ESTREIA-"Indignação" é uma adaptação reverente da obra de Philip Roth

SÃO PAULO (Reuters) - Primeiro longa dirigido pelo premiado roteirista James Schamus, baseado no romance homônimo de Philip Roth, “Indignação” parece situar-se num outro planeta tamanhas as transformações que o mundo passou --em termos morais, sociais e culturais-– desde os anos de 1950 até hoje.

É um momento antes de todas as rebeliões da década de 1960, que estabeleceram os padrões que persistem até o presente.

O protagonista é Marcus Messner (Logan Lerman), jovem judeu de Newark que trabalha no açougue do pai amoroso e controlador (Danny Burstein), e tem uma mãe compreensiva (Linda Emond).

O ano é 1951. Para evitar ser convocado para a Guerra da Coreia, o rapaz entra para uma universidade em Winnesburg, Ohio, o que parte o coração do pai, que jamais teve o filho longe dele, mas também o deixa aliviado, afinal, seu filho não morrerá na guerra, como o do vizinho.

O mundo se abre para Marcus longe da casa dos pais -- agora ele é, finalmente, dono de sua vida. Uma de suas primeiras atitudes é não aceitar o convite para participar de uma fraternidade composta apenas por rapazes judeus.

O protagonista é um rebelde que se declara ateísta e fala de forma complexa, beirando o esnobismo. Mas há algo de vulnerável nisso tudo, uma máscara que esconde suas fragilidades e medos diante de um mundo que ele pouco conhece.

Entra em cena outra aluna da universidade, Olivia Hutton (Sarah Gadon): jovem, loura e pura. No primeiro encontro, eles saem para jantar em um restaurante francês caro. Logo depois, dentro do carro, ao lado de um cemitério, a inocência dele é enterrada junto com os mortos.

A personagem feminina é complexa --uma cicatriz num pulso dá conta de seu passado--, mas o retrato dela no filme não é tanto, pois ela parece existir apenas para ser objeto do desejo do protagonista e satisfazer às necessidades sexuais dele. O que é a mesma posição de muitas personagens femininas ao longo da obra de Roth.

Lançado em 2008, “Indignação” é um romance de Roth que deve muito a um de seus grandes sucessos, “O Complexo de Portnoy”, de 1969. Marcus é, porém, um retrato pálido de Portnoy -- e isso certamente tem a ver com o momento de escrita de cada um dos dois livros. O primeiro foi produzido na era das contestações, dos questionamentos e da possibilidade de revoluções. O mais recente encontra um cenário no qual o conservadorismo ganha força e, curiosamente, deveria ser o mais forte, contestador, ultrajante, mas não é o caso, pois deixa-se contaminar pela época de sua produção.

Schamus --roteirista de filmes com “O Segredo de Brokeback Mountain” e “O Tigre e o Dragão”-- é excessivamente reverente a Roth. Ao seu filme devem ser associadas palavras como “bom gosto” e “comprometimento”, mas isso nem sempre corresponde a elogios.

Há algo de frio aqui, muito calculado, que torna o resultado um tanto anódino, e a jornada do protagonista, às vezes, vazia. Ainda assim, há uma cena central e longa entre Marcus e o reitor da universidade (interpretado pelo dramaturgo Tracy Letts) que sinaliza toda a força do material.

Nela, o diretor --que também assina o roteiro-- não faz concessões. Em um diálogo que transita entre o patético e o cômico, abarcando todas as variações entre as duas pontas, ele cria um embate entre gerações, entre visões de mundo, e mostra tudo aquilo que seu filme poderia ter sido.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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