Mugabe renuncia à Presidência do Zimbábue após 4 décadas no poder

Por MacDonald Dzirutwe

HARARE (Reuters) - Robert Mugabe renunciou à Presidência do Zimbábue nesta terça-feira, uma semana depois de o Exército e seus antigos aliados políticos se voltarem contra ele, encerrando quatro décadas de um governo comandado por um homem que foi de herói da independência a arquétipo da truculência.

O líder de 93 anos se apegou ao cargo durante uma semana após um golpe do Exército e a expulsão de seu próprio partido, a União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu-PF), mas renunciou pouco depois de o Parlamento iniciar um processo de impeachment visto como a única via legal para forçá-lo a sair.

Grandes comemorações irromperam durante uma reunião conjunta do Parlamento quando o presidente da Casa, Jacob Mudenda, anunciou a renúncia de Mugabe e suspendeu os procedimentos de impeachment.

Pessoas dançavam e carros tocavam buzinas nas ruas de Harare após a notícia de que a era Mugabe – que comandou o Zimbábue desde a independência em 1980 – finalmente terminou.

Algumas pessoas exibiam pôsteres do chefe do Exército, general Constantino Chiwenga, e do ex-vice-presidente Emmerson Mnangagwa, cuja demissão neste mês desencadeou o levante militar que afastou Mugabe.

"Estou muito feliz com o que aconteceu", disse Maria Sabawu, apoiadora do partido opositor Movimento pela Mudança Democrática (MDC), diante do hotel onde o processo de impeachment transcorria.

"Sofri muito nas mãos do governo de Mugabe", afirmou, mostrando a ausência de um dedo da mão que conta ter perdido na violência que se seguiu a um segundo turno presidencial entre Mugabe e o líder opositor Morgan Tsvangirai em 2008.

Mugabe é o único líder que o Zimbábue conheceu desde que uma guerrilha acabou com o comando da minoria branca da antiga Rodésia.

Durante seu governo ele levou o país antes rico à ruína econômica e se aferrou ao poder reprimindo seus oponentes, embora se gabasse de ser o Grande Ancião da política africana e conservasse a admiração de muitas pessoas do continente.

Apesar das grandes demonstrações de alegria nas ruas, a queda de Mugabe foi tanto um resultado de disputas internas na elite política quanto de uma revolta popular, embora milhares de pessoas o tenham defendido nos dias que se seguiram à intervenção militar da semana passada.

O Exército assumiu o poder depois que Mugabe demitiu Emmerson Mnangagwa, favorito do Zanu-PF para sucedê-lo, para abrir caminho à sua esposa, Grace, para a Presidência. A primeira-dama de 52 anos era chamada por seus críticos de "Gucci Grace" devido a seu suposto apego por itens de luxo.

A recusa de Mugabe em renunciar desencadeou o impeachment. Sua carta de renúncia, lida por Mudenda, não indicou nenhum favorito à sucessão. Mudenda disse estar tratando de questões legais para que um novo líder assuma até o final de quarta-feira.

Mnangagwa, o vice cujo paradeiro é desconhecido desde que ele fugiu do país por motivos de segurança, vai prestar juramento como presidente na quarta ou quinta-feira, de acordo com o partido Zanu-PF.

Ex-chefe de segurança conhecido como O Crocodilo, ele foi um assessor crucial de Mugabe durante décadas e é acusado de participar da repressão de zimbabuanos que desafiavam o líder.

Em setembro a Reuters noticiou que Mnangagwa estava tramando para suceder Mugabe com apoio do Exército à frente de uma ampla coalizão.

O complô almejava um governo de união nacional interino que teria a bênção da maioria da comunidade internacional e permitiria o reatamento do Zimbábue com o mundo exterior, mas seu objetivo primordial seria estabilizar a economia.

A Anistia Internacional disse que o Zimbábue deve abandonar os abusos do passado e acolher o Estado de Direito.

Durante três décadas de repressão violenta, dezenas de milhares de pessoas foram torturadas, assassinadas ou desapareceram à força, traços de uma cultura de impunidade que permitiu que "crimes grotescos florescessem", disse o grupo de direitos humanos.

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