Confira quem são os black blocs que prometeram "um inferno a Macron"

A manifestação do Dia dos Trabalhadores em Paris teve a infiltração de cerca de 1.200 black blocs que tinham prometido "um dia infernal ao presidente Emmanuel ...

Nas redes sociais, o Mili se apresenta como "um movimento de jovens, estudantes ou não, avesso à hierarquia e adepto da ação direta", leia-se do uso da força, na luta contra os símbolos do capitalismo. Vestidos de preto e mascarados, eles intervêm à margem de manifestações sociais e contra a polícia, depredando lojas, agências bancárias e outros símbolos do capitalismo e da sociedade de consumo. Eles se inspiram nos black blocs surgidos na Alemanha na década de 1980.

Em seu "manifesto" de fundação, datado de julho de 2015, o Mili se deu por objetivo de "romper com o isolamento dos jovens" franceses, oferecendo a eles a possibilidade de se encontrar numa luta coletiva contra "a violência do mundo, existencial e material". O grupo se distingue das organizações sindicais e políticas de direita ou de esquerda por seus objetivos e modos de ação.

"Nós rejeitamos qualquer estrutura hierárquica e não temos um programa de ação [...] mas somos um grupo informal, unido por uma sensibilidade comum e posições adotadas por consenso", diz o Mili. "Além do esforço teórico, nós privilegiamos a ação concreta em torno de temas que se inscrevem em uma dinâmica global de luta contra o capitalismo e seu mundo", completa.

Enquanto na Alemanha os "black blocs" surgiram no meio da contracultura e entre pessoas que queriam viver e se organizar à margem do Estado e do sistema capitalista, combatendo neonazistas e usinas nucleares, na França os "novos anarquistas" tiveram influência principalmente nos movimentos estudantil e antiglobalização.

Governo reconhece que subestimou número de ativistas

O governo francês e as autoridades de segurança enfrentam duras críticas nesta quarta-feira (1), depois dos estragos causados ontem pelos "black blocs". O número de pessoas feridas após a interferência dos ativistas e a resposta cautelosa da polícia foi menor do que no ano passado, mas o balanço de 31 lojas e agências bancárias depredadas e 16 carros incendiados ou danificados deixa um sentimento de perplexidade.

O quebra-quebra aconteceu quando o cortejo de manifestantes passava pela estação de trens de Austerlitz, na zona leste da capital. O contingente de segurança contou com 1.500 policiais. Para muitos especialistas, o efetivo foi mal calculado.

Líderes sindicais e políticos, sejam de esquerda, de centro ou de direita, criticam as autoridades por não terem agido para impedir a violência. As reivindicações trabalhistas foram para o segundo plano, gerando frustração nos manifestantes. O deputado de extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon, ex-candidato à presidência pelo partido França Insubmissa, disse que a passeata dos trabalhadores foi "confiscada por violentos". "Quebrar uma vitrine do McDonalds não é uma atividade revolucionária", observou Mélenchon.

O ministro do Interior, Gerard Collomb, promete reforçar o policiamento nas próximas manifestações e se justifica dizendo que "os ativistas eram o dobro do esperado".

No total, 109 pessoas foram detidas. Pelas redes sociais, o Mili convoca um protesto nesta quarta-feira (2) para obter a libertação dos colegas presos.

"Festa para Macron": novo protesto dia 5 de maio oferece risco

O mês de maio promete ser turbulento na França. Emmanuel Macron completa seu primeiro ano de governo no dia 14 e, paralelamente, acontecem as celebrações dos 50 anos da revolução de Maio de 68. A revolta entrou para a história francesa como um movimento explosivo de contestação social e estudantil.

Em um ano de governo, Macron aprovou um grande número de reformas, mas sem diálogo social suficiente, gerando insatisfação em setores da sociedade. O fim do Imposto sobre a Fortuna (ISF) e outras medidas fiscais favoráveis ao capital colou em Macron a imagem de "presidente dos ricos". O uso recorrente de mecanismos de tramitação de urgência no Parlamento desgastou ainda mais o centrista, contribuindo para a imagem de um governante autoritário.  

Atualmente, greves atingem o setor de transporte ferroviário, áreas da Saúde, do Judiciário e universidades públicas. Os estudantes ocupam faculdades para exigir a revogação de uma reforma aprovada em dezembro passado, que criou um sistema seletivo de admissão de alunos e tem potencial para aumentar as desigualdades sociais, segundo opositores.

No próximo dia 5 de maio, o combativo deputado de extrema-esquerda François Ruffin, da bancada França Insubmissa, convocou o protesto "Festa para Macron", na praça da Ópera, em Paris. Ruffin, um jornalista, ensaísta, cineasta e fundador do histórico movimento "Nuit Debout", que durante meses ocupou a praça da República na capital, em 2016, contra a primeira reforma trabalhista de Macron – então ministro da Economia do governo Hollande –, espera reunir milhares de pessoas descontentes com o governo.

Ruffin convidou os participantes a levar à manifestação "ingredientes" para fazer um prato popular da culinária francesa chamada "pot au feu", em tradução literal "panela no fogo", feito à base de legumes e carne. Para bom entendedor, meia palavra basta. Muitos temem um protesto incendiário. O cartaz de convocação traz uma imagem de Maio de 68 na qual um jovem aparece em posição de luta, arremessando um objeto – no caso legumes –, mas numa clara referência às pedras lançadas pelos estudantes contra a polícia em 1968.

O objetivo da manifestação, que poderá atrair "black blocs", é denunciar o aumento das desigualdades no país, o descaso de Macron com o sofrimento dos franceses hoje excluídos socialmente pelos baixos salários, o desemprego ou as condições precárias de moradia, como explicou o economista e filósofo Frédéric Lordon, um dos articuladores do protesto.

Em uma entrevista coletiva nesta quarta-feira (2), os organizadores da "Festa para Macron" informaram que dois serviços de segurança estarão presentes para evitar a repetição dos distúrbios de 1° de maio. É esperar para ver.

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