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Brasil repete erro com flexibilização 'irresponsável' e arrisca aprofundar crise da covid

Sem coordenação nacional, governadores e prefeitos têm flexibilizado as restrições impostas às atividades não essenciais - EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Sem coordenação nacional, governadores e prefeitos têm flexibilizado as restrições impostas às atividades não essenciais Imagem: EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Pedro Fonseca

14/05/2021 11h30Atualizada em 14/05/2021 11h47

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Os tradicionais botequins das esquinas de Copacabana e os bares da Vila Madalena voltaram a ficar cheios de clientes após a flexibilização das medidas de quarentena no Rio de Janeiro e São Paulo, mas o afrouxamento de restrições pelo país ainda com a epidemia em alta repete o erro do ano passado e ameaça provocar uma catástrofe, alertaram epidemiologistas.

"Daqui a 2 ou 3 meses nós vamos ter um aumento das mortes como consequência das medidas de agora. Você vai enchendo os hospitais, gerando casos graves, e boa parte desses casos infelizmente vai a óbito", afirmou o epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Sem uma coordenação nacional e sob pressão da crise econômica agravada pela pandemia, governadores e prefeitos têm flexibilizado as restrições impostas às atividades não essenciais após uma estabilização seguida de queda de casos e de óbitos, permitindo, no caso do Rio, inclusive a realização de shows de música ao vivo em bares.

A covid-19 ainda permanece em níveis elevados no Brasil, com quase 2.000 mortes por dia em média —número abaixo apenas da Índia atualmente— e 15 Estados têm ocupação de leitos de terapia intensiva acima de 79%, incluindo Rio e São Paulo, que concentram os maiores números de óbitos no país.

"A população está achando que passou... mas olha só a tendência nas últimas três semanas, mais de 2.000 óbitos em média não pode ser considerado normal. Estamos fazendo cavalo de pau derrapando à beira do precipício", disse o epidemiologista Wanderson Oliveira, ex-secretário nacional de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Como um agravante, o afrouxamento das restrições ocorre simultaneamente com a chegada do frio e a aproximação do inverno, período do ano historicamente com a maior incidência de doenças respiratórias no Brasil e que marcou o primeiro pico da covid-19 no país no ano passado.

"É o pior momento possível para você fazer o aprofundamento de medidas de flexibilização das atividades de distanciamento físico no Brasil de forma geral, em especial no Sul e Sudeste", afirmou Orellana, da Fiocruz.

Depois de atingir um pico de 4.249 mortes em um único dia em 8 de abril, o país tem verificado recentemente uma estabilização dos índices da pandemia como resultado de medidas restritivas impostas por Estados e municípios no auge da crise.

As restrições, no entanto, tiveram vida curta na maioria das capitais brasileiras. De acordo com o relatório de mobilidade do Google com base na localização de telefones celulares, a presença de pessoas em locais de trabalho atingiu na semana passada o maior patamar desde o início do monitoramento, com alta de 18% em relação a fevereiro de 2020, período pré-pandemia.

"Nós estamos repetindo erros do passado", disse Alexandre Naime Barbosa, chefe da infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

"Nós já vivemos essa mesma situação quando aparentemente estávamos num platô com uma ligeira tendência de queda no número de casos e média móvel de mortes em setembro/outubro do ano passado quando foi feita a flexibilização das atividades econômicas".

A flexibilização naquele momento acabou por resultar em um agravamento da crise a partir do final de 2020 e início de 2021, levando o Brasil a se tornar o epicentro da pandemia naquele momento, com o colapso do sistema de saúde em praticamente todas as capitais devido à superlotação provocada pela pandemia.

O Brasil possui o segundo maior número de mortes por covid-19 no mundo, com mais de 430 mil, abaixo apenas dos Estados Unidos, e a terceira maior contagem de casos confirmados de coronavírus, atrás dos EUA e da Índia.

Segundo especialistas que acompanham a epidemia no país e no mundo, o Brasil pode se tornar até o final do ano a nação com o maior número de vítimas fatais da doença, à medida que a covid-19 tem recuado nos EUA com o avanço da vacinação em massa, ao contrário do que ocorre no Brasil.

Crise ainda mais grave

A disseminação desenfreada do vírus no Brasil resultou ainda no surgimento de uma nova variante mais transmissível, a P.1, originada em Manaus — a primeira capital brasileira a sofrer o colapso este ano e que já registra nova elevação de casos de síndrome respiratória na últimas semanas após o afrouxamento das medidas restritivas.

"O problema não é exatamente a flexibilização e o retorno das atividades, mas sim a flexibilização e o retorno rápido e irresponsável", disse Orellana, que trabalha na Fiocruz Amazônia, na capital amazonense.

"Manaus já tem um viés de ascensão de incidência de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em função dessa flexibilização das atividades não essenciais de forma precoce e rápida a partir do fim de fevereiro", afirmou.

Boletim da Fiocruz divulgado nesta semana apontou que os locais e atividades de interação social, principalmente em ambientes fechados, com grande número de pessoas e pouco arejados, devem continuar a ser evitados, e alertou que uma nova explosão de casos a partir do patamar epidêmico atual, que permanece elevado, "será catastrófica".

"A observada manutenção de um alto patamar, apesar da ligeira redução nos indicadores de criticidade da pandemia, exige que sejam mantidos todos os cuidados, pois uma terceira onda agora, com taxas ainda tão elevadas, pode representar uma crise sanitária ainda mais grave", disse a fundação.

A flexibilização das medidas restritivas também não encontra embasamento no ritmo atual de vacinação da população brasileira, de acordo com os especialistas, uma vez que o Brasil caminha lentamente na imunização da população.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, 33,5 milhões de pessoas foram vacinadas com a primeira dose no país, o que equivale a 16% da população brasileira, e 15,9 milhões receberam as duas doses, ou 7,5% da população. Somente os grupos prioritários somam 80 milhões de pessoas.

"O que o Brasil deveria estar fazendo nesse momento era vacinação em massa, que é totalmente diferente da vacinação apenas de grupo de risco", disse Orellana.

"Com 3 ou 4 meses de vacinação em massa, e não de frações pequenas, aí sim poderíamos usar o argumento de que a vacinação pode ajudar a frear eventualmente um novo ciclo de contágios e mortes por covid-19, mas absolutamente esse não é o caso do Brasil."

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