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"Povos indígenas e tradicionais são os mais afetados pela pandemia", diz fundador da Aliança Covid Amazonas

03/07/2020 14h06

Aliança Covid Amazonas é o nome de uma iniciativa criada por ONGs e diversos setores da sociedade civil para ajudar as populações mais vulneráveis do estado, como ribeirinhos, quilombolas e indígenas, a enfrentar o novo coronavírus. O Amazonas é um dos estados mais atingidos pela pandemia e o esforço da Aliança é para proteger essas comunidades, que enfrentam desde a dificuldade de comunicação, até a falta de estrutura básica de saúde. 

Aliança Covid Amazonas é o nome de uma iniciativa criada por ONGs e diversos setores da sociedade civil para ajudar as populações mais vulneráveis do estado, como ribeirinhos, quilombolas e indígenas, a enfrentar o novo coronavírus. O Amazonas é um dos estados mais atingidos pela pandemia e o esforço da Aliança é para proteger essas comunidades, que enfrentam desde a dificuldade de comunicação, até a falta de estrutura básica de saúde. 

Na origem desta mobilização, Virgilio Viana, superintendente-geral da FAS (Fundação Amazonas Sustentável), diz ter tido a ideia de formar a Aliança quando voltou de uma expedição de vários dias pelos rios Madeira e Juruá. 

Em Manaus, ao ver a situação caótica instalada na cidade, que se tornou um dos epicentros da epidemia no Brasil, ele diz ter sido confrontado com as imagens das comunidades que acabara de visitar. "Imediatamente pensei que estávamos diante de uma tragédia anunciada. Algo deveria ser feito que não dependesse apenas das ações dos governos", explicou na entrevista à RFI.

Atualmente a Aliança conta com 86 parceiros de diferentes segmentos da sociedade do Amazonas e do Brasil. A mobilização visa proteger comunidades interioranas do Estado que registra uma das situações mais graves do país ao ter atingido 1.612 contaminados por 1 milhão de habitantes.    

"Diante da gravidade, as ações necessárias que as pessoas costumam pensar é com relação a respiradores para hospitais e equipamentos para tratamento intensivo. Nosso olhar e o da Aliança é voltado para uma abordagem sistêmica, de prevenção, redução do contagio lá na ponta. Vale lembrar que comunidades ribeirinhas, de populações tradicionais e aldeias indígenas muitas vezes não têm acesso à comunicação, à energia elétrica, telefone e internet. A comunicação é muito importante sobre o risco da pandemia e os cuidados para reduzir os riscos de contágio", explica Viana.

Conjunto de ações 

Nestas ações de prevenção estão incluídas a distribuição de cestas básicas para 19 mil famílias rurais e urbanas, e até o envio de combustíveis para a produção de farinha, o principal alimento das populações amazônicas. "Nosso conjunto de ações foi no sentido de reduzir a necessidade das pessoas irem às cidades para se abastecer de gêneros e, ao mesmo tempo, se informar melhor sobre como se prevenir do corona", justifica.

Outros eixos de atuação foram desenvolvidos para proteção dessas comunidades, entre eles o relacionado à saúde mental, diante de eventuais distúrbios ligados à depressão e ansiedade. "Esse risco é maior nas aldeias porque o sentimento de desamparo é maior", ressalta.

Outra preocupação relatada por Viana foi a atenção para a saúde básica nas aldeias para garantir que os agentes comunitários recebessem equipamentos como o oxímetro, que ajuda no diagnóstico da doença. Os profissionais de saúde também são orientados a realizar com os pacientes consultas pela internet com médicos à distância, por meio da telemedicina. "A nosso ver, talvez seja a coisa mais promissora a longo prazo", destaca.

A Aliança também constitui uma rede de ambulâncias para ajudar no transporte de emergência dos casos mais graves e também de apoio aos municípios para o atendimentos nos hospitais e eventuais deslocamentos de doentes para a capital, um desafio imenso diante das características geográficas locais.  

"Outro eixo é para o pós-pandemia. Essas ações estão voltadas também para repensar o sistema de saúde, mas também a recuperação econômicas dessa comunidades e a melhoria do sistema de educação", acrescenta.

Populações mais afetadas

De acordo com os dados divulgados pela Aliança, até meados de junho cerca de 70 mil casos de coronavírus foram diagnosticados no Amazonas, e 6.500 deles em indígenas. O número de indígenas mortos pela Covid já chegou a 337, segundo o levantamento. 

"Os povos indígenas são os mais afetados pela pandemia, em conjunto com os povos tradicionais, quilombolas, caboclos, entre outros. Por um motivo simples, eles são os que dispõem de um sistema de saúde mais precário e estão mais isolados. A logística de transporte é difícil, para levar medicamentos, cestas básicas e equipes de saúde", relata o superintendente-geral da FAS.

Diante da preocupação com a crise sanitária, diversas lideranças indígenas lançaram apelo para outros países e organizações internacionais pressionarem o governo do presidente Jair Bolsonaro brasileiro a garantir proteção às populações indígenas e originárias da Amazônia diante da pandemia. Segundo Viana, a mobilização rendeu frutos.  

"A pressão internacional foi positiva porque fez com que governos se mobilizassem mais e doadores, tanto privados quanto governos de vários países, que tem histórico de relacionamento com a Amazônia, apoiaram", diz, ressaltando o apoio recebido da Embaixada da França para as ações da FAS, assim como intervenções da Irlanda e de outros países que se engajaram no apoio às populações tradicionais e indígenas.

"A Aliança também conta com uma parceria próxima da COIAB, que coordena as organizações indígenas da Amazônia e outras instituições das comunidades indígenas e tradicionais. Nosso desafio é fazer com que a coisa aconteça lá na ponta e a boa noticia é que tem sido exitosa", comemora.