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Protestos tentam derrubar lei de cidadania na Índia: "Sou hindu, mas não quero um país hindu"

23/12/2019 14h02

O governo nacionalista hindu de Narenda Modi enfrenta a maior onda de protestos registrados nos últimos anos. Há duas semanas, milhares vão às ruas da Índia contra a nova lei da cidadania, considerada discriminatória pelos muçulmanos, que são 14% da população.

O governo nacionalista hindu de Narenda Modi enfrenta a maior onda de protestos registrados nos últimos anos. Há duas semanas, milhares vão às ruas da Índia contra a nova lei da cidadania, considerada discriminatória pelos muçulmanos, que são 14% da população.

De Angel Martinez Cantera, correspondente da RFI em Mumbai

O governo nacionalista hindu de Narenda Modi enfrenta a maior onda de protestos registrados nos últimos anos. Há duas semanas, milhares vão às ruas do país contra a nova lei da cidadania, considerada discriminatória pelos muçulmanos, que são 14% da população.

Sob forte repressão, ao menos 25 pessoas foram mortas e mais de 1.500 foram presas durante as manifestações contra a mudança na lei de cidadania.

A emenda legislativa, aprovada no dia 11 de dezembro pelo Parlamento, facilita a nacionalidade para imigrantes irregulares de países vizinhos (Afeganistão, Paquistão e Bangladesh) que chegaram ao país antes de 2015, desde que não sejam muçulmanos.

Os opositores consideram a lei preconceituosa e dizem que ela contraria a Constituição indiana.

O primeiro-ministro Modi disse no domingo (22) que os indianos muçulmanos não têm que se preocupar e responsabilizou a oposição por mentir para provocar as mobilizações.

Medo do avanço nacionalista

Mas os 200 milhões de indianos que pertencem a esta minoria religiosa têm medo desta e de outras políticas de governo, como explica Irfan A. Engineer, do Centro para o Estudo da Sociedade e do Secularismo: "com a lei do Registro Nacional da Cidadania, que logo estará em vigor, os cidadãos indianos muçulmanos sem documentos serão considerados imigrantes ilegais", assegura o pesquisador.

Cerca de 90% dos indianos muçulmanos são de origem pobre e 74% são analfabetos. Sem propriedades nem diplomas escolares, milhões poderiam ser declarados ilegais conforme a lei do registro de cidadania e não poderão pedir asilo devido à sua religião.

Os muçulmanos não são a única minoria religiosa que teme o governo indiano. Dolphy D'Souza, presidente de um dos maiores grupos cristãos do país, explica seu apoio às manifestações: "Os linchamentos públicos e os ataques a instituições cristãs estão em auge. Por isso apoiamos lado a lado as outras minorias religiosas e aqueles que não creem em Deus."

Divisão religiosa

A ameaça do nacionalismo hindu também paira sobre outros setores do país. "As tribos e castas mais baixas não são apenas discriminadas, mas perseguidas. Há um fator de medo que [o governo] usa para silenciar o descontentamento, dizendo que os muçulmanos voltarão a governar", afirma Prakash Ambedkar, líder do partido Vanchit Bahujan Aghadi.

Seu avô, um dos arquitetos da Constituição indiana, é uma das figuras históricas relembradas neste momento, quando o espírito secular do país está por um fio.

"Sou hindu mas não quero uma nação hindu. Durante a luta pela independência, nosso país foi dividido com base na religião e milhões de pessoas sofreram com isso. Não deixaremos que isso aconteça outra vez", assegura uma manifestante.

Como ela, outras 10 mil pessoas se reuniram na última quinta (19) na esplanada de Mumbai em que Gandhi deu início ao movimento que popular que colocou fim ao regime colonial britânico.

A crise enfrentada pela Índia tem duas saídas possíveis, para o jornal francês Le Monde, ou o governo Modi deixa a situação piorar, podendo assim colocar o país sob estado de emergência nacional, ou ele deixa a Corte Suprema anular o texto controverso.

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