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Disputa política entre irmãs encarna polarização na Venezuela

26/02/2019 15h52

Elas compartilham o mesmo sangue e sobrenome, mas não os ideais políticos. As irmãs Ivette e Jeaneth Ledezma são exemplo da polarização política presente na Venezuela. Esta ruptura, uma das características do país, começou com a chegada ao poder do ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013). Ao longo desses 20 anos muita coisa mudou, mas as divergências ideológicas continuam.

Elas compartilham o mesmo sangue e sobrenome, mas não os ideais políticos. As irmãs Ivette e Jeaneth Ledezma são exemplo da polarização política presente na Venezuela. Esta ruptura, uma das características do país, começou com a chegada ao poder do ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013). Ao longo desses 20 anos muita coisa mudou, mas as divergências ideológicas continuam.

Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

A polarização política na Venezuela ficou ainda mais evidente neste sábado (23) quando parte do carregamento da ajuda humanitária que entrou pela Colômbia foi incendiado. O autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó, afirmou que a ajuda humanitária servirá para atender pessoas em situação de risco e doentes sem acesso a medicamentos.

A contadora pública Jeaneth Ledezma defende o governo de Nicolás Maduro. Ela rejeita que o país precise desse apoio porque “a ajuda humanitária é dada pelo Unicef, pela Cruz Vermelha, não por um governo, e menos ainda trazendo tropas”. Jeaneth explica que “nós não estamos em guerra para trazerem comidas desidratadas ou medicamentos para guerra. Nós não precisamos disso”.

Sua irmã, a terapeuta Ivette Ledezma, considera que a decadência do país, gerada por fatores internos e externos, faz com que a ajuda humanitária seja bem-vinda. Esta opositora de Maduro explica que “com a redução das entradas de dinheiro pela venda do petróleo, e com as sanções - não ao povo venezuelano e sim ao governo -, começamos a ver as carências de comida, remédios e até de mão-de-obra, com a massiva migração”.

Pelo menos 3,4 milhões de venezuelanos já saíram do país nos últimos anos, de acordo com a Organização das Nações Unidas.

O petróleo é responsável por cerca de 95% da economia venezuelana. O primeiro mandato do presidente Nicolás Maduro, em 2013, foi marcado pela queda dos preços da commodity. A falta de manutenção nas refinarias levou à queda da produção petroleira e, em consequência, a uma retração da economia venezuelana.

A crise no país abrange vários setores. Esta soma de fatores levou em 2017 centenas de venezuelanos às ruas pedindo a saída de Maduro. O resultado foi mais de 130 mortos, milhares de feridos e presos, e a fragmentação da oposição.

Surgimento de Guaidó

Durante 2018 os opositores se mantiveram à deriva. Neste meio tempo, um político até então inexpressivo se preparou para dar uma cartada no governo de Maduro: Juan Guaidó.

Segundo as regras do Legislativo, em 2019 a presidência da casa estaria nas mãos do partido Voluntad Popular (VP). Seus principais nomes, no entanto, estão fora de cena: Leopoldo López está em prisão domiciliar; Freddy Guevara, asilado na embaixada do Chile, em Caracas, e Carlos Vecchio e David Smolansky, exiliados nos Estados Unidos. O único nome livre é Juan Guaidó.

O segundo mandato de Nicolás Maduro é questionado pela comunidade internacional e pela oposição venezuelana. Eleito com alta abstenção, ao não reconhecer o legislativo, e acusado de estar em desacato, Maduro tomou posse no Tribunal Supremo de Justiça em não na Assembleia Nacional, como determina a Constituição. No primeiro protesto convocado por Juan Guaidó, milhares de pessoas lotaram as ruas de Caracas, e ele se autoproclamou presidente interino.

Os embates políticos que fermentam o cotidiano das duas irmãs

Ivette Ledezma explica que “é importante esclarecer que ele não se autoproclamou [presidente interino]. Ele é apegado à Constituição e se juramentou diante de quem o reconhece como líder”, diz. Juan Guaidó seria, para ela, o rosto revigorado da oposição venezuelana.

Seu impacto no cenário político nacional e internacional pegou muitos venezuelanos de surpresa. Jeaneth foi uma delas: “A Constituição diz que só existe um presidente, que é eleito pelo povo. Que se autoproclamem, isso não está previsto na Constituição. Eu sequer o conhecia”, afirma, sobre Guaidó.

Os índices demonstram a situação do país. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação venezuelana em 2019 deve chegar a 10 milhões por cento. No cotidiano, isso é traduzido em desânimo. Para Ivette, o engenheiro opositor de 35 anos é sinônimo de esperança porque “ele é o ícone, o representante de todos e de cada um dos venezuelanos que quer sair deste governo, que quer a liberdade de poder aproveitar a segurança, os alimentos, remédios... Guaidó é isso”.

Já Nicolás Maduro afirma que a crise é fruto da influência estrangeira. A cada dois meses o presidente renova o decreto de emergência econômica, lançado em 2016. Jeaneth explica que “a crise econômica é induzida, isso é perceptível por qualquer pessoa”.

O cotidiano dos venezuelanos é difícil, sobretudo nas classes populares. O país está em marcha lenta. Faltam não só remédios e alimentos, mas também transporte público, energia elétrica, água, dinheiro em espécie e até mesmo gasolina neste país membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Ivette Ledezma garante que a “situação na Venezuela é entre a esperança e uma calma disfarçada. Tem muita repressão, tanto emocional como psicológica. As pessoas estão cansadas de não terem o que comer, de não terem como pagar uma passagem ou de terem mais ou menos um emprego que não é suficiente nem para comer”.

De acordo com organismos internacionais, diariamente 500 pessoas saem do país em busca de melhores oportunidades.