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"Arte é uma forma de resistência e solidariedade", diz diretor de festival de artes cênicas em Paris

18/09/2020 05h45

Depois de meses fechados, cinemas, teatros e museus estão reabrindo na França. O vírus continua à espreita, ameaçando e cancelando grandes eventos. Mas a resistência também é forte, da parte de artistas, de organizadores e, principalmente, do público.  

Depois de meses fechados, cinemas, teatros e museus estão reabrindo na França. O vírus continua à espreita, ameaçando e cancelando grandes eventos. Mas a resistência também é forte, da parte de artistas, de organizadores e, principalmente, do público.  

Alguns grandes eventos do calendário artístico acabaram sendo anulados este ano, como o Festival de cinema de Cannes, o Festival de Teatro de Avignon, a Fiac (Feira Internacional de Arte Contemporânea) e vários festivais de música. Outros, como o Festival Visa pour L'Image de Fotojornalismo ou o Festival de Cinema americano de Deauville, adotaram fórmulas reduzidas que marcaram presença.

Outro grande evento que resolveu enfrentar as restrições é o Festival de Outono de Paris, em sua 49ª edição. Teatro, dança, música e artes plásticas fazem parte de um cardápio pluridisciplinar. Em formato reduzido e obedecendo regras sanitárias, este ano são 70 eventos artísticos que vão ser realizados na capital francesa e arredores durante quatro meses.

Depois de tantos meses de silêncio, o diretor do festival Emmanuel Demarcy-Mota, optou por um evento de solidariedade. "Em maio, com o cancelamento de festivais como Avignon e Edimburgo (Escócia), percebemos que muitos artistas não podiam se apresentar", explica. "E isso é muito grave, nunca tinha acontecido desde a Segunda Guerra Mundial no espaço europeu."

Incentivo para artistas e público

"Daí veio a ideia de criar um festival para os artistas que não estavam podendo mostrar os trabalhos que me interessam, artistas que não estavam em condições de criar. Resolvemos também reservar quatro mil lugares gratuitos para crianças, adultos, para quem trabalha em hospitais, para criar novas redes de amizade e trabalho com os artistas", diz Demarcy-Mota.

"Conseguimos montar uma programação com 70 espetáculos europeus, somos um grande festival com uma pequena equipe", acrescenta. Para Demarcy-Mota, que também é ator, dramaturgo e diretor de teatro, a relação de continuidade com os artistas é fundamental, como no caso do coreógrafo e dançarino francês Boris Charmatz, o diretor e teatrólogo suíço Milo Rau e o português Tiago Rodrigues.

São artistas cujo percurso é cuidadosamente acompanhado pelo festival no transcorrer do tempo, explica Demarcy-Mota, que também destaca nomes novos, como os artistas do grupo l'Enciclopédie de la Parole, que fazem shows com voz e música. "Um espetáculo", recomenda o diretor.

"O Festival de Outono é nossa forma de combater a solidão, de ajudar as pessoas mais velhas e mais novas, que estão numa situação muito complexa, uma situação inédita para todas e que vai ser longa", diz Demarcy-Mota.

Outro evento que não se deixou abater foi o Art Paris (10 a 13 de setembro), a primeira feira de arte moderna e contemporânea pós-confinamento). O evento aconteceu no espaço do Grand Palais. O curador Guillaume Piens comemora: "foram mais de 112 galerias de 15 países, o mercado de arte está vivo e resiste".

A próxima grande feira sob a nave de vidro do Grand Palais já tem data: é a tradicional Paris Photo, de 12 a 15 de novembro.

No escurinho do cinema

Já a frequentação das salas de cinema vai aumentando pouco a pouco, depois da queda brutal de 73,8% registrada em julho em relação ao ano anterior, de acordo com o Centro Nacional do Cinema. Desde a reabertura das salas, no dia 24 de junho, o público é de um terço do habitual. A ausência de blockbusters hollywoodianos, que em julho representam cerca de 70% das estreias na França, também tem o seu peso na baixa da frequentação.

Mas Paris também tem cinéfilos renitentes, que fazem fila para filmes faça sol ou chuva (na França a espera para entrada nas salas é geralmente em filas no exterior). Como o engenheiro Jean-François, que não tem TV em casa e não gosta de assistir filmes na tela do computador.

"Não tenho medo de me contaminar. O único problema de usar máscara o tempo todo é que isso às vezes embaça meus óculos. Mas os cinemas de Paris se adaptaram bem e vou com frequência desde que eles reabriram. As salas do Quartier Latin (região central), por exemplo, oferecem programações interessantes. No momento estou seguindo uma retrospectiva de clássicos japoneses", diz o cinéfilo.