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"Onda verde" nas eleições francesas representa crescimento da ecologia pós-Covid?

01/07/2020 09h57

O segundo turno das eleições municipais francesas, realizado no último domingo (28), foi marcado pela ascensão de prefeitos ecologistas em metrópoles importantes do país, como Bordeaux, Estrasburgo e Lyon. Na capital, Paris, o apoio dos verdes garantiu a vitória confortável da prefeita socialista Anne Hidalgo, com o meio ambiente como o carro-chefe da campanha. Para os ecologistas, não restam dúvidas: a pandemia de Covid-19 acelerou a consciência sobre as preocupações ambientais, que atingem diretamente a vida dos cidadãos.

O segundo turno das eleições municipais francesas, realizado no último domingo (28), foi marcado pela ascensão de prefeitos ecologistas em metrópoles importantes do país, como Bordeaux, Estrasburgo e Lyon. Na capital, Paris, o apoio dos verdes garantiu a vitória confortável da prefeita socialista Anne Hidalgo, com o meio ambiente como o carro-chefe da campanha. Para os ecologistas, não restam dúvidas: a pandemia de Covid-19 acelerou a consciência sobre as preocupações ambientais, que atingem diretamente a vida dos cidadãos.

A vitória só não foi maior porque ocorreu em meio a um índice recorde de abstenção, de mais de 60% em algumas cidades. A debandada de eleitores mitiga a votação nos ecologistas, mas mesmo assim, representa um passo importante, na opinião da secretária-adjunta nacional do Europa Ecologia-Verdes, Sandra Regol, em entrevista à RFI.

"É um resultado histórico para a ecologia política francesa. É difícil de saber se a Covid-19 influenciou nesse voto, mas uma coisa é certa: é a primeira vez que uma crise sanitária foi abordada do ângulo ambiental", afirma. "Os infectologistas mostraram como essa pandemia é ligada à atividade humana, à exploração das terras e à destruição dos ambientes naturais das espécies selvagens."

Reflexões pós-Covid

Na sequência, o período da quarentena aprofundou uma série de reflexões que costumam ser levantadas pelos ecologistas sobre a qualidade de vida: desde o ritmo do trabalho até a diminuição do consumo, passando pelos transtornos dos transportes de massa e a prioridade a produtos locais. Sandra Regol espera que os questionamentos levarão cada vez mais eleitores a perceber a importância de os governos assumirem a dimensão ambiental nas políticas públicas.

"As questões de saúde voltaram se tornaram o foco das preocupações das francesas e franceses. E os ecologistas têm muitas propostas que têm relação direta com a saúde, como a qualidade do ar e da alimentação", avalia a líder ecologista.

O cientista político Daniel Boy, especialista em comportamento eleitoral e ecologia política da renomada Sciences Po, de Paris, concorda com os argumentos evocados pela líder verde. Entretanto, o analista vê com ceticismo a ideia de que a pandemia provocará mudanças profundas nas sociedades.

"Os nossos hábitos vão mudar a partir de agora? Tenho dúvidas, sinceramente. Ficaria surpreso se o consumo não voltasse tão forte quanto antes, incluindo nos hipermercados, que não são nada apreciados pelos ecologistas", comenta o cientista político. "Me parece ilusório esperar que o mundo vai mudar por causa da Covid."  

Ensaio para eleições presidenciais é no ano que vem

O próximo teste importante nas urnas francesas é no ano que vem, nas eleições regionais, que elegem cargos semelhantes ao de governador e deputados estaduais. Será a ocasião de os verdes medirem a capacidade de formar alianças maiores com a esquerda para chegar ao poder.

Daniel Boy lembra que, em nível regional, as propostas ecologistas podem ter maior dificuldade de agregar apoio, por serem menos palpáveis aos eleitores. Promover economias de energia nos prédios públicos e redução de emissões de CO2 não geram efeitos imediatos na vida da população, ao contrário de medidas populares como ampliação de ciclovias e da arborização, feitas pelas prefeituras. O jogo fica ainda mais duro para chegar à presidência da República.

"Se eles conseguirem provar que têm legitimidade eleitoral não apenas em nível municipal, como em regional, esse peso verde vai aumentar. Mas, nas eleições presidenciais, para chegar ao segundo turno, a única possibilidade concreta para eles é que só exista um candidato à esquerda", frisa o especialista da Sciences Po. "Eles poderiam, eventualmente, se acertar com o Partido Socialista, que até já declarou que poderia abrir mão da liderança da chapa para um candidato verde."  

Atento a essa movimentação do eleitorado, o presidente francês, Emmanuel Macron, aproveitou um discurso de conclusão da chamada Convenção Cidadã sobre o Clima para reforçar o papel das questões ambientais na sua gestão. O mandato se encerra em 2022.

"Colocar a ecologia no coração do modelo produtivo, apostar nos investimentos em transportes, energias e tecnologias de amanhã são os pilares principais da reconciliação entre economia e ecologia, que vocês pregam e na qual eu acredito", disse Macron. "É por isso que, já no plano de retomada que nós estamos preparando, € 15 bilhões a mais em dois anos serão injetados na conversão ecológica da nossa economia", prometeu o presidente.

E no resto da Europa?

A onda verde francesa não começou agora: a coligação ecologista já havia surpreendido nas últimas eleições europeias, no ano passado, quando ficou em terceiro lugar no país. Resultados semelhantes se repetiram nos países que apresentaram listas verdes, com em média 5% a mais na votação.

"Agora, resta a saber se, além das eleições europeias, haverá uma onda verde nas eleições nacionais. É difícil prever. Veremos nas próximas eleições na Alemanha, na Áustria, e nos países com tradição ecologistas, do norte da Europa. Mas em outros países, por enquanto, eu não saberia dizer", admite o pesquisador.

A pandemia impacta no calendário eleitoral na União Europeia. Desde março, além da França, foram às urnas apenas a Polônia e a Sérvia - dois países sem tradição de ecologia política.