ESTREIA-"Doutor Estranho" traz viagem transcendental incompleta, mas única no universo Marvel

SÃO PAULO (Reuters) - Desde as primeiras cenas, fica evidente que o maior mérito da aventura “Doutor Estranho” é se estabelecer como um filme próprio dentro do universo cinematográfico Marvel. Embora existam referências para os fãs aqui e ali, até na cena durante os créditos, elas são bem pontuais e não descaracterizam o visual, a narrativa e o protagonista únicos do filme de Scott Derrickson – que tem estreia nacional antecipada neste feriado de Finados, na quarta-feira.

Logo após o prólogo, no qual o público é apresentado à engenhosidade e aos truques do multiverso, este hipotético conjunto de universos paralelos que a ficção científica adora explorar, o longa ganha ares de série médica com a exposição do Dr. Stephan Strange (Benedict Cumberbatch) como um renomado neurocirurgião, cuja arrogância equivale à sua competência, num hospital onde trabalha também a Dra. Christine Palmer (Rachel McAdams), sua antiga namorada.

Quando sofre um acidente e perde qualquer precisão de movimento em suas mãos, ele faz de tudo para tentar recuperá-las, assim como sua carreira e sua vida. Por isso, parte para um tratamento milagroso no Nepal.

Chegando lá, o médico se depara com a Anciã (Tilda Swinton) e seu método de recuperação do corpo físico através do fortalecimento mental e espiritual, com a expansão dos conhecimentos sobre o universo. Não demora muito para o iniciante nessas artes se deparar com uma guerra mística, para além do embate físico de “Os Vingadores”, promovida pelo, antes aprendiz prodígio da Anciã, e agora maléfico Kaecilius (Mads Mikkelsen).

A construção deste vilão é fraca no roteiro assinado pelo diretor, ao lado de Jon Spaihts e C. Robert Cargill, não trazendo uma grande trama em seu escopo. Em compensação, dedica-se à jornada de redenção do personagem, que passa de um médico supereficiente e arrogante a um homem que precisa utilizar a sua inteligência e novos dons a favor de um bem maior do que ele.

Com seu tipo inglês disfarçado pelo sotaque norte-americano, Cumberbatch consegue imprimir bem essas nuances, melhor do que o resto do elenco, sem tantas oportunidades. Destacam-se um pouco mais Chiwetel Ejiofor ao traçar um intrigante Mordo, e McAdams como um interesse romântico de herói mais humano do que o comum. Isso ajuda a lidar com um texto que oscila, nem sempre eficientemente, de um humor banal a reflexões filosóficas sobre vida e morte, além do tempo e espaço que existem entre elas.

Vindo do gênero do terror, com “O Exorcismo de Emily Rose” (2005), “A Entidade” e “Livrai-nos do Mal” (2014), sendo o remake de ficção científica “O Dia em que a Terra Parou” (2008) a sua exceção, Derrickson faz um ótimo trabalho com um blockbuster em mãos na tarefa de transcrever visualmente o multiverso e misticismo psicodélico do Doutor Estranho, criado na década de 1960 nos quadrinhos por Stan Lee, que faz sua habitual aparição, e Steve Ditko. Os efeitos visuais são utilizados em favor da narrativa e não por mera “porn destruction”, tão comum nas destruições megalomaníacas dos filmes de super-heróis de hoje.

Se o 3D IMAX garante uma ótima imersão na ação, pode haver uma certa anestesia no público, que provavelmente vai se encantar com os efeitos especiais sem achá-los surpreendentes, até porque já antes houve “A Origem” (2010) e suas ilusões inspiradas em M.C. Escher, além da psicodelia alucinógena dos anos 60 - diferente do ar “neon clean” dado ao longa. De sessentista, ficam alguns acordes de sintetizadores e rock progressivo no final da trilha sonora de Michael Giacchino, que também incorpora ares orientais.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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