atenção devido à criticidade da linha, que é essencial parar garantir que Belo Monte não fique meses com máquinas paradas, sem poder produzir energia.

A conexão de Belo Monte ao sistema elétrico tem sido feita por uma linha já existente, mas conforme mais máquinas entrarem em operação será necessária uma nova estrutura de transmissão.

Inicialmente, isso seria feito por linhas que seriam construídas pela espanhola Abengoa e ligariam a usina ao Nordeste, mas a empresa entrou em crise financeira e abandonou os empreendimentos, que terão que ser relicitados pela Aneel, o que ainda não tem data para ocorrer.

Nesse cenário, o governo tem pedido para que a BMTE tente antecipar seu linhão para novembro de 2017, para evitar que turbinas de Belo Monte fiquem paradas até o prazo original previsto para o projeto, quatro meses depois.

Segundo a ata do CNPE, o trecho da SEPCO1 é o que menos andou no linhão. Os demais lotes da obra apresentam andamento de entre 2 por cento e 17 por cento.

MORTES

O trecho mais atrasado, em Anapu, no Pará, também tem registrado outros problemas, como mortes. Uma fonte próxima ao empreendimento disse que dois operários contratados pela SEPCO1 para a obra morreram durante acidentes no canteiro de obras, um em meados de setembro e um neste mês.

"Infelizmente mais uma morte... estopro (cabo) de aço rompeu jogando o trabalhador da torre abaixo. Paz à sua alma", disse uma mensagem interna da equipe responsável pelo linhão, vista pela Reuters.

A BMTE confirmou que "dois funcionários morreram em acidentes de trabalho" e disse que "eles estavam usando todos os equipamentos de segurança... e dentro de todas as regras de segurança".

A empresa também disse que prestará todo suporte e solidariedade às famílias das vítimas. A SEPCO1 não comentou.

A empreiteira chinesa fundou sua subsidiária no Brasil em 2011. A empresa atualmente está instalada no mesmo prédio da State Grid, no centro do Rio de Janeiro.

Na China, a companhia existe desde o final dos anos 50 e já construiu mais de 230 empreendimentos em energia, incluindo linhões e usinas nucleares.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos