Participação brasileira no torneio juvenil de Roland Garros é histórica

Com cinco jogadores no quadro masculino e uma no feminino, o Brasil tem uma presença histórica na edição de 2018 no torneio juvenil de Roland Garros.

"Na época do Guga, a gente colocava dois jogadores, algumas vezes três. Desta vez temos cinco. Sem sombra de dúvida é histórico para nosso tênis", comemora Rafael Kuerten, presidente do Grupo Gustavo Kuerten, que administra um grande projeto ligado à expansão e desenvolvimento do tênis, não apenas como atividade esportiva, mas para formação de futuros campeões.

Rafael está à frente do projeto da Escolinha Guga, que começou há nove anos com crianças de 5 a 10 anos. Hoje são mais de três mil, espalhadas por meio de uma rede de franquias com o nome do ex-tricampeão de Roland Garros. Depois, foi desenvolvida uma estrutura para  garotos de 11  a 15 anos, que funcionou como embrião da Equipe Guga, criada no ano passado para investir no que Rafael chama de "nata" dos atletas identificados nas escolas Guga com forte potencial para se tornarem profissionais.  

 "Naturalmente, os melhores vão se destacando e subindo e são garotos mais qualificados. Somado a isso, com o conhecimento que adquirimos e com essas apostas, estamos fazendo eles jogarem na Europa, nos Estados Unidos, o que não acontecia antes. O calendário desses meninos hoje  é melhor do que o do Guga. Não tenho dúvida de que daqui a oito ou dez anos você vai me entrevistar e dizer: Rafael, você tinha bola de cristal? Não, é resultado do trabalho que está sendo feito", sentencia.

O nome do ex-tricampeão do Aberto da França tem forte apelo não apenas para expandir os negócios, mas também para atrair atletas que sonham em repetir o feito do catarinense. Sua história mais motiva do que gera pressão nas novas gerações, segundo o irmão Rafael.  

"Quando o jogador passa a ser profissional e passa a se destacar, começam a comparar: 'quando é que vai ficar igual ao Guga, ganhar três vezes o Roland Garros?'. Calma, é passo a passo. Não é assim. Para esses jogadores que estão vindo e começando a sonhar mais alto, é motivacional. Vi jogos dos juvenis e eles se dando 110% em quadra, e não 100%. Esse algo a mais é fruto dessa atmosfera que traz o Guga. Passa um filme na cabeça deles e assim como eu quero vê-los aqui, eles começam a se imaginar também", garante.

Mateus Alves, de 17 anos, é a aposta do Time Guga em Roland Garros. Ele venceu duas partidas do qualifying antes de figurar no quadro principal do torneio e se diz feliz pela primeira participação e classificação em um Grand Slam.

"Venho de uma grande preparação de torneios na Europa e também no Brasil. Esse torneio é muito importante para mim, é quase um sonho se realizando, jogando um Grand Slam e tendo a oportunidade de jogar esse torneio. A cada dia que passa tenho mais motivação para jogar", diz.

Representar o Time Guga é uma responsabilidade que ele encara com muita naturalidade e entusiasmo.

"É uma bela motivação, com certeza. Traz muitas recordações, a experiência dele, traz muita motivação para estar jogando e dando o melhor dentro de quadra. Ver os vídeos dele jogando aqui é muito bom, muito motivante", ressalta.

Mateus é orientado por Thiago Alves, ex-jogador profissional que investiu em um centro de treinamento em São José do Rio Preto, que tem parceria com o Instituto Guga Kuerten. Para ele, essa geração está melhor amparada pela estrutura desenvolida nos últimos anos no país e que permite que muitos atletas possam viajar e frequentar o circuito de tênis.     

"O mais importante para eles é entender essa questão dos treinamentos, da vivência dentro do circuito. O circuito é bem desgastante. Eles têm que achar essa motivação, essa inspiração, principalmente em uma ambiente como esse, para eles terem mais claro os sonhos na cabeça", diz Thiago.

 "Poucas vezes se teve ex-jogador participando da transição, isso foi um problema grande. Poucas vezes se teve ex-jogadores que jogaram o circuito fazendo parte dessa transição. O momento é favorável", aponta.  

Thiago também treina o baiano Natan Rodrigues, 16 anos. Ele começou no tênis aos cinco anos e aos dez já disputava competições. Com o apoio da família, mudou-se para São José do Rio Preto e aposta na carreira.  Atualmente ocupa a sexta posição do ranking mundial da Federação Internacional de Tênis (ITF). Ele faz parte de uma das apostas do Instituto Guga, veio disputar o qualifying e não passou, mas não desanimou: "O meu ano é em 2019. Fui até precoce, posso disputar até os 18. Serviu como experiência. É importante demais."

João Pedro Lopes Ferreira, de 17 anos, também não conseguiu passar no qualifying, mas destacou a importância da estar no ambiente. "É uma experiência legal. Só de sentir o clima de Roland Garros é muito bacana. Você vê os jogos, a galera. Eu vi o Djokovic jogar, a energia da torcida e vi que é o lugar onde quero estar daqui a alguns anos", diz.  

Cultura de alto rendimento

Mateo Reyes, de 17 anos, venceu o torneio "Wild Card" classificatório proposto pela Federação Francesa de Tênis em parceiras com o Brasil e outros países. Assim como Ana Paula Melilo, no feminino, Reyes derrotou em Paris adversários da Índia e China para conquistar a vaga no quadro principal.    

"Aqui estão os melhores juvenis do mundo. Tenho muito que aprender com eles", diz o tenista que nasceu no Equador, chegou no Brasil aos 12 anos e atualmente treina em Itajaí.

"Tem lugares muito bons no Brasil. O país tem um bom nível em todos os torneios. Eu gostaria de jogar não apenas esse torneio juvenil, mas também professional. Quem sabe um dia eu chego lá", afirma.  Para ele, a participação em Roland Garros é uma experiência importante nesta fase da carreira. "Serve para ver como é o circuito e como eu estou em relação so melhores tenistas juvenis", diz.          

Já o pernambucano João Reis da Silva, de 17 anos, 46° do ranking juvenil, entrou direto na chave principal pela primeira vez, depois de uma boa semana de jogos na Bélgica.

"Para mim é o meu Grand Slam favorito dos quatro, estou muito feliz. Meu maior objetivo é passar pela primeira rodada e ganhar cada jogo".

João saiu de Recife há quatro anos com a família para São Paulo, para investir no tênis, com o objetivo de se tornar um profissional. Aos 14 anos, ele já participou de sua primeira gira europeia e é uma das grandes apostas do Instituto Tênis, criado em 2002 pelo empresário Jorge Paulo Lemman para mudar a realidade do esporte no país e dar mais ambições aos atletas. O Instituto se estruturou como empresa sem fins lucrativos.

Até 2008, o foco do Instituto era na transição do juvenil para o professional, explica Cristiano Borrelli, diretor-executivo do Instituto Tênis.

Na fase seguinte, a decisão foi trabalhar com atletas de 12 anos e, a partir de 2018, entrou em vigor uma nova estratégia, de criar uma escolinha para atrair crianças a partir de 5 anos.

No caminho para encontrar o "novo Guga"

Além da matriz de alto rendimento em São Paulo, o Instituto aposta no trabalho de "massificação" do tênis já implementado em seis estados. O objetivo é levar o esporte para as escolas públicas, com foco em crianças de seis a 10 anos. "É levar o tênis para outra camada social do Brasil, onde a gente acredita que tem potencial, mas que está reprimido porque é uma população que não teria oportunidade de pegar em uma raquete", diz Cristiano.

Segundo ele, o Instituto já levou a modalidade para 35 mil crianças. "A médio e a longo prazo, a gente acredita que terá 0,01% desse público com potencial para almejar uma carreira profissional", aposta.

Além do Time Gustavo Kuerten, do Instituto Tênis de São Paulo, dois atletas do Instituto Route, no Rio de Janeiro, se classificaram para o torneio juvenil do Grand Slam francês. Segundo Cristiano, essa presença histórica é sinal de que no Brasil está sendo desenvolvida uma cultura de alto rendimento para o tênis.  

"É uma cultura de alto rendimento que está sendo criada. Isso só enriquece o tênis do Brasil. Sabendo que para chegar numa França, Espanha, serão mais anos e anos de trabalho, e alcançando resultados para que isso se torne um ciclo virtuoso, onde toda a comunidade do tênis, atletas, pais e apoiadores, acreditem que é possível fazer isso no Brasil", diz.

Desde as conquistas de Gustavo Kuerten no circuito profissional, que o levou ao número 1 do ranking, o Brasil não revelou mais nenhum jogador que pudesse atingir o topo do tênis. No entanto, o país avança na criação de condições para surgir outros atletas de alto nível no concorrido circuito do esporte.  

"Eu acho que não existe um processo criado para formar um número 1. Existe um processo para criar uma plataforma onde os tenistas vão estar competindo entre os cem melhores do mundo, no masculino e no feminino. Quando você cria essa plataforma, dá um pouco de escala, você quer sonhar com aquele indivíduo que tem todo o conjunto de fatores para ser o número 1. Então, é criar uma plataforma, um processo no país todo e que, numa população de mais de 200 milhões de habitantes, acreditar que existe um outro tenista com as qualidades que o Guga tinha", conclui.

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