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G20: EUA saem do Acordo de Paris e cúpula evita falar em guerra comercial

01/12/2018 17h17

Declaração final dos líderes do G20 aponta reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), igualdade de gênero na economia, preocupação com refugiados e cooperação Sul-Sul. Revitalização do comércio internacional foi a saída diplomática para encarar a guerra comercial entre Estados Unidos e China sem mencionar os termos "protecionismo" nem "livre comércio". Grande expectativa com a reunião bilateral entre Donald Trump e Xi Jinping acena com possibilidade de uma trégua no conflito.

Declaração final dos líderes do G20 aponta reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), igualdade de gênero na economia, preocupação com refugiados e cooperação Sul-Sul. Revitalização do comércio internacional foi a saída diplomática para encarar a guerra comercial entre Estados Unidos e China sem mencionar os termos "protecionismo" nem "livre comércio". Grande expectativa com a reunião bilateral entre Donald Trump e Xi Jinping acena com possibilidade de uma trégua no conflito.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Sem rodeios, a declaração final dos líderes do G20 confirmou que "os Estados Unidos reafirmam a sua decisão de retirarem-se do Acordo de Paris", mas suavizou a drástica decisão com um "forte compromisso do país com o crescimento econômico e com o acesso à energia, utilizando todas as fontes de energia e tecnologias, protegendo o meio-ambiente".

"Esse capítulo revela que persistem diferenças entre os Estados Unidos e o resto dos países", sublinhou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Embora a Espanha não pertença ao G20, o país é convidado permanente do grupo.

Fora os Estados Unidos, todos os demais países reafirmaram que "o Acordo de Paris é irreversível e comprometeram-se com a sua plena implementação". O Brasil, que dentro de um mês terá novo presidente - que já declarou querer rever esse acordo -, também se comprometeu com esse ponto.

Comércio internacional

A abordagem sobre o comércio internacional evitou a dicotomia "protecionismo e livre comércio". Apenas indica que os países "notam problemas comerciais atuais" e que "reafirmam a promessa de usar todas as ferramentas políticas para alcançar um crescimento forte, sustentável, equilibrado e inclusivo", adjetivos que abrangem todos os interesses.

"Renovamos nosso compromisso de trabalharmos juntos para melhorar uma ordem internacional baseada em regras, capaz de responder eficazmente a um mundo em rápida mudança", defendem os líderes do G20, responsáveis por 85% do PIB mundial e por 75% do comércio internacional.

"Os Estados Unidos não aceitaram a palavra 'protecionismo' porque consideram que são abertos. Todos apostamos ao comércio crescente entre os nossos países. Nesse sentido, apoiamos a reestruturação da OMC para que esse crescimento seja em termos igualitários", explicou o anfitrião argentino, Mauricio Macri.

"Além disso, não tem sentido apontar o protecionismo quando, dentro de horas, os presidentes de Estados Unidos e China vão-se reunir para tratar do assunto", concluiu Macri, em referência ao jantar o norte-americano Donald Trump terá com o seu rival chinês Xi Jinping aqui em Buenos Aires. A guerra comercial compromete o crescimento econômico do mundo.

A declaração destaca ainda "a contribuição que o sistema multilateral de comércio tem dado para esse fim", mas "o sistema está atualmente aquém dos seus objetivos e há espaço". "Por isso, apoiamos a necessária reforma da OMC para melhorar o seu funcionamento", diz o texto, indicando que "o assunto será analisado na próxima reunião de Cúpula".

"Empoderamento feminino"

A igualdade de gênero é considerada como "crucial para o crescimento econômico e para o desenvolvimento sustentável". Nesse sentido, os líderes se comprometem a "reduzir a brecha de gênero na força de trabalho" com taxas de participação feminina de 25% até 2025.

Também anunciam a promoção de "iniciativas destinadas a pôr fim a todas as formas de discriminação contra as mulheres" e comprometem-se a "promover o 'empoderamento' econômico das mulheres" e a "reduzir as disparidades salariais entre homens e mulheres", além de "promover o acesso das mulheres a posições de liderança e de tomada de decisão".

A crise humanitária dos refugiados aparece como "uma preocupação global" com os "grandes movimentos de migrantes" a partir de questões humanitárias, políticas, sociais e econômicas.

"Enfatizamos a importância de ações compartilhadas para abordar as causas básicas de deslocamento e responder às crescentes necessidades humanitárias", declara o G20.

Cooperação Sul-Sul

Um aspecto que mereceu destaque na declaração foi "o reconhecimento que as cooperações Sul-Sul e a triangular têm". "Sublinhamos o nosso apoio à Parceria do G20 com a África", enfatizam os líderes. Esse ponto contradiz os anúncios do presidente brasileiro eleito, Jair Bolsonaro, de diminuir a presença brasileira na África.

Sem acordo no G20, a disputa comercial entre Estados Unidos e China terá um novo round em Buenos Aires nas próximas horas. Para Donald Trump, a aproximação das potências neste sábado depende de um gesto de maior abertura da economia chinesa. A China estaria convicta da necessidade de abrir gradualmente a sua fechada economia. Trump é um obstáculo para a China, mas a guerra comercial também atinge a economia norte-americana.