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Médico da UFMG: "Impacto da covid-19 no combate à Aids no Brasil é enorme"

Coronavírus pode comprometer o avanço na luta contra a Aids ao criar dificuldades de acesso ao sistema de saúde - Handout .
Coronavírus pode comprometer o avanço na luta contra a Aids ao criar dificuldades de acesso ao sistema de saúde Imagem: Handout .

Da RFI

07/07/2020 17h21Atualizada em 05/08/2020 11h49

A pandemia do novo coronavírus e sua repercussão na luta contra o HIV se tornaram um dos pontos centrais nas discussões durante a 23ª Conferência Internacional sobre a Aids que acontece de 6 a 10 de julho. Reunidos por meio de videoconferência, especialistas, médicos, profissionais de saúde, pesquisadores e entidades ligadas à doença discutem temas variados como os avanços nas pesquisas e no tratamento dos infectados.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 39 milhões de pessoas no mundo foram diagnosticadas como portadoras do vírus da Aids até o final de 2019. O aspecto positivo, no mesmo período, ressaltado pela organização, é que os esforços internacionais de resposta ao vírus contribuíram para que 68% dos adultos e 53% das crianças com HIV no mundo tivessem acesso a tratamentos com antirretrovirais.

Mas diante de um contexto de crise sanitária, no Brasil a epidemia da covid-19 pode comprometer o avanço na luta contra a Aids ao criar dificuldades de acesso ao sistema de saúde para tratamento ou diagnóstico, alerta o médico Dirceu Greco, professor emérito da Faculdade de Medicina da UFMG.

"O problema da covid é diagnosticar. No HIV não, você tem tudo pronto, tem teste rápido para todo lado, fabricado aqui. Mas talvez tenha entre 200 e 250 mil pessoas que não saibam que estão infectadas. A covid pode prejudicar ainda mais porque dificulta o acesso. Os testes estão lá, funcionando. Mas se a há dificuldade até de se alimentarem porque o emprego desapareceu, as pessoas vão ter dificuldade de chegar até o serviço de saúde", afirma.

Para Greco, um dos maiores especialistas brasileiros sobre Aids, o cenário no país vai depender também da evolução da pandemia do novo coronavírus. "Essa dificuldade (de acesso) vai depender até do que vai acontecer com essa covid. Será que ela vai estabilizar? Ninguém sabe. Parece que vai ter ondas indo e vindo, até que apareça uma vacina. Tudo isso vai prejudicar toda a atitude relacionada com o HIV", afirma.

Mas o médico infectologista e professor da UFMG não tem dúvidas de que a situação gera um grande problema: "O impacto é enorme porque ela traz riscos para todos nós, para quem está vivendo tanto com HIV quanto para os doentes expostos à covid, numa situação de difícil controle do ponto de vista da saúde".

Paralelo entre covid-19 e Aids no Brasil

Com a experiência de décadas atuando tanto no tratamento, acompanhamento das pesquisas e também na coordenação de políticas públicas de combate à doença, o especialista faz um paralelo entre as duas epidemias e a resposta do governo brasileiro.

"No começo da epidemia da Aids, em 1985, houve uma resposta importantíssima e multissetorial, com as ONGs, academias e o Estado entrando bem, montando um programa de Aids que foi exemplo no mundo inteiro", lembra.

"A situação agora é muito diferente. O país continua em uma situação muito díspar, com uma fase complicada de governo, sem ministro da Saúde há mais de 50 dias, com um (ministro) interino, um governo militarizado e uma estrutura complexa. Por sorte e pela infraestrutura, ainda temos o Sistema Único de Saúde funcionando, com toda a dificuldade. Sem ele, aqui seria a barbárie", garante, fazendo referência às politicas adotadas por municípios e governos estaduais, muitas vezes contrariando diretrizes do governo federal.

"Neste pano de fundo, temos 800 mil pessoas vivendo com a Aids no país e, infelizmente, nenhuma pandemia que aparece vem para substituir a outra, é um adendo. O HIV continua se disseminando e agora aparece uma epidemia que nos lembra o começo da AIDS. Um vírus novo, sem tratamento, se espalhando centrifugamente, ou seja, dos grandes centros para as periferias, e com algumas disseminações piores que o HIV/Aids. No caso do HIV/Aids, é necessário o contato íntimo, a covid também, mas não precisa ter nada mais perto do que 1 metro , essa é a situação do país", comenta.

Dirceu Greco participa do Congresso Internacional sobre Aids de sua casa, em Belo Horizonte, de onde acompanha as conferências e palestras por videoconferência. Numa das sessões, seguiu as notícias sobre as expectativas de cura da Aids, que segundo constatou, ainda não há previsão de chegar.

"Essa é uma busca aparentemente recente. Algum tempo atrás se pensava que era impossível acabar com o vírus. A cura começa a aparecer em experiência não tão bem preparadas. Primeiro, com o paciente de Berlim (em 2011) depois, com o paciente de Londres (em março de 2020). Por enquanto ainda não tem uma resposta para que você diga que daqui a tanto tempo vai aparecer (a cura)", diz.

Sem uma perspectiva clara de encontrar uma solução definitiva para o vírus HIV, a Agência da ONU para a Aids trabalha com uma estratégia que aposta no maior controle da transmissão.

"A Unaids continua com esse plano para até 2020 de 90, 90, 90, ou seja, 90% diagnosticados, 90% tratados e 90% com uma carga viral não detectável. Isto é, os medicamentos muito potentes podem deixar o vírus não detectável e a pessoa não o transmite, o que é muito interessante", destaca Greco, que tem esperança também em novos tratamentos discutidos e apresentados na Conferência Internacional.

"Outra novidade é com relação a medicamentos de liberação lenta, que é uma tentativa de administrar medicamente um vez por mês, ou a cada seis meses. Para certas populações pode ser muito importante e pode ser um progresso. Mas quando a gente fala em progresso, com essas disparidades no mundo inteiro, esse progresso atinge de maneira díspar as pessoas que são afetadas. E fazendo um paralelo com a covid, quando se fala no aparecimento da vacina daqui a um ano, não significa que ela vai estar disponível para todo o mundo. Então tem toda essa questão de discutir direitos humanos, ética e acesso", diz, ressaltando que esses temas vêm ganhando cada vez mais espaço na programação das conferências internacionais sobre Aids.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado no penúltimo parágrafo, a projeção feita pela Unaids é válida para 2020, e não 2030. A informação foi corrigida.

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