ESTREIA-Identidade masculina e negritude estão no centro do drama "Moonlight: Sob a Luz do Luar"

SÃO PAULO (Reuters) - Indicado a 8 Oscar, “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, segundo filme do diretor Barry Jenkins, revela um primor de sutilezas na exploração do processo de amadurecimento de um garoto afro-americano de Miami a partir de uma adaptação bastante fiel à peça do dramaturgo Tarell Alvin McCraney.

Alguns elementos que se tornaram clichês em dramas, como o universo da pobreza, o convívio com o tráfico de drogas e o bullying, são aqui tratados por um prisma que foge à espetacularização. Assim, desdobra-se com a naturalidade e delicadeza possíveis a trajetória do garoto Chiron, aos 9 anos chamado de Little (Alex R. Hibbert) devido ao seu físico excepcionalmente franzino. A história começa com Little fugindo de um bando de colegas de escola e buscando esconderijo numa casa abandonada, usada por viciados.

Dali é resgatado por Juan (Mahershala Ali, indicado ao Oscar de coadjuvante), o traficante dono do pedaço que, contrariando a expectativa, é suave e benigno com o menino. A casa de Juan e da namorada Teresa (Janelle Monae, de “Estrelas Além do Tempo”), aliás, torna-se o refúgio do menino contra os acessos de descontrole de sua mãe drogada, Paula (Naomie Harris, indicada ao Oscar de coadjuvante).

Se Juan é essa figura paterna substituta, não deixa de ser também o fornecedor de drogas da mãe de Little, uma ambiguidade que não escapa ao menino em seu processo de compreensão dos mecanismos de funcionamento do mundo. Esse é um dos muitos aspectos que afastam o enredo de “Moonlight...” da mesmice superficial de tantas histórias ambientadas neste cenário, aproximando-o de um realismo repleto de nuances humanistas.

A trajetória do Chiron adolescente (Ashton Sanders) continua dramática, alternando os conflitos com a mãe e o bullying na escola, que só cresce na medida em que o rapaz revela tendência homossexual – um aspecto que ele só compartilha com o amigo Kevin (na adolescência, Jharrel Jerome).

Alguns dos momentos mais reveladores de descoberta do protagonista dão-se perto do mar, como numa cena em que aprende a nadar com Juan – em que a mensagem de confiança é decididamente clara – e outra em que experimenta o próprio desejo num beijo na praia.

Embora o caminho de Chiron esbarre na violência do ambiente em que vive, as vivências e soluções que ele acha são naturais dentro de sua perpectiva. De maneira geral, o enredo não responde a clichês no piloto automático, o que permite que o reencontro do Chiron jovem adulto (Trevante Rhodes) com o amigo Kevin (agora, André Holland) seja cheio de emoções genuinamente tocantes, sem qualquer pieguice.

Se há um pequeno senão neste roteiro adaptado, também de autoria de Jenkins e indicado ao Oscar, é não terem as personagens femininas a mesma complexidade das masculinas, que são extraordinariamente bem resolvidas, com atores à altura.

De todo modo, “Moonlight...” é um dos melhores filmes da temporada do Oscar. Está indicado também nas modalidades de melhor filme, diretor, fotografia (James Laxton), montagem (Joi McMillon e Nat Sanders) e trilha sonora (Nicholas Brittell). E constitui uma das melhores reflexões sobre a identidade negra contemporânea nos EUA.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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