"Sistemas político e econômico do Brasil não se modernizaram como o judiciário", diz economista francês

O livro "Brésil, illusions perdues – Du Naufrage au redressement" ( Brasil, as Ilusões Perdidas - Do naufrágio à recuperação, em ...

Com a experiência de mais de 40 anos vivendo no Brasil, o economista, consultor no setor de agrobusiness e membro de think thanks especializados em questões políticas e econômicas, Jean-Yves Carfantan sentiu a necessidade de se dedicar ao livro  a partir de 2005, após a visita do ex-presidente Lula à França. Na época, segundo ele, havia uma "efervescência" dos franceses em relação ao que acontecia no país, visto como uma "potência importante".

"Havia um exagero, uma visão romântica que levou boa parte da opinião pública europeia a cair na armadilha das equipes de comunicação dos governos brasileiros dos últimos 10 anos", afirma. Dessa constatação, o economista se sentiu impulsionado a explicar as ações que levaram à atual crise, especialmente nos últimos cinco anos.

Em sua tentativa de diagnosticar a situação brasileira, Carfantan identificou dois aspectos preponderantes. O primeiro foi o modelo de desenvolvimento adotado para querer transformar o país em uma potência econômica, baseado no "nacional desenvolvimentismo". "Esse modelo se esgotou. Não há mais saída utilizando essa orientação que predominou durante décadas e se remete a um passado, principalmente do Estado Novo, nos anos 1930", segundo o especialista.

Outro ponto ressaltado pelo economista é o sistema de representação política que, aplicado desde a redemocratização do país, em 1985, também fracassou. "É um modelo que deixa muito espaço para a apropriação privada do poder público e para a corrupção, propinas e financiamentos paralelos. Esse modelo quebrou porque, ao contrário do sistema político, o sistema Judiciário se modernizou nos últimos 15 anos. Isso criou um choque entre a velha política e a nova Justiça", afirma.  

Avanços sociais devem ser vistos com cautela

Na entrevista à RFI Brasil, Jean-Yves Carfantan também relativizou os efeitos das políticas sociais e de distribuição de renda que marcaram as duas últimas administrações petistas. "Foi dada uma ênfase às políticas de distribuição de renda, mas com essas políticas você não tira definitivamente a população da pobreza nem reduz as desigualdades sociais. Pouco foi feito no sentido de equalizar as condições das jovens gerações. Pouco foi feito para melhorar o ensino de base e o acesso aos diversos serviços públicos", defende.

Os resultados das políticas públicas devem ser vistos com cautela, segundo ele. "A Bolsa Família, por exemplo, são R$ 29 bilhões, o que representa 0,5% do PIB. O governo gasta muito mais com o sistema de aposentadorias e pensões. A redistribuição foi muito limitada", explica.

Jean-Yves Carfantan diz que no final do mandato do ex-presidente Lula e início da gestão de Dilma Rousseff, o país ainda vivia a euforia provocada pelos altos preços das matérias-primas. "O mercado das commodities funcionou como uma piscina, onde você não enxerga quem está com maiô ou quem está pelado. Quando a água baixou, deu para ver quem estava vestido e quem não", comparou. "Durante esses anos favoráveis, o Brasil não fez as reformas necessárias para melhorar a competitividade de sua economia e principalmente de suas indústrias", destacou.

"Quando a bonança das commodities desapareceu, todas as fraquezas da economia em termos de produtividade e competitividade apareceram e funcionaram como obstáculos para os fatores que levam ao crescimento econômico", completou.

Importância das eleições de 2018

Em seu livro, Carfantan considera que as eleições gerais de outubro no Brasil serão as mais importantes desde o processo de redemocratização do país. As urnas, segundo ele, vão definir o como será o Brasil em 2022, data comemorativa dos 200 anos da independência do país. Para o economista, no voto dos brasileiros está a oportunidade de renovação dos líderes políticos, condição para superar as distorções provocadas pelo regime de "presidencialismo de coalizão".

Diante da situação atual, com o possível afastamento do ex-presidente Lula como candidato, o cenário é de fragmentação e qualquer previsão é arriscada e difícil de ser antecipada, diz. No entanto, o futuro chefe de Estado deverá saber compor com uma base sólida no Congresso, que tem condições de passar por amplas modificações. "Mas isso levará tempo. Não será em outubro que as coisas irão mudar". Nos próximos 15 anos, o Brasil ainda vai poder se aproveitar de uma situação ainda favorável do ponto de vista demográfico, do chamado 'bônus demográfico', ou seja, a população economicamente ativa e com idade de trabalhar ainda é maior do que a população de dependentes, jovens ou idosos.

"Se o Brasil aproveitar esses próximos 15 anos para fazer as reformas necessárias, poderá comemorar os 200 anos de independência com uma certa pujança e volta do crescimento. Caso contrário, o risco é grande de o país se tornar uma das regiões do mundo difíceis de serem frequentadas, com muita violência, se isolando cada vez mais e se desorganizando cada vez mais como sociedade", prevê.  

Para ouvir a entrevista clique na foto acima

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