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TikTok, refém da guerra fria digital entre Washington e Pequim

11/08/2020 10h17

A revista L'Obs trata nesta terça-feira (11) da escalada de tensões entre China e Estados Unidos com as ameaças do governo Trump de banir o aplicativo Tiktok do país. A crônica, assinada por Nicolas Colin, um dos fundadores de uma empresa de estímulo à inovação na economia digital, afirma que Donald Trump e seus colaboradores parecem ter prazer em perturbar a serenidade das negociações já existentes entre a ByteDance, proprietária do TikTok, e a Microsoft.

A revista L'Obs trata nesta terça-feira (11) da escalada de tensões entre China e Estados Unidos com as ameaças do governo Trump de banir o aplicativo Tiktok do país. A crônica, assinada por Nicolas Colin, um dos fundadores de uma empresa de estímulo à inovação na economia digital, afirma que Donald Trump e seus colaboradores parecem ter prazer em perturbar a serenidade das negociações já existentes entre a ByteDance, proprietária do TikTok, e a Microsoft.

De acordo com a publicação, o presidente dos Estados Unidos teria dito que, como a venda foi ordenada pelo governo, uma comissão deveria ser paga ao Estado norte-americano -o que, segundo o cronista, é digno de uma república das bananas, e provavelmente ilegal.

O texto continua dizendo que o anúncio de Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, de que os EUA vão fazer uma "limpeza" da internet em escala global parece ter por objetivo ser formar uma coalizão de "países livres" que compartilhem uma internet completamente isolada daquela usada na China - que está, como sabemos, sob a vigilância do Partido Comunista.

Colin afirma que muitos norte-americanos estão inquietos com essa intromissão governamental sem precedentes no mundo dos negócios, ainda mais se tratando de um país que se diz a terra da livre iniciativa. Outros apontam para a complacência da Microsoft em relação à administração Trump e observam que existe uma relação obscura entre a empresa e o governo.

"Um enorme contrato público (o site chamado JEDI do Departamento de Defesa) foi conquistado no ano passado pela Microsoft contra a Amazon. Recursos foram apresentados porque Trump supostamente proibiu pessoalmente a concessão do contrato à empresa de Jeff Bezos, que ele odeia. Talvez a Microsoft esteja entrando no jogo de Trump para preservar este contrato suculento", sugere o autor do texto.

A decisão de forçar a venda de um aplicativo popular de propriedade de uma empresa estrangeira não é sem precedentes. No ano passado, o Grindr, um popular aplicativo de encontros na comunidade gay, foi objeto de uma ordem semelhante da autoridade que controla o investimento estrangeiro nos Estados Unidos. Seu proprietário chinês foi obrigado a encontrar um comprador norte-americano porque as agências de inteligência temiam que o governo chinês pudesse acessar os bancos de dados do Grindr para detectar a homossexualidade de figuras americanas e, em seguida, exercer pressão sobre eles.

Um mundo que se fragmenta rapidamente

Mais recentemente, um violento confronto entre as tropas indianas e chinesas no Himalaia levou ao enrijecimento da política do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, em relação a Pequim.

Todos os aplicativos operados por empresas chinesas foram eliminados das lojas de aplicativos da Apple e Android na Índia - incluindo, é claro, o TikTok. É provável que essa medida tomada na Índia tenha sido o gatilho. Trump deve ter pensado que poderia fazer o mesmo nos Estados Unidos, mostrando sua determinação no contexto da campanha presidencial.

Tudo isso valida a tese de um mundo em rápida fragmentação. Há apenas dez anos, todos tínhamos a ideia de que a economia digital seria dominada por alguns gigantes, principalmente norte-americanos, operando em escala global. A venda forçada do TikTok aos Estados Unidos é apenas mais um passo rumo à criação de ilhas nesta economia outrora global. Mais e mais mercados serão dominados por campeões locais em vez de gigantes norte-americanos (ou chineses), considera Colin.

A China está provavelmente preparando uma grande retaliação, o que tornará quase impossível para empresas não chinesas, digitais ou não, continuar operando lá. Quanto aos europeus, o precedente obviamente não lhes escapará. Eles provavelmente vão pensar que, se as empresas chinesas puderem ser tratadas assim nos Estados Unidos, a Europa poderá endurecer seu tom em relação às empresas norte-americanas na Europa - em tópicos como direito da concorrência, cobrança e o tratamento de dados pessoais ou tributação.

O Vale do Silício continua perdendo terreno por causa de Donald Trump. Sob o pretexto de restaurar a América à sua antiga grandeza, o país está apenas erguendo barreiras que complicam o crescimento dos gigantes digitais da América e provocam reações hostis de outras regiões importantes do mundo. Talvez tenha apenas acelerado uma tendência já em curso, mas o resultado é claro: não existe mais uma economia digital global e isso é uma perda para os Estados Unidos, afirma o artigo.