ESTREIA-"Manchester à Beira-Mar" acentua o drama mas investe na sutileza

SÃO PAULO (Reuters) - Dentro de uma indústria tão altamente padronizada quanto Hollywood, todo ano há pelo menos um filme que sai da fórmula. Ou seja, que destoa das expectativas e das estruturas normalmente seguidas no gênero a que pertence.

Este ano, este filme é o drama “Manchester à Beira-Mar”, em que especialmente o ator Casey Affleck parece estar-se tornando praticamente uma unanimidade nas premiações, começando pelo Globo de Ouro, o National Board of Review e associações de críticos de diversos Estados norte-americanos --além de ser considerado uma certeza no Oscar, cujos indicados serão conhecidos no próximo dia 24.

O filme é também a consagração de seu diretor e roteirista, Kenneth Lonergan --embora Lonergan esteja longe de ser um principiante ou um desconhecido.

Aos 54 anos, o novaiorquino já cravou pelo menos duas indicações ao Oscar como roteirista, por “Gangues de Nova York” (2003), de Martin Scorsese, e “Conte Comigo” (2000), que ele também dirigiu. Com as premiações que obteve com “Manchester à beira-mar” até aqui, também é tido como presença garantida na disputa da estatueta dourada pela terceira vez.

Ambientado numa cidade litorânea de Massachussets, perto de Boston, o drama se desenrola em torno de crises de identidade masculina, ancoradas no universo da família Chandler. Neste círculo, foi sempre muito forte a ligação entre os irmãos Joe (Kyle Chandler) e Lee (Casey Affleck), uma irmandade que incorpora também o filho de Joe, Patrick (quando menino, Ben O’Brien), especialmente porque a mãe do garoto, Elise (Gretchen Mol), é uma alcoólatra.

Há um corte no tempo e encontra-se Lee um pouco mais velho, trabalhando como zelador e faz-tudo para um conjunto de prédios em outra cidade. Ele é um solitário, que vive consertando os pequenos problemas dos condôminos, aparentemente sem ligações de amizade com ninguém. Parece um homem anestesiado contra sentimentos de qualquer espécie, num isolamento de que a grossa neve da paisagem parece funcionar como metáfora.

Um telefonema, avisando-o da morte do irmão, tira-o desta apatia funcional. E Lee parte de volta para Manchester, de encontro a fantasmas formidáveis, de que o filme só dará conta dentro de algum tempo.

A maneira como se oculta, temporariamente, a razão dos traumas de Lee, que motivaram sua partida da cidade, é um dos recursos usados pelo diretor para administrar as emoções de sua história, que ele pretende sutilmente revelados, sem transbordamento --até para manter um equilíbrio, já que estas emoções são de intensidade considerável.

A opção de Lonergan é manter as dores de Lee represadas, como ele escolheu. Por isso, a princípio, o espectador permanece intrigado pelo comportamento quase catatônico deste homem ainda jovem, até diante da morte do irmão --que, claramente, foi seu maior amigo e protetor, como revelam os flashbacks dos dois a bordo de um barco.

O testamento do irmão coloca um desafio para Lee, já que este o designou como guardião de seu filho, Patrick (agora interpretado por Lucas Hedges), ainda menor, uma função que o obrigaria a voltar para Manchester. Ou levar o garoto embora com ele para outro lugar, ao que o rapaz resiste asperamente, criando um conflito aparentemente insolúvel.

Na outra ponta deste mundo masculino, duas figuras femininas se destacam: Elise, a mãe de Patrick, que deixou a bebida para tornar-se uma protestante devota, a partir de um novo casamento, com Jeffrey (Matthew Broderick); e Randi (Michelle Williams), a ex-mulher de Lee, com quem ele divide a imensa, irresolvível dor que atormenta seus dias.

Em poucas cenas, Michelle Williams ocupa uma porção significativa deste centro emocional do filme, já que é simplesmente a única pessoa com quem Lee compartilha uma parte de seu imenso fardo de culpa --e há pelo menos um diálogo entre os dois, depois de um encontro casual na rua, que é de uma emocionalidade devastadora, sem deixar de ser delicada.

Nada, aliás, em “Manchester à beira-mar” é derramado ou excessivo --basta a realidade da tragédia na vida de Lee e Randi. É aí que Lonergan exerce sua afinação de dramaturgo que também é, desfiando com sutileza o impasse de seu protagonista, sem visar sua redenção.

Foi por isso, portanto, que o filme chamou tanta atenção, por lidar com o drama esgueirando-se dos excessos melodramáticos. Não é pequena façanha, quando se conhecem os exageros da média da produção dramática “mainstream” de Hollywood, viciada em extrair lágrimas aos baldes em situações escancaradas, reiterações e trilha sonora sempre no máximo volume.

Nada disso acontece neste filme, o que não quer dizer que ele seja perfeito ou mesmo que represente a rigor uma inovação. Na verdade, “Manchester à beira-mar” é um filme correto, bem-realizado e sutil.

Apenas aconteceu que Lonergan nadou contra a corrente e se deu bem. Nem escândalos extrafilme, como as acusações de assédio de duas mulheres contra Casey Affleck --resolvidas em acordos extrajudiciais confidenciais-- conseguiram empanar o brilho do desempenho do filme até aqui.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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