Câmbio dá alívio às empresas no 3º tri, mas resultados decepcionam expectativa de retomada da economia

Por Brad Haynes e Bruno Federowski

SÃO PAULO (Reuters) - O fraco resultado das empresas brasileiras no terceiro trimestre indica que a espera por uma recuperação econômica pode se esticar até 2017, apesar de alguns setores reportarem lucros sólidos devido à queda do custo da dívida e ao câmbio mais estável.

O principal índice de ações da Bovespa avançou quase 40 por cento em 2016, muito embora o país atravesse a pior recessão desde 1930. Investidores receberam bem a agenda de reformas fiscais do novo governo de Michel Temer e preparam-se para a retomada da economia.

Mesmo que a volta da confiança do investidor tenha reduzido o custo de financiamento de muitas companhias, ajudando-as a entregar resultados, a temporada de balanços encerrada nesta semana sugere que o otimismo ainda não se traduziu em mais atividade econômica.

A receita de empresas fora do setor financeiro listadas no Ibovespa nos três primeiros trimestres de 2016 não acompanhou o ritmo da inflação anual, conforme análise feita pela Reuters com base em documentos arquivados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Cerca de metade das companhias anunciaram lucro líquido mais forte, ajudadas na maioria dos casos pela redução de despesas financeiras com custos de hedge e financiamento mais barato e por venda de ativos.

Mas a eleição do magnata Donald Trump à presidência dos Estados Unidos na semana passada coloca em xeque a conjuntura que favoreceu o desempenho financeiro das empresas nos últimos meses. O real se desvalorizou 8 por cento em relação ao dólar nas últimas sete sessões, com a vitória de Trump trazendo turbulências aos mercados da América Latina e reforçando apostas em uma elevação da taxa de juro dos EUA em breve.

Se confirmadas as expectativas, as companhias brasileiras podem não mais encontrar sustentação no custo mais baixo da dívida e das operações de hedge.

"A retomada até agora tem sido realmente influenciada pelo câmbio e pelo custo mais baixo de financiamento", afirmou Andrew Campbell, diretor de estratégia em ações do Credit Suisse. "Mas para ter uma tendência mais sustentável ou estabelecer uma plena recuperação são necessárias contribuições de mais setores da economia", completou.

A redução dos custos de financiamento ajudou companhias de energia elétrica como a Energias do Brasil e operadoras de logística como a Ecorodovias a mais que dobrar seus resultados líquidos, apesar da estagnação da demanda no último trimestre.

Exportadoras de commodities, desde a produtora de celulose Fibria até a mineradora Vale, também reverteram prejuízos de um ano atrás e reportaram resultado líquido positivo no terceiro trimestre de 2016, ajudadas pelo efeito do câmbio sobre a dívida.

FRACA DEMANDA DOMÉSTICA

Com a economia ainda fraca, a receita do terceiro trimestre de companhias monitoradas por analistas do BTG Pactual, exceto Vale e Petrobras, ficou 0,4 por cento abaixo da média das expectativas.

Já o lucro líquido, em parte por causa dos menores custos de financeiros, veio 6,7 por cento superior às previsões, conforme relatório.

Em setores mais sensíveis à demanda dos consumidores, contudo, a queda foi muito dramática para ser compensada pelo custo mais baixo da dívida.

O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, divulgou que mais que dobrou o prejuízo do terceiro trimestre sobre um ano antes, com a empresa recorrendo a descontos mais acentuados para atrair clientes às lojas. Já a Lojas Renner, que nos últimos anos foi destaque entre as varejistas de vestuário, reportou a primeira queda anual das vendas desde 2009.

Entre as processadoras de carnes, BRF e JBS apresentaram forte queda no lucro líquido de julho a setembro, enquanto a companhia de bebidas Ambev abandonou a meta de vendas estáveis no Brasil este ano.

O setor de telecomunicações continua sentindo intensamente a desaceleração da economia, com TIM dispensando funcionários e Telefônica Brasil cortando a projeção do valor a ser investido em meio à demanda fraca.

Em outros segmentos, a cautela também vem freando os planos de investimento, com destaque para a fabricante de cosméticos Natura e a siderúrgica Gerdau.

Certamente, o arrefecimento da inflação deve permitir uma série de altas na taxa básica de juro do país no ano que vem, o que deve ajudar a impulsionar a demanda e a encorajar mais investimentos. Os recentes esforços de algumas companhias para refinanciamento de dívidas e desalavancagem também abrem espaço para uma eventual retomada de gastos de capital.

No entanto, a perspectiva de curto prazo segue desafiadora, mesmo para indústrias propensas a se beneficiar primeiro da recuperação dos investimentos esperada por economistas no país.

A Weg, por exemplo, reportou queda nas vendas e no lucro líquido do terceiro trimestre. Além disso, a empresa de motores elétricos e tintas industriais cortou os investimentos no período para o nível mais baixo em cinco anos, abandonando ainda a meta de investimentos prevista para 2016.

"Há razões para otimismo cauteloso, mas na prática não houve mudança", disse o diretor financeiro da Weg, André Luís Rodrigues, a analistas em teleconferência sobre os resultados do terceiro trimestre.

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