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Brasileiros nas Antilhas Holandesas aguardam voo de resgate

Elianah Jorge

Correspondente RFI em Caracas

04/04/2020 11h11

Em vez de aproveitar as praias das Antilhas Holandesas, 12 brasileiros que viajaram às ilhas de Curaçao e Bonaire esperam retornar ao Brasil. Os planos de férias foram alterados pela pandemia do coronavírus. Longe de casa, eles cumprem a quarentena resguardados, mas sem poder conhecer as praias caribenhas dos países em que estão.

Este é o caso das amigas Eliana Alves e Inês e do casal em lua de mel Soraya Fukamichi Fiamengui e Fernando Fiamengui que integram o grupo de noves brasileiros que estão em Curaçao, uma ilha com pouco mais de 173 mil habitantes.

Na mesma região fica Bonaire, ilha onde vivem cerca de 18 mil habitantes, e que foi o destino escolhido por Mariana da Costa Amorim e por outro casal em lua de mel.

Após o aparecimento do primeiro caso de covid-19 em Curaçao, no dia 13 de março, o que era diversão se transformou em angústia e ansiedade.

Cônsul honorária ajuda brasileiros

Sem representação diplomática formal do Brasil em ambas as ilhas, é Waleska Schumaker, a cônsul honorária do Brasil em Curaçao, Bonaire e outras ilhas do Caribe, que apoia o grupo. Após o cancelamento dos voos por causa do fechamento das fronteiras, ela coletou informações de todos brasileiros retidos:

"Com essa lista foi possível informar à Embaixada do Brasil em Trinidad y Tobago e ao grupo de crise do Itamaraty para que eles estivessem conscientes sobre esse grupo retido. Também apoiei para que eles conseguissem hospedagens a preços não muito altos. Hoje em dia, estou constantemente dando apoio emocional, acompanhando-os todos os dias, ajudando a levar alimentos e, mais que tudo, remédios."

Curaçao fechou seu espaço aéreo e aceita apenas voos para o resgate de expatriados.

Após programar a viagem em outubro passado, a médica Eliana Alves e a amiga Inês embarcaram dia 16 de março rumo a Curaçao. No meio das férias foram avisadas —via correio eletrônico - do cancelamento do voo de volta.

O que seriam sete dias de descanso, virou um período indeterminado de preocupação. O hotel onde elas estavam foi fechado. As duas chegaram a receber uma proposta, mas, por cautela, preferiram recusar.

"A Câmara de Turismo de Curaçao ofereceu acomodações coletivas, sem que gastássemos nada, mas decidimos não aceitar porque estamos na faixa de risco por questão de idade. Tenho 63 anos e minha amiga, Inês, tem 64 anos", conta Eliana

A falta de uma data específica de retorno angustia as duas amigas, sobretudo por causa dos gastos extraordinários: "Por enquanto ainda temos recursos, mas eles começam a acabar. Aqui tudo é em dólar".

Desde fevereiro deste ano a moeda norte-americana disparou. Esta semana a cotação do dólar chegou a R$ 5,27, valor muito superior ao de outubro passado, quando as amigas planejaram a viagem.

Curaçao recebe todos os anos centenas de turistas. Mas diante dos riscos do coronavírus, foi preciso fechar o aeroporto, hotéis e restaurantes. Apenas supermercados e farmácias estão funcionando.

Lua de mel interrompida

Uma história parecida vive a também médica Soraya Fukamichi e o marido Fernando Fiamengui. O plano inicial era curtir uma parte da lua de mel em Curaçao e a outra em Aruba - ilhas separadas por apenas poucos minutos de voo.

Ao perceberem que a situação ia piorar, eles tentaram sair da ilha mas "todos os voos para o Brasil estavam lotados". Em seguida, conta ela, chegou a notícia:

"De repente veio o anúncio de que as empresas aéreas iriam cancelar os voos e em 24 horas, 48 horas basicamente, vários voos foram cancelados, inclusive o meu".

Até o momento foram registrados pouco mais de dez casos positivos de coronavírus em Curaçao. Para evitar a expansão da doença, o governo da ilha tomou medidas drásticas: "Estamos muito apreensivos porque temos que ficar (fechados) 24 horas por dia. Só podemos sair para ir ao mercado ou à farmácia", relata.

Ilhada, sozinha e em quarentena

Situação igualmente complexa vive Mariana Costa Amorim. Ela foi de férias para Bonaire, onde passaria apenas dez dias. Sem conseguir voos para o Brasil, acabou comprando um voo para a Holanda na esperança que, de lá, poderia embarcar para a cidade brasileira onde está a filha, de seis anos.

"Na tentativa desesperada de ir embora eu comprei uma passagem de Bonaire para Amsterdã e de Amsterdã para Brasília. Quando cheguei domingo no aeroporto, a empresa aérea KLM informou que eu não tinha autorização para entrar já que eles estavam embarcando apenas cidadãos da comunidade europeia".

Agora, Mariana conta os dias e o dinheiro está acabando. Para complicar um pouco mais a situação, não consegue trabalhar à distância por não ter um computador. Ela começou a receber advertências por faltas no trabalho e isso terá consequências no já comprometido orçamento da funcionária pública.

Em meio a situação totalmente inusitada, a solidariedade de dois brasileiros que moram em Bonaire fez a diferença: "Um deles, com quem eu venho falando, me trouxe um monte de comida. E eu até brinquei falando que além de alimentar o corpo, foi um gesto tão atencioso que alimenta a alma nesse momento difícil. Eu tô aqui sozinha, minha filha tá lá morrendo de saudade...."

Até o momento não há registros de casos positivos de covid-19 em Bonaire.

Integrado por nove pessoas em Curaçao e por três em Bonaire, o grupo de brasileiros retido nas Antilhas Holandesas é uníssono com as palavras da médica Eliana Alves: "Estamos aguardando que o Itamaraty se organize para nos resgatar".

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