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Líder de Maio de 1968 condena "coletes amarelos" por desejarem governo totalitário

04/12/2018 11h21

Em entrevista à rádio France Inter, o líder da Revolução de Maio de 1968, Daniel Cohn-Bendit, negou nesta terça-feira (4) semelhanças entre o movimento social dos "coletes amarelos" e a revolta estudantil que liderou nos anos 1960. "Eles têm como ideal político um governo de mão forte, totalitário", disse Cohn-Bendit. O ex-parlamentar considerou inadmissível que porta-vozes do movimento, de perfil moderado e apartidário, sejam alvo de ameaças de morte por aceitar dialogar com o governo.

Em entrevista à rádio France Inter, o líder da Revolução de Maio de 1968, Daniel Cohn-Bendit, negou nesta terça-feira (4) semelhanças entre o ...

"Em 1968, lutamos para tirar um general [Charles de Gaulle] do poder; hoje, os coletes amarelos lutam para colocar um general no poder", explicou Cohn-Bendit. O ex-líder estudantil e ex-deputado do Parlamento Europeu referia-se a Pierre de Villiers, o ex-comandante do Estado Maior das Forças Armadas que Macron demitiu após sua posse e que alguns "coletes amarelos" gostariam de ver na chefia do governo.

Cohn-Bendit defende medidas para diminuir as imensas desigualdades entre os altos e baixos salários na França, mas critica severamente o radicalismo de uma parte dos "coletes amarelos" que recorrem à violência e defendem a substituição de Macron por um governo autoritário. Ele também condenou o discurso de ódio da extrema esquerda contra o centrista.

"Vivemos num período de tentação autoritária, num contexto de fratura da sociedade, de desigualdades sociais e injustiça social profunda, como se não houvesse mais democracia, e existe a tentação de reponder à essa situação com um governo totalitário", insistiu Cohn-Bendit.

A infiltração de militantes de extrema direita e de extrema esquerda no movimento dos "coletes amarelos" tem ampliado a crise, com manifestantes radicalizados. "A emergência dessas tendências na sociedade me dá medo", enfatizou Cohn-Bendit.

Ele aconselha ao governo uma revisão completa de suas políticas, reunindo em torno de uma mesa de negociações representantes da sociedade civil, sindicatos, os chamados corpos intermediários, para discutir formas de redução das desigualdades. Em relação à tributação ecológica que serviu de estopim aos protestos, o esforço de pagamento deve recair sobre os salários mais elevados, e não sobre os franceses que ganham o salário mínimo, afirmou Cohn-Bendit.

"Macron deve repensar suas posições"

Para o ex-eurodeputado, mais do que um grave conflito social, a França atravessa uma crise política. "Macron frustrou as expectativas da população e suas promessas de campanha, de melhorar o funcionamento da economia diminuindo, ao mesmo tempo, a fratura social", assinala. Segundo Cohn-Bendit, Macron não conseguiu demonstrar com medidas concretas que caminha nesta direção. Ele acredita que o centrista tenha capacidade e agilidade suficientes para corrigir suas políticas, mas primeiro deve fazer um autoquestionamento.

Sobre a suposta arrogância de Macron, que não teria a menor empatia pelos mais pobres, Cohn-Bendit disse que ele precisa aprender a adotar uma postura mais conciliadora. "Mesmo que Macron tenha razões para eliminar o Imposto sobre a Fortuna, ele não precisa se comportar sempre como o primeiro da classe", argumentou.

"É preciso dizer a verdade: ele não tem nenhuma experiência política. Macron chegou lá porque nenhum adversário conseguiu ganhar a eleição. Mas agora ele descobre os meandros da política e isso não é vergonhoso", disse o ex-eurodeputado. Cohn-Bendit assinalou pontos positivos na ação de Macron, principalmente no cenário europeu.