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EUA, Reino Unido e França atacam a Síria em primeira ação coordenada contra Assad

14/04/2018 21h32

Por Steve Holland e Tom Perry

WASHINGTON/BEIRUTE (Reuters) - Potências ocidentais disseram neste sábado que um ataque com mísseis atingiu o coração do programa de armas químicas da Síria, mas é improvável que a ofensiva atrapalhe o progresso do presidente sírio, Bashar al-Assad, na guerra civil de 7 anos.

Estados Unidos, França e Grã-Bretanha lançaram 105 mísseis durante a noite em retaliação a um ataque suspeito de gás venenoso na Síria há uma semana, atingindo o que o Pentágono disse serem três instalações de armas químicas, incluindo uma pesquisa e desenvolvimento em Damasco e duas perto de Homs.

O bombardeio foi a maior intervenção de países ocidentais contra Assad e sua aliada Rússia, mas os três países disseram que os ataques se limitaram à capacidade síria de armas químicas e não visaram a derrubar Assad ou intervir na guerra civil.

O ataque aéreo, denunciado por Damasco e seus aliados como ato ilegal de agressão, não deve alterar o curso de uma guerra que já matou pelo menos meio milhão de pessoas.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou no Twitter: "Missão cumprida", ecoando o ex-presidente George W. Bush, que usou a mesma frase em 2003 para descrever a invasão do Iraque pelos EUA, o que foi amplamente ridicularizado à medida que a violência se arrastou por anos.

"Acreditamos que ao atacar Barzeh em particular, atacamos o coração do programa de armas químicas da Síria", disse o tenente-general Kenneth McKenzie no Pentágono.

Mas McKenzie reconheceu que elementos do programa permanecem e ele não podia garantir que a Síria seria incapaz de realizar um ataque químico no futuro.

A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, disse na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU que Trump disse a ela que se a Síria usar gás venenoso novamente, os Estados Unidos estarão prontos para agir.

Os países ocidentais disseram que os ataques visavam impedir mais ataques com armas químicas da Síria, após um suspeito ataque com gás venenoso em Douma em 7 de abril matar até 75 pessoas. Eles culpam o governo de Assad pelo ataque.

Em Washington, um alto funcionário do governo disse haver evidências de que foram usados tanto cloro quanto gás sarin.

'RESILIÊNCIA' DE ASSAD

Dez horas após a explosão dos mísseis, a fumaça ainda subia dos destroços de cinco prédios destruídos do Centro de Pesquisa Científica da Síria, em Barzeh, onde um empregado sírio disse que remédios eram desenvolvidos.

Não houve relatos imediatos de mortos. 

A Síria divulgou um vídeo dos destroços de um laboratório de pesquisas bombardeado, mas também de Assad indo ao trabalho normalmente, com a legenda "manhã de resiliência".

A ajuda dos exércitos da Rússia e do Irã nos últimos três anos permitiu a Assad esmagar a ameaça rebelde para derrubá-lo.

EUA, Reino Unido e França participam do conflito sírio anos atrás, armando rebeldes, bombardeando soldados do Estado Islâmico e colocando tropas no campo de batalha para enfrentar este grupo. Mas resistiram a encarar o governo de Assad, com exceção de uma salva de mísseis dos EUA ano passado.

Embora os países ocidentais digam há sete anos que Assad precisa deixar o poder, eles evitaram no passado atacar o seu governo, sem uma estratégia mais ampla para derrotá-lo.

A Síria e seus aliados também deixaram claro que consideram o ataque algo pontual, que não deve causar danos importantes. 

Uma fonte oficial em uma aliança regional que apoia Damasco disse à Reuters que os alvos dos bombardeios haviam sido evacuados dias atrás, graças a um aviso da Rússia.

O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que os ataques eram "inaceitáveis e ilegais".

A imprensa estatal da Síria classificou-os como "violações flagrantes de lei internacional", enquanto o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, usou a palavra "crime" e chamou os líderes ocidentais de criminosos.

A Rússia havia prometido responder a qualquer ataque contra seus aliados, mas o Pentágono afirmou que nenhum sistema de defesa aéreo russo foi usado. A Síria emitiu 40 mísseis, mas apenas após o fim dos ataques ocidentais, disse o Pentágono. 

A primeira-ministra britânica Theresa May descreveu o ataque como "limitado e direcionado", sem intenção de derrubar Assad ou intervir mais amplamente na guerra.

Washington descreveu os alvos do ataque como um centro de pesquisa, desenvolvimento, produção e testes de armas químicas e biológicas próximo de Damasco, um depósito de armas químicas próximo da cidade de Homs, e outro próximo a Homs que reunia equipamentos de armas químicas e abrigavam um posto de comando. 

INSPEÇÃO DE ARMAS 

Inspetores do grupo global de vigilância de armas químicas OPCW deveriam visitar Douma neste sábado para investigar o local do suposto ataque com gás. Moscou condenou os estados ocidentais por se recusarem a esperar o resultado das investigações. 

A Rússia, cujas relações com o Ocidente se deterioraram a níveis de hostilidade da Guerra Fria, negou que qualquer ataque a gás tenha acontecido em Douma e acusou o Reino Unido de ter armado a situação para aumentar a histeria anti-Rússia. 

Os países ocidentais tomaram precauções para evitar um conflito inesperado com a Rússia. O ministro de Defesa da França, Florence Parly, disse que russos foram avisados para evitar um conflito. 

Dmitry Belik, membro russo do parlamento que estava em Damasco e testemunhou os ataques, disse à Reuters: "O ataque foi de natureza mais psicológica que prática. Felizmente, não houve perdas ou danos substanciais".

A Síria aceitou, em 2013, abrir mão de suas armas químicas depois que gás nervoso foi usado para matar centenas de pessoas em Douma. Damasco ainda tinha permissão de portar cloro para uso civil, embora o seu uso como arma tenha sido banido.

Alegações do uso de cloro por Assad foram frequentes durante a guerra, embora, ao contrário de agentes nervosos, o cloro não produz assassinatos em massa como os vistos semana passada.

(Reportagem adicional de Jeff Mason, Steve Holland, Idrees Ali, Yara Bayoumy, Joel Schectman, Michelle Nichols, Samia Nakhoul, Tom Perry, Laila Bassam, Ellen Francis, Angus McDowall, Kinda Makieh, Michael Holden, Guy Faulconbridge, Jean-Baptiste Vey, Geert de Clerq and Matthias Blamont e Polina Ivanova)

((Tradução Redação São Paulo; + 55 11 5644-7712))

REUTERS AAAP