Nobel da Paz iraniana incentiva compatriotas a manter protestos

Michael Georgy

Em Dubai

Agraciada com o prêmio Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi incentivou seus compatriotas a praticarem a desobediência civil e levar adiante os protestos nacionais que vêm representando o maior desafio aos líderes do Irã desde tumultos pró-reformas em 2009.

Segundo o jornal pan-árabe Asharq Al-Awsat, de propriedade parcialmente saudita, a mais famosa advogada de direitos humanos da República Islâmica disse que os iranianos deveriam continuar nas ruas, e a Constituição lhes garante o direito de realizar manifestações.

Após seis dias de protestos que abalaram a liderança clerical e mataram 21 pessoas, na quarta-feira a Guarda Revolucionária, unidade de elite das forças de segurança do país, enviou forças a três províncias para conter os distúrbios.

Os protestos, inicialmente motivados pelas dificuldades econômicas enfrentadas pelos jovens e pela classe trabalhadora, se transformaram em um levante contra os poderes e privilégios de uma elite alienada, especialmente o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei.

O Irã realizou manifestações pró-governo em várias cidades nesta quinta-feira, inclusive em Mashhad, a segunda maior cidade da nação.

A televisão estatal mostrou milhares de manifestantes com cartazes de Khamenei e faixas dizendo "Morte aos sediciosos".

As passeatas antigoverno, que parecem ser espontâneas e não ter um líder claro, começaram em bairros da classe trabalhadora e em cidades menores, mas também parecem estar ganhando impulso junto à classe média instruída e aos ativistas que participaram dos protestos de 2009.

Ebadi, que mora em Londres, recebeu o Nobel da Paz em 2003 e está entre vários críticos da liderança iraniana exilados. Ela incentivou seus conterrâneos a pararem de pagar as contas de água, gás e eletricidade e os impostos, e também os encorajou a retirar dinheiro de bancos estatais para fazer pressão econômica sobre o governo e obrigá-lo a parar de recorrer à violência e a atender suas exigências.

"Se o governo não ouviu vocês durante 38 anos, seu papel é ignorar o que o governo diz a vocês agora", disse Ebadi em uma entrevista, segundo o Asharq Al-Awsat, também sediado na capital inglesa.

Os tumultos provocaram as respostas mais variadas no mundo -- europeus expressaram receio com a reação animada dos líderes dos Estados Unidos e de Israel com a demonstração de oposição ao establishment religioso do Irã.

Como sinal da preocupação crescente da liderança de Teerã com a persistência dos protestos, o comandante da Guarda Revolucionária, major-general Mohammad Ali Jafari, disse ter despachado forças às províncias de Isfahan, Lorestan e Hamadan para lidar com a "nova sedição".

A maioria das baixas entre os manifestantes ocorreu nestas regiões. A Guarda Revolucionária, espada e escudo da teocracia xiita iraniana, foi fundamental para suprimir o levante de 2009, matando dezenas de manifestantes na ocasião.

Sayyed Hassan Nasrallah, líder do grupo libanês Hezbollah, que tem apoio do Irã, minimizou a onda atual de protestos, explicando-a como um descontentamento econômico.

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