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Sem consenso, Cúpula das Américas troca declaração final por compromisso sobre corrupção e não cita Venezuela

Lisandra Paraguassu

Em Lima

14/04/2018 18h35

Sem conseguir consenso para uma declaração final nos últimos três encontros, os negociadores da Cúpula das Américas trocaram o texto presidencial por um compromisso centrado apenas em corrupção, em que o tema central da região, a crise na Venezuela, não será tocado, disseram à Reuters fontes do governo brasileiro.

O acordo sobre corrupção está sendo vendido pelos negociadores como se fosse a declaração final mas, em vez de incluir assuntos diversos importantes para os países da região, como a crise na Venezuela, irá se concentrar apenas no tema da cúpula escolhido pelo Peru, país anfitrião.

"Não vai ter uma declaração adotada por consenso. Preferimos um compromisso sobre o tema em que há consenso", disse uma das fontes.

O chamado Compromisso de Lima lista pontos em que enfatiza a necessidade de autonomia para as instituições que investigam corrupção, a troca de informações entre países da região e de tecnologia para investigação, em um texto negociado nas últimas semanas para não causar atritos.

Constantemente cercada por polêmicas, a cúpula não tem uma declaração presidencial final há três edições, desde 2005, em Mar del Plata. A falta de consenso em temas como, por exemplo, a participação de Cuba nas cúpulas --vetada até 2009 pelos Estados Unidos-- ou a situação venezuelana deixaram transparente as divisões regionais.

Na última cúpula, a insistência do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de incluir um parágrafo condenando um decreto dos EUA que tratava seu país como ameaça à segurança americana, acabou com o consenso nos minutos finais do encontro.

Desta vez, a decisão foi de nem ao menos tentar uma declaração ampla. Sobre a crise na Venezuela, disse uma das fontes, pode haver um discussão na plenária dos presidentes, na manhã de sábado.

Uma outra fonte brasileira confirmou à Reuters que o grupo de Lima poderá divulgar por si uma declaração. Formado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Guiana e Santa Lucia, o grupo tem ocupado o espaço mais crítico à situação da Venezuela que a Organização dos Estados Americanos (OEA) tem tido dificuldade de fazer pelas divisões internas.

Em reunião com ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, o secretário de Estado interino dos Estados Unidos, John Sullivan, elogiou o grupo, mas concordou com a demanda brasileira de tentar fortalecer a ação da OEA no caso venezuelano.

Hoje bloqueada pela união dos países da antiga Alba e do Caribe --que reúnem 18 dos 35 votos da assembleia geral-- a OEA tem tido dificuldade de aprovar até mesmo declarações razoavelmente críticas à Venezuela. O Grupo de Lima tem feito esse papel.

"O Grupo de Lima tem valor para colocar pressão, mas há coisas que não pode fazer por ser informal", disse uma das fontes.