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Paraguai e Uruguai: os dois casos de sucesso no combate ao coronavírus na América do Sul

28/05/2020 08h40

Mesmo na região que se tornou o epicentro do coronavírus no mundo, dois vizinhos do Brasil se destacam pelo sucesso de suas estratégias, uma oposta a do outro, para obterem os melhores resultados com um número mínimo de vítimas.

Mesmo na região que se tornou o epicentro do coronavírus no mundo, dois vizinhos do Brasil se destacam pelo sucesso de suas estratégias, uma oposta a do outro, para obterem os melhores resultados com um número mínimo de vítimas.

Correspondente da RFI em Buenos Aires

O coronavírus faz da América do Sul o seu novo epicentro no mundo, mas, mesmo na região com maior desigualdade social do planeta, existem realidades contraditórias. Enquanto a situação é alarmante no Brasil, Peru, Equador e Chile, há outro bloco de países que tem conseguido controlar a doença: Paraguai, Uruguai, Colômbia, Bolívia e Argentina. Desse grupo, há dois casos de grande sucesso: Paraguai e Uruguai.

São países que, nos últimos dias, começaram a flexibilizar as restrições e avançam ao chamado "novo normal". Mas, apesar do sucesso em comum, Paraguai e Uruguai aplicaram estratégias opostas.

O segredo paraguaio

O Paraguai tem 884 casos, 11 mortes e uma taxa de letalidade de 1,24%. O governo percebeu logo cedo quais eram as suas vulnerabilidades e agiu imediatamente aplicando medidas drásticas.

O país foi o primeiro na região a determinar uma rígida quarentena total, com toque de recolher, em 11 de março. A capital Assunção ficou isolada: ninguém entrava, ninguém saía.

O governo paraguaio se antecipou à precariedade social do país em matéria de moradia e de saneamento básico, além da fragilidade de um sistema de saúde que contava com apenas 800 leitos de UTI para 7,2 milhões habitantes. Foram incorporados mais 200 leitos, uma quantidade insuficiente para atender a avalanche que se previa: 15 mil mortos em maio.

Mas, se socialmente o Paraguai estava à mercê do vírus, geograficamente foi bem protegido. Comparado com os seus vizinhos, Brasil e Argentina, o país tem poucas conexões aéreas internacionais.

"Graças à sua condição mediterrânea e à menor conexão com o mundo, o Paraguai ficou isolado. Nesse sentido, pode ser parecido com a Bolívia: menos turismo e menor conectividade. Mas os números do Paraguai realmente surpreendem", explica à RFI o analista internacional, Simón Pachano, quem se tem debruçado sobre os números e as curvas de cada país da região.

No começo deste mês, o governo começou a aplicar a chamada "quarentena inteligente", que implica em uma gradual flexibilização das restrições. Nesta semana, o Paraguai abriu 83% do seu comércio e passou a permitir atividades físicas e até transporte público.

No mês que vem, voltarão os jogos de futebol sem público e a reabertura dos templos. A volta às aulas, no entanto, ainda não tem data.

A consciência social uruguaia

O Uruguai tem 803 casos, 22 mortes e uma taxa de letalidade de 2,74%. Foi o último país da região a registrar um caso de coronavírus. No dia 13 de março, anunciou quatro casos. No dia 24, começou uma estratégia única: a chamada "quarentena voluntária".

Ao contrário dos países vizinhos, o governo uruguaio sugeriu medidas de isolamento social e só proibiu as atividades que representassem aglomerações, como espetáculos. Até os velórios puderam continuar, desde que com algumas restrições.

Essa abordagem veio acompanhada de outra grande diferença com todos os demais países da região: o comportamento social. A população acatou a recomendação com uma consciência cidadã única. Foram os comerciantes que decidiram fechar as lojas.

"O Uruguai é um país de uma trajetória muito republicana, de valorização cidadã, com um grau de princípios básicos de convivência. O governo deixou nas mãos da população a responsabilidade cidadã que sempre existiu no Uruguai. Do outro lado, o Paraguai é um país que quase não teve democracia na sua história. Cada um refletiu as suas condutas históricas", compara Simón Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).

O sucesso uruguaio também se baseia nos melhores índices sociais da região. Praticamente, a totalidade dos uruguaios tem acesso ao saneamento básico e à rede hospitalar.

O sistema de saúde é sólido, universal e inovador: conta com uma eficaz rede de atendimento domiciliar que evitou a necessidade de as pessoas irem aos hospitais para serem atendidas, correndo risco de contágio. O país também realizou uma quantidade expressiva de testes diários.

A densidade demográfica também contribuiu com esse cenário. Metade dos 3,4 milhões de habitantes se concentra em Montevidéu.

"O tamanho da população ajuda muito para se chegar com qualquer campanha a todos", observa Pachano.

No início do mês, o país reabriu as escolas no interior e, a partir da semana que vem, voltam a funcionar todas as escolas numa combinação de aulas presenciais e aulas virtuais, também de forma voluntária.

Números comparados

Com o dobro da população do Uruguai, mas com metade das mortes, o "lockdown"paraguaio teve mais sucesso. A taxa de letalidade do país também é a metade da uruguaia.

A letalidade maior do Uruguai pode ser explicada também pelo perfil da população. O Uruguai tem a maior quantidade de idosos da região, um segmento de alto risco. Quase 20% da população tem mais de 60 anos. Desses, 10% tem mais de 85 anos.

"Além de uma maior consciência cidadã, a população uruguaia é mais adulta. Isso implica maior responsabilidade perante a própria vida. Há menos possibilidade de reuniões com amigos, festas e aglomerações", avalia o analista Simón Pachano, da FLACSO.

No entanto, numa eventual segunda onda de contágio, as chances do Uruguai contornar a situação serão maiores graças à sua infraestrutura mais sólida. "O Paraguai vai precisar de medidas duras novamente", acredita Pachano.

Costa Rica, o caso de maior sucesso na América Latina

Ao ampliarmos o mapa sul-americano a toda à América Central, surge o maior caso de sucesso: a Costa Rica com 984 casos, 10 falecidos e uma taxa de letalidade de 1,02%.

A Costa Rica tem características como as do Uruguai: um sólido sistema de saúde, uma população educada e apenas cinco milhões de habitantes. Ao lado do Chile, tem a taxa de letalidade mais baixa da América Latina. E, assim como o Uruguai, não precisou de uma quarentena obrigatória.

A diferença é que a Costa Rica não precisou se fechar tanto: os restaurantes permaneceram abertos com 50% da capacidade de clientes e, mesmo sob estritas medidas de segurança, cinemas e teatros já reabriram.

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