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"Democracia francesa está em crise", diz historiadora franco-brasileira sobre eleições municipais

29/06/2020 14h38

A abstenção histórica, de 58%, e a votação expressiva no Partido Europa Ecologia/ Verdes (EELV), que conquistou importantes cidades, marcaram as eleições municipais na França, realizadas em meio à pandemia do coronavírus. Os resultados surpreendentes do segundo turno, que aconteceu neste domingo (28), revelam ao mesmo tempo um forte desejo de mudança e um desinteresse do eleitor pela política, analisa a historiadora franco-brasileira Silvia Capanema, que participou da votação.  

A abstenção histórica, de 58%, e a votação expressiva no Partido Europa Ecologia/ Verdes (EELV), que conquistou importantes cidades, marcaram as eleições municipais na França, realizadas em meio à pandemia do coronavírus. Os resultados surpreendentes do segundo turno, que aconteceu neste domingo (28), revelam ao mesmo tempo um forte desejo de mudança e um desinteresse do eleitor pela política, analisa a historiadora franco-brasileira Silvia Capanema, que participou da votação.  

Atual conselheira do departamento Seine Saint-Denis, cargo equivalente no Brasil ao de uma deputada estadual, Silvia Capanema integrou a lista do Partido Comunista Francês (PCF), mas sem concorrer a nenhum cargo, apenas para dar apoio ao candidato Laurent Russier, que disputava a reeleição na cidade de Saint-Denis, na periferia norte de Paris. 

Mas com 40,95% dos votos, Russier perdeu para o adversário socialista Mathieu Hanotin, que obteve 59,04%. A derrota representa um terremoto político, já que marca o fim de 75 anos de governo do  PCF na cidade de mais de 111 mil habitantes, boa parte deles imigrantes. Neste histórico reduto comunista, a abstenção foi de 67%, ainda maior do que a média nacional. 

Capanema vê duas explicações principais para a derrota de seu grupo político: a situação  sanitária provocada pela Covid -19, que afastou muitos eleitores das urnas, e a crise de representatividade política. "Há uma onda de vontade de alternância e mudança", explica a conselheira departamental sobre o fim de mais de sete décadas do "comunismo municipal", como ficou conhecida a ampla aliança cidadã liderada pelo Partido Comunista em Saint-Denis. 

Ela credita a vitória do adversário socialista Hanotin à campanha focada em temas abordados pelos partidos de direita, como o reforço na segurança. Entre as suas promessas está a de armar a polícia municipal, assim como a polícia nacional, e criar uma brigada canina para ajudar a combater a criminalidade.

"Nossa aliança não conseguiu convencer que nossas propostas seriam a alternativa", diz Silvia Capanema, lamentando a falta de coalizão com outro partido de esquerda, A França Insubmissa, que decidiu não dar apoio à aliança liderada pelo PCF. "Em outros lugares da França essa alternativa foi construída com sucesso, mas aqui, não".

Democracia em crise 

No restante do país, a abstenção é reveladora de um problema mais profundo na sociedade francesa, afirma a historiadora, referindo-se à importância do pleito municipal na França, onde o voto não é obrigatório. "As eleições municipais são, juntamente com a eleição presidencial, as que mais mobilizam os eleitores franceses". 

A pandemia do coronavírus explica apenas em parte a situação que a historiadora define como "extremamente grave".  O primeiro turno, em 15 de março, aconteceu no período  pré-confinamento e o segundo turno, adiado para 28 de junho, no momento de maior flexibilização das regras de distanciamento social."As pessoas estavam com outras preocupações e com medo também da exposição, embora todos os cuidados tenham sido tomados para a votação", diz

A segunda razão apontada pela conselheira departamental é a crise da democracia, que se manifesta mais intensamente na França desde a revolta dos coletes amarelos, que pedem uma democracia mais direta. 

"É preciso pensar a democracia francesa, que está em crise", reitera, acrescentando que partidos de esquerda e correntes políticas progressistas reclamam a instauração de uma nova Consituição no paíis

A historiadora franco-brasileira vê ainda um terceiro fator, o individualismo da sociedade. "Por um lado algumas pessoas têm uma vida confortável na França, e se fecham numa espécie de isolamento, individualismo, e não votam, porque a política é vista com desconfiança. Assim como em outros lugares do mundo, os políticos são vistos com desconfiança, como uma classe à parte da sociedade. Por isso, é também uma crise democrática", afirma. 

Expansão dos "Verdes"

A votação deste domingo também entrará para a história como a que levou o partido Europa Ecologia/ Verdes a ter um peso muito mais relevante no cenário político.   

Prefeitos ecologistas vão comandar cidades importantes como Lyon, Bordeaux, Strasbourg, Besançon, entre outras.  A legenda também saiu vitoriosa em muitos locais onde fez alianças, como em Paris, onde foi a eleita a socialista Anne Hidalgo e Marselha, onde o EELV lidera uma ampla coalizão de esquerda, com a proposta de uma gestão na qual o meio ambiente tem um destaque nas políticas públicas.

"Nas últimas eleições europeias, os Verdes já eram a principal força de esquerda. Agora se confirma não somente como principal força de esquerda, mas como força em ascensão nas esquerdas. Isso se explica porque a questão ecológica e ambiental, que é carregada pelos jovens, se tornou incontornável e uma necessidade urgente", argumenta.  "Hoje, eles  (Verdes) representam essa urgência climática. Essa ascensão tem que ser vista como algo positivo", resume.

Os resultados também definem uma tendência para os futuros pleitos, segundo Silvia Capanema. "A tendência é de novas coalizões nas esquerdas, com força para os ecologistas e para tudo o que representa as aspirações cidadãs, novas e de inclusão, como a questão feminista. Onde foram formadas coalizões fortes, com muita presença feminina, foram registrados bons resultados", garante. 

Por outro lado, a derrocada da legenda A República em Marcha (LREM), do presidente Emmanuel Macron deve servir de lição para o chefe de Estado, segundo ela. Com exceção da cidade de Le Havre, onde o primeiro-ministro Edouard Philippe conquistou o pleito com mais de 58% dos votos, no restante do país o partido registrou um fracasso retumbante.  

"O presidente Macron deve estar muito preocupado. Qual será a base dele de apoio? Ele não sabe. Essas eleições são complicadas para ele, embora não possamos dizer que seja uma sanção ao seu governo. Como historiadora constatei que muitas pessoas apoiaram as decisões do governo durante a crise sanitária. O que ficou claro é que o que ele criou, um centro desvinculado dos partidos tradicionais, não levou a lugar nenhum", observa. 

 

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