Revistas francesas temem que populistas italianos afundem a Europa

A ascensão do governo de coalizão formado pelo Movimento 5 Estrelas, de retórica antissistema populista, e o partido de extrema-direita Liga na Itália assusta a imprensa semanal.

A revista Le Point chegou às bancas com a manchete: "Será que esses charlatães vão nos arruinar?" A concorrente L'Obs também constata uma situação de alto risco de ruptura na União Europeia, dizendo que está declarada a guerra entre duas Itálias: de um lado os defensores da moeda única e do outro os antieuro.

Para a Le Point, o novo governo populista italiano tem o efeito de um terremoto no Velho Continente. O pior é que a ameaça de implosão da União Europeia ultrapassa amplamente as fronteiras italianas pelo sucesso dos populistas na Hungria, na Áustria, na Alemanha e no Reino Unido, como foi comprovado pelo Brexit (a saída dos britânicos). Desta vez, o bloco pode afundar, estima a revista Le Point.

A Itália é um elefante na loja de porcelana europeia. Terceira economia do continente, o país atravessa uma profunda crise institucional, política, econômica e migratória. A eleição de Emmanuel Macron na França não foi suficiente para reverter a tendência nos eleitorados que sentem um aumento das desigualdades, temem os fluxos migratórios e respondem com um voto populista nas urnas. As eleições que ainda vêm pela frente em países atraídos por essa retórica, como a Eslovênia, neste domingo (3), a Suécia, a Dinamarca e a Polônia, podem agravar ainda mais esse quadro.

Fenômeno se alastra

O cientista político francês Dominique Reynié, diretor da Fundação para a Inovação Política, diz nas páginas da Le Point que os populistas estão conquistando a Europa. É um fenômeno que se afirma a cada eleição, apesar do discurso dos que dizem que o risco foi superado e a zona do euro recuperou sua estabilidade.

Para as eleições do Parlamento Europeu em maio de 2019, ele antecipa um plenário amplamente dominado por deputados críticos à União Europeia e antieuro. Os eleitores têm enviado o recado, mas os dirigentes insistem em não compreender a mensagem. A elite política tradicional é pró-europeia, mas errou ao ignorar os sinais enviados da base, deixando os populistas denegrir o projeto europeu. Agora, eles ocuparam o espaço e manipulam a opinião pública com promessas falsas, como guardar as vantagens da União Europeia e jogar fora tudo o que não presta. Uma ilusão.

Na L'Obs, o jornalista e escritor italiano Roberto Saviano, autor do bestseller "Gomorra" sobre a atuação das máfias italianas e sua relação com as instituições do país, adverte que o populismo não é um meteorito, um fragmento que cai repentinamente na Terra. O populismo tem raízes profundas.

Saviano critica os últimos governos do país que acreditaram que distribuindo migalhas aos mais pobres, principalmente a população do sul, eles iriam se aquietar. Nenhum governo recente teve um projeto concreto de desenvolvimento para o sul da Itália, uma região carente e considerada perdida para a máfia, ressalta Saviano. Mas nas eleições, os italianos do sul se manifestam no voto populista. Mas que ninguém se engane, adverte o autor de "Gomorra": o fenômeno se alastra e não é um mal exclusivo da Itália.

Outro escritor italiano, Erri de Luca, acredita que os italianos não darão as costas à União Europeia. « Eles rejeitaram os políticos tradicionais nas últimas eleições por causa da corrupção, da arrogância dos poderosos e da sensação de terem se tornado objetos de um Estado feudal », conclui Erri de Luca. Mais um recado, talvez em vão.

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