Argentina volta a pedir ajuda ao FMI depois de 12 anos

Depois de 12 anos sem assistência do Fundo Monetário Internacional, o governo argentino volta a ver no FMI uma tábua de salvação perante a falta de confiança ...

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Em meio à forte turbulência financeira e a uma nova desvalorização do peso argentino que chegava a cerca de 5% nesta terça-feira (8), o presidente Mauricio Macri anunciou que pedirá ao FMI uma linha de crédito que permita "superar um contexto internacional cada dia mais complexo". Macri disse que já iniciou negociações.

"Há minutos, conversei com Christine Lagarde, diretora do FMI, quem nos confirmou que vamos começar hoje mesmo a trabalhar num acordo", anunciou Macri para surpresa geral. "Durante os primeiros anos [do seu governo iniciado em dezembro de 2015], contamos com um contexto mundial muito favorável, mas isso hoje está mudando", avaliou o presidente, citando a alta da taxa de juros nos Estados Unidos, o preço do petróleo e a desvalorização do peso argentino.

"Somos um dos países do mundo que mais depende do financiamento externo, resultado do enorme gasto público que herdamos", justificou Macri, em referência aos 12 anos dos governos de Nestor Kirchner e Cristina Kirchner. "Tomei esta decisão pensando no interesse de todos os argentinos, não estou mentindo, como tantas vezes nos fizeram", criticou.

Sinal de crise

O retorno ao FMI depois de 12 anos implica um elevado custo político para o presidente Macri tanto no que resta do seu mandato quanto para a sua eventual reeleição no ano que vem. No imaginário coletivo argentino, o Fundo Monetário Internacional é a cara visível de drásticos ajustes impostos ao país e de políticas neoliberais que derivaram em fortes crises econômicas. Se a oposição já associava Mauricio Macri com o neoliberalismo, a decisão do governo reforça agora esse discurso opositor.

Desde o começo do seu governo, Mauricio Macri busca um equilíbrio entre o ajuste necessário na economia para reduzir o inviável gasto público e a pressão social por um Estado que mantenha subsídios. Em vez de um ajuste completo, o governo optou por uma política gradualista.

A decisão de recorrer ao FMI revela a insuficiência das medidas anunciadas na última sexta-feira para conter uma corrida cambial que desvalorizou o peso argentino em cerca de 15% neste ano. Como medidas para conter a sangria, o governo anunciou o aumento da taxa de juros de referência do Banco Central de 32,25% a 40% ao ano, uma taxa considerada insustentável pelos analistas.

Macri também anunciou a redução de 3,2% a 2,7% no déficit fiscal primário, o grande vilão por trás de uma inflação que não baixa de 20% ao ano. A redução do déficit virá da diminuição da obra pública, considerada um dos motores da economia e uma das maiores armas eleitorais do presidente ao gerar empregos. Outra medida insuficiente foi a redução de 30% a 10% na posição global dos bancos em moeda estrangeira. A medida visava jorrar dólares no mercado, reduzindo a pressão a favor do dólar e contra o peso.

Um novo FMI

Antes do anúncio de Macri nesta terça-feira (8), o peso argentino se desvalorizava em 5,3% enquanto as moedas de países vizinhos emergentes como Colômbia ou Brasil se desvalorizavam em 1,4% e 0,8%, respectivamente.

Em março, a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde esteve em Buenos Aires e defendeu a política gradualista de Macri. "O FMI de agora é muito diferente do de 20 anos atrás. Aprendeu as lições do passado e apóia o programa gradual da Argentina", defendeu o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, destacando que o FMI cobra taxas de juros inferiores às praticadas pelo mercado.

O governo não anunciou o montante do empréstimo, mas, segundo fontes do próprio Ministério da Fazenda, a linha de crédito que a Argentina pretende pedir seria 30 bilhões de dólares. A cifra tem o propósito de uma tranquilidade financeira, mas também aponta à corrida eleitoral de 2019.

O mercado não duvida necessariamente da capacidade do governo Macri de obter os cerca de 7 bilhões de dólares que requer para cobrir o déficit deste ano, mas em como obteria os cerca de 26 bilhões de dólares para financiar o déficit de 2019, um ano eleitoral. O maior temor dos agentes econômicos é que Macri perca as eleições, deixando espaço para o retorno do populismo e de um governo menos amistoso aos mercados.

 

 

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