"Carnificina anunciada", rebelião em Manaus gera temores de mais mortes

Por Brad Brooks

SÃO PAULO (Reuters) - O assassinato de 56 detentos em um presídio em Manaus esta semana, na rebelião mais mortal no Brasil em décadas, foi uma “carnificina anunciada” pelo aumento das guerras territoriais de facções de traficantes que ameaçam afundar ainda mais o sistema penitenciário no caos.

Antes do massacre no superlotado Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, especialistas em segurança alertaram por vários meses sobre a intensificação dos confrontos entre as duas maiores facções de traficantes do Brasil --o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro.

Agora, há crescentes temores de que as tensões no quarto maior sistema prisional do mundo, onde chefes do tráfico encarcerados administram vastas redes criminosas a partir dos presídios controlados pelas gangues, respingue nas ruas do país.

    Especialistas dizem que o Rio de Janeiro --o destino turístico mais popular do Brasil, que há apenas quatro meses recebeu os Jogos Olímpicos-- está particularmente vulnerável, junto com grandes cidades no Norte e Nordeste.

“Essa carnificina que aconteceu em Manaus, a possibilidade está presente no Brasil inteiro", disse a socióloga da Universidade Federal do ABC, Camila Dias, especialista no sistema penitenciário brasileiro e autora de um livro sobre o PCC.

"É uma situação muito tensa, muito propícia para a ocorrência de novas tragédias, uma carnificina que vem sendo anunciada”, acrescentou. “Mas, infelizmente, as autoridades não fizeram nada para evitar que isso acontecesse.”

Por mais de duas décadas, o PCC e o Comando Vermelho mantiveram uma relação de trabalho tumultuada para manter um fluxo estável de maconha, cocaína e armas através das fronteiras do Brasil até suas cidades.  

  Mas, em junho, a parceria acabou quando Jorge Rafaat Toumani, um poderoso chefe do tráfico brasileiro sediado no Paraguai, que controlava rotas de tráfico ao longo da fronteira sudeste do Brasil, foi assassinado quando seu veículo blindado sofreu uma emboscada com artilharia pesada.

  Embora Toumani não fosse afiliado publicamente a um grupo ou outro e os detalhes de sua morte permaneçam sombrios, autoridades paraguaias acreditam que ele foi morto a mando do PCC, para que o grupo pudesse ficar com suas lucrativas rotas de tráfego.

  O que está claro, dizem especialistas em segurança, é que o PCC tomou o controle do antigo domínio de Toumani. Como resultado, as relações entre o PCC e o Comando Vermelho entraram em colapso.  

  As comunicações entre os líderes das facções, divulgadas pela polícia em outubro, ilustram a corrida para se tornar a organização criminosa dominante no Brasil. Naquele mesmo mês, confrontos entre membros de grupos rivais em três prisões na Amazônia deixaram 22 mortos.

  As relações com facções menores foram divididas, permitindo que os criminosos de São Paulo --fortalecidos por seus lucros na cidade mais rica do Brasil-- ganhassem terreno do Comando Vermelho, do Rio.

  Em resposta, o Comando Vermelho está fortalecendo laços com grupos menores em outros lugares, como a facção Família do Norte, que conduziu o massacre de membros do PCC no presídio de Manaus esta semana. A Família do Norte controla uma rota de contrabando que o PCC cobiça, pela qual a cocaína é transportada a partir da Colômbia e do Peru através do rio Solimões.

  Poucos agora esperam que o PCC dê a outra face após dezenas de seus membros terem sido decapitados e esquartejados. Vídeos do massacre se espalharam amplamente pelas redes sociais.

  “Dentro da ética de criminosos, uma ação como essa em Manaus jamais passa impune”, disse o especialista em segurança pública da FGV, Rafael Alcadipani.

  Ele prevê que intensas lutas entre as facções acontecerão em prisões ao redor do Brasil, nas ruas de cidades do norte do país e também no Rio.

  “É muito provável que tenhamos violência tanto dentro quanto fora dos presídios. Vamos ver tentativas de controles de áreas que vão gerar muitos conflitos", disse Alcadipani.

"O PCC provavelmente vai decidir invadir áreas dominadas pela Família do Norte no Norte do Brasil. A população civil vai ficar à mercê desta guerra”, acrescentou.

PRISÕES MORTAIS

  Sejam administradas pelo Estado, ou instalações privatizadas como a de Manaus, a maioria das prisões brasileiras precisa de recursos. Condições terríveis e abusos são bem documentados.

A população carcerária do Brasil corresponde a 622 mil detentos, atrás apenas das de Estados Unidos, China e Rússia, de acordo com o Instituto de Pesquisa para Polícia Criminal da Universidade de Londres.

  Financiamento e administração ruins significam que até em São Paulo, o Estado mais rico do país, um único guarda supervisiona entre 300 e 400 presos em algumas cadeias, disse Camila Dias, que enfatizou que “quando os prisioneiros querem se rebelar, eles se rebelam”.

  Isto cria uma situação em que as instalações acabam sendo controladas por qualquer gangue que tenha a maioria dos prisioneiros, o que significa que os detentos podem decidir exterminar seus inimigos de acordo com sua vontade.

  Em Manaus, detentos da Família do Norte invadiram a área de segurança reservada aos membros de outras facções e massacraram os presos com armas, facões e facas caseiras.

  Autoridades do governo dizem que, para restaurar a ordem, estão transferindo alguns chefes do bando para prisões de segurança máxima sob controle federal.

  Sergio Fontes, secretário de Segurança Pública do Amazonas, sustenta que o governo do Estado não perdeu o controle do sistema penitenciário.

  Especialistas discordam. As instalações, eles argumentam, são reflexo da falta de segurança geral em um país em que as autoridades têm tolerado há muito tempo altas taxas de homicídio.

“O governo brasileiro historicamente não assumiu o desafio da segurança pública”, disse Alcadipani. “Temos uma força policial cujo único trabalho é matar suspeitos de crimes ou encarcerá-los.”

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