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Argentina vai produzir e México distribuir vacina de Oxford para toda a América Latina, exceto Brasil

13/08/2020 05h55

Custo da dose anunciado pelo governo argentino é superior ao anunciado pelo governo brasileiro, mas, ao contrário do Brasil, financiamento nos países latino-americanos não envolve dinheiro público.

Custo da dose anunciado pelo governo argentino é superior ao anunciado pelo governo brasileiro, mas, ao contrário do Brasil, financiamento nos países latino-americanos não envolve dinheiro público.

Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

O presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou que a Argentina vai produzir e o México embalar e distribuir até 250 milhões de doses da vacina de Oxford para toda a América Latina, menos Brasil, a um custo entre três e quatro dólares por dose, mais elevado do que a versão brasileira da mesma vacina.

"Para a América Latina, exceto o Brasil, os responsáveis pela rede de produção serão Argentina e México. O México será o responsável por completar o processo de produção, por embalar a vacina e por toda a distribuição que será de forma equitativa, de acordo com a demanda dos governos latino-americanos", explicou o presidente argentino, durante coletiva na residência oficial de Olivos.

"É uma grande notícia que México e Argentina sejam os pontos de referência para a produção da vacina e que possamos trazer uma solução ao continente", celebrou Fernández.

Para o processo na Argentina, o laboratório anglo-sueco AstraZeneca, responsável pela produção da vacina contra o SARS-CoV-2, desenvolvida pela Universidade britânica de Oxford, assinou um acordo com a Fundação Slim para produzir entre 150 e 250 milhões de doses para toda a América hispânica que estará disponível durante o primeiro semestre de 2021.

Embora tenha um laboratório em Buenos Aires, o AstraZeneca fechou um acordo com outro laboratório argentino, o mAbxience, melhor preparado para a transferência de tecnologia e imediata produção da vacina que está na fase III, a última dos testes. No México, o laboratório escolhido foi Liomont.

"Isso põe a Argentina num lugar de tranquilidade. De poder contar com a vacina em tempo oportuno e em quantidade suficiente para poder cobrir a demanda de forma imediata", avaliou Alberto Fernández, destacando que "o acordo permite à Argentina ter acesso à vacina entre 6 e 12 meses antes do tempo que teria de esperar se não tivesse o acordo".

"Uma das preocupações que sempre tivemos era a poder garantir que, na hora em que a vacina estivesse pronta, a Argentina não tivesse de esperar e que tivesse acesso o mais rápido possível a essa vacina", disse.

Financiamento privado nos países hispânicos

A Fundação Slim, do empresário mexicano Carlos Slim, líder em telefonia móvel em toda a América Latina, vai financiar integralmente a produção antes mesmo de concluída a fase experimental de testes, sob o risco de perder o investimento se a vacina não for aprovada. No Brasil, esse risco inicial será do Estado, através do Ministério da Saúde.

"A Fundação Slim permitiu que possamos ter acesso a essa vacina a preços muito mais do que razoáveis, entre três e quatro dólares a dose", elogiou Fernández, embora o custo seja mais elevado do que o previsto no Brasil.

O laboratório AstraZeneca vai transferir procedimentos e o antígeno para que o laboratório argentino mAbxience possa produzir, em grande escala, a substância ativa da vacina.

 

"É um imenso desafio para a indústria nacional e, para nós, é um reconhecimento da qualidade dos laboratórios argentinos", apontou o presidente argentino.

 

Fernández detalhou que o laboratório AstraZeneca prevê uma demanda de 230 milhões de doses na América Latina, sem contar o Brasil, país com o qual já existe um desenvolvimento próprio anunciado em 27 de junho pelo Ministério da Saúde.

 

Custo da vacina no Brasil é menor

 

No Brasil, o acordo entre o AstraZeneca e a fábrica de vacinas Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, envolve uma produção inicial de 30,4 milhões de doses, custos de transferência de tecnologia e do processo produtivo da Fiocruz por um total de 127 milhões de dólares.

 

Desse montante, cerca de 20 milhões de dólares para o processo de produção da Fiocruz virão da iniciativa privada através de empresas como Ambev, Americanas, Itaú, Stone, Instituto Votorantim, Fundação Lemann, Fundação Brava e Behring Family Foundation. O restante será do Estado.

 

Numa segunda fase, caso a vacina seja aprovada, virão mais 70 milhões de doses por 161 milhões de dólares, no valor estimado em 2,30 dólares por dose. O custo total pelas 100 milhões de doses, incluídos os custos de transferência e de produção, eleva o preço final a 2,88 dólares por dose.

 

Assim, o custo anunciado pelo presidente argentino, entre três e quatro dólares, deixa a vacina mais cara do lado hispânico da América Latina.

 

Vacina Oxford na dianteira

 

Resultados preliminares indicam eficácia para a vacina de Oxford no seu último estágio de testes, a fase III, aplicada atualmente no Reino Unido, no Brasil, na África do Sul e, em breve, nos Estados Unidos. O projeto Oxford é considerado o mais avançado pela Organização Mundial da Saúde.

 

Tanto na Argentina quanto no Brasil, a substância ativa deve chegar em novembro ou dezembro e o primeiro lote comercial poderia estar disponível em janeiro ou fevereiro. A posterior distribuição dará prioridade a grupos de risco (idosos e pessoas com comorbidades) e pessoal da área da Saúde.

 

Argentina, Brasil, Estados Unidos e Alemanha também foram parte dos ensaios clínicos para outra vacina, elaborada pela BioNTech e pela Pfizer.