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"Quando forem votar, deixem o ódio em casa": Lula é ovacionado em campanha da prefeita Anne Hidalgo em Paris

03/03/2020 07h59

Se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso em tom mais foral ao receber o título de Cidadão Honorário de Paris na segunda-feira (2) das mãos da prefeita Anne Hidalgo, ele parece ter reservado a "paixão" para outro evento, mais tarde na mesma noite. À vontade ao lado dos políticos socialistas, Lula participou ao lado de Dilma Rousseff e Fernando Haddad de uma rodada de debates e pronunciamentos durante um evento da campanha de Hidalgo pela reeleição ao comando da capital francesa. Um Lula inspirado entrou em cena e arrebatou aplausos dos franceses, criticando abertamente o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso em tom mais foral ao receber o título de Cidadão Honorário de Paris na segunda-feira (2) das mãos da prefeita Anne Hidalgo, ele parece ter reservado a "paixão" para outro evento, mais tarde na mesma noite. À vontade ao lado dos políticos socialistas, Lula participou ao lado de Dilma Rousseff e Fernando Haddad de uma rodada de debates e pronunciamentos durante um evento da campanha de Hidalgo pela reeleição ao comando da capital francesa. Um Lula inspirado entrou em cena e arrebatou aplausos dos franceses, criticando abertamente o atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Lula continua nesta terça-feira (3) sua agenda movimentada na capital francesa, onde se reúne com o economista francês Thomas Piketty, conforme anunciado durante o evento de campanha da prefeita Anne Hidalgo (Partido Socialista), realizado nesta segunda-feira à noite no Théâtre du Gymnase, no 10° distrito de Paris. "Quero discutir desigualdade com o Piketty. Quero a humanidade indignada com a desigualdade", disse o ex-presidente brasileiro. Mais tarde, ainda nesta terça-feira, ele participa de um grande evento do festival Lula Livre, com lotação esgotada, no mítico Théâtre du Soleil da diretora Ariane Mnouchkine, também em Paris.

A participação de Lula na segunda-feira à noite, no comício de campanha de Anne Hidalgo, foi interrompida diversas vezes pelos aplausos do público francês, geralmente contido. "O que vocês conquistaram aqui na Europa, todas as conquistas que vocês obtiveram em tantos anos de luta, agora estão sendo retiradas de vocês". "E é impressionante, como no mundo inteiro, toda vez que acontece uma crise, são os trabalhadores, e entre eles, os aposentados, que têm que resolver o problema da crise mundial", disse Lula, muito aplaudido pelos franceses, que se encontram no meio de uma maremoto sócio-político, tentando impedir uma reforma da previdência com greves que já duram três meses.

"No meu país, acabaram de fazer uma reforma trabalhista que retirou todos os direitos dos trabalhadores conquistados no século 20", criticou o ex-presidente. "Os trabalhadores não são mais chamados de trabalhadores, não têm mais registro formal, não têm mais proteção contra acidente de trabalho, trabalham para aplicativos. São chamados de microempreendedores", disse, entre risos da plateia. "Quantas lutas a França fez no século 20, quantas guerras, quantas batalhas, quantas greves, quantos trabalhadores foram perseguidos para conquistar o Estado de bem-estar social", questionou.

Lula lembrou do episódio histórico de 1968, quando a junta militar quis regulamentar o direito de greve no Brasil. "Fui a Brasília tentar evitar a regulamentação da lei. Quando cheguei lá, descobri que não havia nenhum trabalhador no Congresso Nacional. Eram 513 deputados e 81 senadores. E nenhum trabalhador. Neste momento, descobri a necessidade de se criar um partido".

"Paixão pela política"

Lula voltou a afirmar que "cada vez que se nega a política, algo muito pior vem depois. É preciso paixão pela política". Nem mesmo o governo Macron escapou das críticas do ex-presidente brasileiro. "Qual compromisso fez com que o povo francês votasse como votou nas últimas eleições? Qual foi o compromisso que fez com que o povo brasileiro votasse como votou nas últimas eleições? O que leva alguém a votar num Trump? O que leva alguém a votar num Bolsonaro? Essas votações acontecem por causa de um terrorismo jogado no povo 24 horas por dia, em todos os países", acredita.

Bolsonaro foi, no entanto, o alvo mais proeminente de Lula durante todo o pronunciamento: "Esse homem atacava LGBT. Atacava negros. Atacava índios. Esse homem tem ojeriza a qualquer política ambiental. Não gosta de sindicato. De greves, de política, não gosta do Congresso Nacional, não gosta da Suprema Corte e foi eleito presidente da República", insistiu. O ex-presidente brasileiro voltou a citar o escritor moçambicano Mia Couto, como já havia feito anteriormente em 2019: "toda vez que a sociedade tem medo, ele tenta se proteger se aproximando do monstro. Isso aconteceu no Brasil", afirmou.

"Nós temos responsabilidade pelo que acontece na nossa vida, na nossa rua, no nosso bairro, no nosso estado, no nosso país. Ninguém está livre de culpabilidade. O que acontece na França agora, é resultada da cabeça do povo francês, na época da eleição, assim como no Brasil", disse Lula. "Quando vocês se levantarem de manhã para irem votar agora, deixem o ódio em casa e levem para a urna a esperança", concluiu Lula, sem conseguir terminar a frase, no meio dos aplausos de correligionários de Anne Hidalgo.

"Presidente do fã-clube de Anne Hidalgo"

Mas se o ex-presidente Lula fechou a noite como a principal atração, Fernando Haddad abriu a noite, numa roda de conversas com quadros do Partido Socialista e Geneviève Garrigos, presidente da Anistia Internacional. Descontraída, Dilma fez um discurso antes de Lula, e chegou a brincar com a plateia, por causa da falta de sincronia com a intérprete: "Não sou só eu não, o Lula também esquece de dar tempo pra tradutora traduzir, viu? Olha que eu começo a falar em francês. E uma ameaça. C'est une ménace", brincou.

"Ainda não sou presidente do Brasil, mas sou presidente do fã-clube da Anne Hidalgo", disse Haddad, bem-humorado. "Não é fácil gerenciar uma cidade do tamanho de Paris ou de São Paulo. Mesmo sendo uma cidade rica como Paris, não há orçamento público que dê condição de gerenciar todos os problemas sociais de cidades do tamanho das nossas. É preciso fazer escolhas, ditadas pela política", disse o ex-prefeito da capital paulista. "Anne Hidalgo ilumina o mundo com suas ideias e capacidade de gerenciamento. Participei de comissão que estudou o sistema educativo no mundo, e posso dizer que vocês têm em Paris uma prefeita que se ocupa não apenas de problemas locais, mas uma liderança mundial", elogiou Haddad.

Dilma Rousseff lembrou a "desigualdade brutal" no Brasil, o "último país a sair da escravidão, com uma população dominantemente negra, pouca gente sabe disso, o Brasil é o segundo país negro do mundo, só perdemos em negritude para a Nigéria, na África". Dilma sublinhou também a desigualdade de gênero: "existe a exclusão de mulheres simplesmente por serem mulheres. Por isso considero que se afirmar a presença feminina aqui, na prefeitura, é super importante", afirmou a ex-presidente, referindo-se à corrida pelas eleições municipais de Paris.

Ao final do encontro, com o teatro lotado, o trio petista participou de uma breve sessão de fotos oficiais, antes de deixar o local, acompanhado pela prefeita Anne Hidalgo.