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"É a última bala contra a cabeça dos palestinos", diz ativista sobre plano de paz de Trump

29/01/2020 14h33

Para um ex-militante palestino e ex-preso em Israel, o plano de paz anunciado na Casa Branca só existe para apoiar Israel e pode levar à violência.  

Para um ex-militante palestino e ex-preso em Israel, o plano de paz anunciado na Casa Branca só existe para apoiar Israel e pode levar à violência.

 

O ex-combatente palestino Jamil Kasas, 47, está preocupado. Morador de Belém, na Cisjordânia, ele não vê com bons olhos o chamado "Acordo do Século", o plano de paz divulgado nesta terça-feira (28 de janeiro), em Washington, pelo presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Para Kasas, trata-se apenas de documento de apoio a Israel que pode aumentar ainda mais a frustração dos palestinos e levar a mais violência na região.

Jamil Kasas foi preso diversas vezes pelo exército israelense ainda adolescente na Primeira Intifada palestina (1987-1990) por jogar pedras contra soldados. Sua mágoa só piorou depois que seu irmão foi morto. Mas, anos depois, ele foi trabalhar em Jerusalém e, convivendo com israelenses comuns, percebeu que tinha mais em comum com eles do que pensava. Decidiu ingressar na ONG "Combatentes pela Paz", que une ex-soldados e ex-militantes palestinos que acreditam na não-violência e na possibilidade de paz.

Agora, no entanto, ele vê sua frustração crescer novamente e teme que os palestinos retomem ações violentas, mesmo que ainda advogue pela não-violência na luta pela causa palestina.

RFI - O que você sentiu ao ver a apresentação do chamado "Acordo do Século" na Casa Branca?

JAMIL KASAS - Desde que Trump chegou ao poder e reconheceu Jerusalém como capital do lado israelense, não há surpresas. A única surpresa, talvez, é que esse plano foi ainda mais pró-Israel. Trump não levou em consideração nenhuma decisão anterior da ONU, nada de planos anteriores. Ele só quer apoiar o lado de Israel e do governo de Netanyahu. É como se dissesse aos palestinos: se vocês quiserem participar, ok. Se não quiserem, problema de vocês. Ele disparou uma última bala contra a cabeça dos palestinos e a paz entre Israel e os palestinos.

Os moradores de Belém se interessaram pela divulgação do plano?

Obviamente. Ontem houve muita ira entre os palestinos. Já começaram as manifestações. Em Belém, houve gás lacrimogêneo. Também teve manifestações no norte da Cisjordânia, em todas as cidades. Vi muita movimentação no Facebook.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, apoia uma nova Intifada (revolta palestina) como resposta?

Ele disse essa palavra, mas o que ele quis dizer foi uma intifada não-violenta. Que a gente saia às ruas, mas sem violência. Mas, mesmo que não haja a intenção de fazer uma oposição violenta, nunca se sabe o que pode acontecer. A situação pode sair do controle.

Você está preocupado?

Obviamente, vejo isso com preocupação, porque esse plano destrói todas as pontes, todas as conexões que fizemos entre os dois lados. O lado palestino está perdendo totalmente a esperança na questão da paz. A situação é frustrante.

O que incomoda mais nesse plano? Anexação de assentamentos, o status de Jerusalém?

O que mais enfurece é a questão do Direito do Retorno (o plano prevê que um número apenas simbólico dos 5 milhões de refugiados palestinos volte ao território que hoje é Israel). Como eles querem resolver isso? Que todos imigrem para a Jordânia, dar a todos indenização? Não acho que isso satisfaz o povo palestino, principalmente a terceira geração de refugiados. Mas os anos vão passar, o Trump vai passar, o Bibi vai passar. E o que vai ficar, na verdade, é a terra. O povo palestino vai continuar. Talvez seja melhor esperar.

O que você diz a um jovem palestino que considera pegar em armas contra Israel?

Eu digo: Olha, eu tentei a Primeira Intifada, fui um guerrilheiro. O lado palestino já tentou várias intifadas e guerras. Não conseguimos nada. O caminho da paz também não deu frutos, mas pelo menos o preço é menos pesado. É melhor tentar por meios pacíficos. Vamos falar com os europeus, com nossos aliados, quem já nos reconheceu como Estado nacional. Mas não vamos partir para a violência.

 

 

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