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Apesar de demissão de Alvim, política cultural "totalitária" continua no Brasil, diz imprensa francesa

Roberto Alvim foi demitido da função de secretário de Cultura do Brasil após discurso com referências nazistas - Reprodução/Facebook
Roberto Alvim foi demitido da função de secretário de Cultura do Brasil após discurso com referências nazistas Imagem: Reprodução/Facebook

20/01/2020 11h04

Os jornais franceses desta segunda-feira (20) ainda repercutem o escândalo criado com a citação nazista de Roberto Alvim que levou à demissão do secretário de Cultura do Brasil. O jornal Libération aponta que o "delírio nazista" não é um fato isolado no país e que a "indignação dos pró-Bolsonaros foi seletiva". "O Brasil de Bolsonaro em guerra contra seus artistas" é o título do Le Figaro.

Os jornais franceses de hoje ainda repercutem o escândalo criado com a citação nazista de Roberto Alvim que levou à demissão do secretário de Cultura do Brasil. O jornal Libération aponta que o "delírio nazista" não é um fato isolado no país e que a "indignação dos pró-Bolsonaros foi seletiva". "O Brasil de Bolsonaro em guerra contra seus artistas" é o título do Le Figaro.

O jornal conservador diz que desta vez "o alerta vermelho" foi acionado e que o presidente brasileiro foi obrigado a exonerar o secretário da Cultura após seu plágio do discurso do chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, e a onda de indignação provocada pelo episódio. Citando a imprensa brasileira, a matéria informa que apesar dos protestos de organizações judaicas, da Alemanha e da classe política, Roberto Alvim caiu somente após a intervenção do embaixador de Israel, um país "cortejado" por Bolsonaro.

Para o meio artístico, esse discurso é uma ilustração caricatural da "guerra cultural" lançada pelo governo Bolsonaro desde sua chegada ao poder, no ano passado. O ex-ministro da Cultura e deputado Marcelo Calero, entrevistado pelo Le Figaro, afirma que o presidente considera o meio cultural como "um inimigo e, de fato, persegue os artistas que ousam contestá-lo".

Censura "não assumida"

Também entrevistado pelo correspondente do jornal no Brasil, o cineasta Antônio d'Avila, que teve um projeto de documentário sobre a ditadura bloqueado pela Ancine, denuncia "a censura não assumida da política cultura atual". Segundo ele, pela primeira vez no Brasil há "um filtro" para escolher os projetos artísticos a serem financiados, particularmente no cinema, que é uma indústria importante para a economia brasileira.

Lembrando a decisão do juiz carioca que mandou a Netflix suspender o especial de Natal da Porta dos Fundos, Le Figaro relata que nem sempre a censura é dissimulada no país. Ao correspondente do Le Figaro, o diretor Antônio d'Avila diz esperar que uma resistência contra a censura vá se organizar no Brasil.

"Indignação seletiva"

Libération diz que a indignação dos pró-Bolsonaros contra o plágio de Goebbels por Roberto Alvim e suas ambições nacionalistas foi "seletiva". "Alvim foi demitido, mas sua política cultural continua". Com a exoneração do secretário de Cultura na última sexta-feira (17), o presidente de extrema-direita brasileiro acredita que tudo teria voltado ao normal, escreve o diário. Mas esta foi "uma volta à normalidade estranha".

Fazendo referência a um tuíte do pesquisador Murilo Cleto, especialista em novos movimentos conservadores, Libération aponta que daqui para frente "o governo brasileiro só fará referências aos líderes que têm afinidades com Bolsonaro: Duterte, Trump, Salvini ou Pinochet. O nazismo, nunca mais!"

O psicanalista Tales Ab'Saber ressalta nas páginas do jornal, que a polêmica "desmascarou a natureza profunda do governo Bolsonaro". Os mais otimistas veem no caso o sinal de que "o extremismo tem limites, mesmo para o incivilizado Bolsonaro". Na verdade, o presidente só reagiu porque foi pressionado, principalmente pela Confederação israelense do Brasil, sublinha o artigo.

"Delírio nazista" não é fato isolado

O escritor Michel Laub fustiga a elite brasileira que, "seduzida pela promessa das reformas econômicas liberais, "fechou os olhos para as declarações racistas, contra as minorias e artistas, do presidente.

Libération cita também Eliane Cantanhêde, editorialista do Estado de São Paulo, para quem o "delírio nazista de Roberto Alvim não é um fato isolado". Ele se inscreve em um contexto favorável, onde, de tempos em tempos, responsáveis políticos ameaçam com o retorno do AI-5 e que o próprio Bolsonaro homenageia ditadores sanguinários.

Portanto, a exoneração do secretário da Cultura não transformará o governo Bolsonaro em um governo democrático, alertam críticos do governo citados por Libération. Sua política "totalitária", com o apoio de projetos artísticos em conformidade com os valores bolsonaristas de defesa da pátria, família e religião, persiste. E isso tudo, sem preocupar demasiadamente a "opinião pública".

Imprensa internacional repercute discurso de Roberto Alvim

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