Brasil tenta recuperar espaço na África de olho em mercado crescente

Por Lisandra Paraguassu e Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - De olho no potencial crescimento do mercado consumidor africano, o governo brasileiro começa a tentar recuperar o espaço perdido nos últimos anos, depois de um período de esquecimento na política comercial brasileira.

Nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, começa mais uma jornada por seis países do continente --Marrocos, Gana, Nigéria, Botsuana, Costa do Marfim e África do Sul--, depois de em maio deste ano ter visitado outros cinco.

"A África foi e continua sendo uma região de grande importância para o Brasil. O governo Lula foi muito ativo. Esse entusiasmo arrefeceu no governo Dilma", reconheceu Aloysio em entrevista à Reuters na véspera da sua viagem.

Mesmo nos primeiros meses do governo de Michel Temer, o continente não estava no radar brasileiro. Primeiro chanceler, o senador José Serra via como prioritário o que chamava de retomada das relações com Estados Unidos e Europa.

A África, no entanto, é ainda vista no mercado internacional como a grande fronteira inexplorada. Hoje com 1,3 bilhão de habitantes e 350 milhões de pessoas na classe média, é um enorme mercado potencial para alimentos e, principalmente, para produtos manufaturados brasileiros, mesmo com a feroz competição chinesa e europeia.

De acordo com relatório populacional da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2015, mais da metade do crescimento global da população até 2050 deve ocorrer no continente africano. Dados do Banco Mundial mostram que a renda per capita no continente aumentou mais de três vezes entre 2002 e 2016.

"É um continente que está crescendo, se modernizando, se diversificando. É um continente que nos últimos 10 anos cresceu muito acima da média mundial. Aos poucos os conflitos que ainda existem vão diminuindo de intensidade, muitos países estão passando por um processo importante de institucionalização da democracia", disse o ministro.

O investimento do governo Lula nas relações com a África, com a abertura de novas embaixadas --foram 18 novas representações e dois postos consulares entre 2003 e 2010, chegando a 35 dos países da região-- rendeu frutos comerciais significativos. A corrente comercial passou de 5,03 bilhões de dólares em 2002 para 25,9 bilhões de dólares em 2008 e atingiu o valor mais alto, 28,5 bilhões de dólares em 2013.

De lá para cá, a queda foi acentuada. Em 2016, foi de 12,4 bilhões de dólares, valor semelhante ao de 2005. No último ano, o Brasil passou a ter superávit com os países africanos, muito por força da queda do valor do petróleo que o país importa da Nigéria, Angola e Argélia. Ainda assim, com o dólar mais valorizado e a balança comercial brasileira batendo recordes, as exportações brasileiras ainda estão nos níveis de 10 anos atrás.

No entanto, o potencial para crescimento é enorme, avalia o Itamaraty. Dados repassados à Reuters pelo ministério mostram que já hoje 40,9 por cento das exportações brasileiras para o continente são de produtos manufaturados e outros 30 por cento, de semimanufaturados.

Um levantamento prévio à viagem do chanceler, feito pela Divisão de Inteligência Comercial do ministério, identificou a possibilidade de exportação de pelo menos duas dezenas de produtos diferentes para Nigéria, Gana, Costa do Marfim e Benin.

As oportunidades vão desde máquinas agrícolas, caminhões, tratores e produtos da construção civil até manufaturados como papel e pneus, passando por carnes, especialmente de frango, arroz, tabaco, leite e creme de leite.

"O potencial é enorme. A África precisa importar alimentos, não é autossuficiente. Há uma complementaridade aí, o Brasil é uma potência na área de commodities, a indústria pode ser complementar também. A indústria brasileira pode suprir o varejo nos países africanos", diz a cientista política Any Freitas, especialista em política externa e professora visitante do King's College de Londres.

DE ACORDO COM O FREGUÊS

Aloysio reconhece, no entanto, que, apesar de investimentos graúdos de empresas brasileiras como a Vale no continente africano, os empresários brasileiros vão pouco à África.

"O que o Itamaraty faz é abrir portas, criar condições jurídicas, eliminar obstáculos, divulgar o Brasil. Mas os empresários têm que ir atrás. Eu não faço negócios", disse o ministro. "Vamos ajudar, vamos dar assistência, temos acordos comerciais, de investimento. Mas isso são condições políticas e jurídicas. Os empresários é quem têm o faro de onde buscar o lucro, eles têm que ir atrás."

Essa não é a primeira tentativa do Brasil de retomar o espaço perdido na África. Em 2015, ainda no segundo governo Dilma, por iniciativa do então chanceler Mauro Vieira, o Brasil ensaiou uma retomada das relações, com algumas visitas, mas com a crise política engolfando o governo e a falta de interesse da própria presidente, o esforço não teve resultado.

"Dilma não tinha interesse nas relações internacionais. Ela não ignorou a África, mas o tema não estava no seu radar. O Brasil esteve completamente ausente da África durante seu governo, com exceção de algumas poucas iniciativas", analisa Any Freitas.

O Brasil aposta, mais uma vez, no soft power, nas relações ancestrais e na proximidade cultural com os países da região para conseguir aumentar seu espaço. Aloysio reconhece que a competição com os chineses de orçamentos milionários é difícil, mas diz que é possível.

"Nós temos uma maneira própria de fazer a operação. Nós não temos infelizmente o poder econômico da China, que chega com pacotes de financiamento, de investimentos governamentais. Nosso estilo é diferente, uma tradição antiga de cooperação. Somos um alfaiate que faz a roupa de acordo com o freguês", disse Aloysio.

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