Turista espanhola é morta pela polícia na Rocinha, dois PMs são presos

Por Rodrigo Viga Gaier

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Uma turista espanhola, de 67 anos, morreu nesta segunda-feira após ser baleada por um disparo da polícia na favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, e dois policiais militares envolvidos na ação foram presos em flagrante, informou a Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Segundo a Polícia Militar, a mulher morta e outros turistas estavam em um carro particular cujo motorista não atendeu a uma ordem dos policiais para parar em uma blitz em um ponto da favela, o que levou os policiais a abrirem fogo contra o carro.

A turista espanhola foi socorrida e levada ao hospital mais próximo, mas não resistiu aos ferimentos, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. “Ela já chegou ao hospital em óbito”, disse uma porta-voz da secretaria.

Em nota no início da noite desta segunda, a PM do Rio informou que um soldado e um oficial foram presos em flagrante por conta da ação e que os PMs envolvidos não respeitaram os procedimentos que devem ser usados em casos em que veículos desobedecem ordens de parada feitas por policiais.

"A Corregedoria da Polícia Militar determinou a prisão em flagrante dos dois policiais diretamente envolvidos no fato - um oficial e um soldado. Os dois policiais foram encaminhados para Unidade Prisional da PM, em Niterói", informou a PM.

"A Polícia Militar, assim como das demais forças de segurança do país, segue os procedimentos estabelecidos no Manual de Abordagem. O referido manual determina que, em casos como o que ocorreu nesta data, os policiais não devem efetuar disparos, mas sim perseguir o veículo que não obedeceu a ordem de parar e bloquear sua passagem assim que for possível. A razão pela qual o procedimento não foi cumprido é também objeto da investigação em curso."

A Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, tem vivido há mais de um mês confrontos violentos devido a uma disputa entre traficantes rivais.

A Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio lamentou em nota oficial a morte da estrangeira e informou que um inquérito foi aberto para apurar o caso.

De acordo uma fonte da área de segurança do Rio de Janeiro, o caso ainda precisa de mais informações para que seja esclarecido.

“Ainda está estranho e obscuro e só as investigações e depoimentos vão esclarecer tudo o que aconteceu”, disse a fonte sob condição de anonimato.

Os passageiros do carro, a pessoa que os guiava e o motorista estão sendo ouvidos pela delegacia de atendimento ao turista. O motorista relatou que não teria percebido o sinal para parar o veículo. Ele, de acordo com fontes, seria de origem italiana, mas trabalharia no Brasil há alguns anos.

“O estranho é que depois de um fim de semana de confrontos na Rocinha e de uma segunda-feira em que mais três pessoas ficaram feridas, um guia leva turista para um local como esse”, declarou a fonte sem, no entanto, tirar a responsabilidade dos policiais militares envolvidos.

“Foi uma lambança total”, acrescentou a fonte.

O vice-cônsul da Espanha, José Luiz Garcia Mira, desde cedo acompanha o andamento das investigações e as providências adotadas pela polícia judiciária.

O delegado Fábio Cardoso, da divisão de homicídios, um dos responsáveis pelo caso, classificou o episódio como "inadmissível".

A Rocinha vive um intenso clima de tensão há mais de um mês, quando teve início uma disputa entre traficantes rivais pelo domínio da venda de drogas na favela, uma das maiores e mais conhecidas do Rio.

As Forças Armadas já foram acionadas para intervir na comunidade duas vezes nesse período, mas nem as tropas federais nem as forças de segurança do Estado conseguiram controlar a situação.

Antes da morte da turista espanhola, dois policiais militares ficaram feridos em um confronto com suspeitos dentro da favela também nesta segunda-feira. Desde o início da disputa pelo comando do tráfico de drogas na Rocinha, ao menos 11 pessoas morreram em virtude da disputa.

Essa não é a primeira morte recente de um turista estrangeiro no Rio de Janeiro. No fim do ano passado, um turista italiano morreu ao entrar por engano em um favela de Santa Tereza, quando tentava visitar com um primo o Cristo Redentor, um dos principais pontos turísticos da cidade.

Esse ano, uma turista argentina também foi baleada no mesmo local e morreu meses depois em um hospital da cidade. Também neste ano, uma turista inglesa foi baleada quando entrou por engano em uma favela em Angra do Reis no Sul do Estado. Ela estava acompanhada do marido e de três filhos.

“O Exército tem que voltar”, disse o prefeito Marcelo Crivella (PRB), após a morte da turista espanhola.

“É importante que o governo federal cumpra com seu papel de manter a segurança nas fronteiras --da cidade, do Estado e federais-- e nos ajude a combater crimes federais que a responsabilidade é dele."

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