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Após sucesso no combate à primeira onda de Covid-19, israelenses se recusam a aderir a novo lockdown

23/09/2020 09h46

O segundo lockdown em Israel, que começou na última sexta-feira (18), está deixando a desejar. Por todo o país, muitos moradores ignoram as orientações de isolamento social e podem levar o governo a acirrar as restrições, em meio a uma segunda onda de Covid-19 maior e mais severa do que a primeira.

O segundo lockdown em Israel, que começou na última sexta-feira (18), está deixando a desejar. Por todo o país, muitos moradores ignoram as orientações de isolamento social e podem levar o governo a acirrar as restrições, em meio a uma segunda onda de Covid-19 maior e mais severa do que a primeira.

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Tel Aviv

Israel é o primeiro país a determinar um segundo lockdown depois do ressurgimento da epidemia. Se, na primeira onda, entre março e abril, Israel contabilizou menos de 300 mortes e 800 infectados por dia no auge, a segunda onda pode ser comparada a um tsunami. Desde o começo de agosto, mais mil pessoas morreram por coronavírus e os índices de infecção diários superam 6 mil. 

Mesmo que ainda esteja atrás do Brasil e do Peru, Israel ultrapassou os Estados Unidos em números de infectados diários em relação à população. O país tem 2.115 casos por 100 mil pessoas, enquanto Washington indica 2.078 casos por 100 mil pessoas. 

Apesar de tudo isso, o lockdown não está dando muito certo. Os índices de adesão são tão decepcionantes que especialistas dizem que a quarentena não será efetiva.

Israel foi modelo de combate à Covid-19

Israel enfrentou bem a primeira onda de contágios e o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se orgulhou de ser uma espécie de modelo. O sucesso aconteceu devido a medidas rápidas de fechamento de fronteiras e de isolamento social, além da pausa na economia entre março e abril. A grande maioria da população cooperou e, em junho, a situação havia melhorado muito, com alguns dias sem registro algum de mortos ou infectados.

Mas, agora, as coisas estão diferentes. Os israelenses demonstram desprezo pelas regras da quarentena, com muita gente procurando brechas para não cumprir as instruções. No fim de semana, as praias e cafés de Tel Aviv ficaram cheios, além das sinagogas em Jerusalém.

O governo discute aumentar as restrições e as multas para infratores às vésperas dos feriados judaicos do Dia do Perdão e de Sucot, a Festa dos Tabernáculos. Ao mesmo tempo, aprovou mais um plano de assistência financeira à população de US$ 3 bilhões para incentivar as pessoas a ficarem em casa. 

Vítimas do próprio sucesso

O professor Masad Barhoum, diretor-geral do Centro Médico da Galileia Ocidental, o maior hospital governamental do Norte de Israel, disse à RFI que os israelenses são vítimas de seu próprio sucesso na primeira onda. Segundo Barhoum, as pessoas não seguem a quarentena de agora porque teriam o que ele chama de "falsa ilusão de que tudo daria sempre certo".

Ele diz que "o problema é que todos estavam seguros de que não pegariam o vírus e que não aconteceria em Israel o que aconteceu na Itália e na Espanha". "Hoje vemos as consequências deste comportamento", reitera.

O professor Barhoum dá o exemplo da minoria árabe-israelense, cerca de 20% da população. Na primeira onda, só 5% dos doentes de Covid-19 eram dessa minoria e, por isso, quando chegou o verão, o tradicional período de casamentos, eles realizaram dezenas de festas por dia, com centenas ou até milhares de convidados.

O resultado é que, atualmente, os árabes são 30% dos doentes. Só no Centro Médico da Galileia Ocidental, eles correspondem a 70% dos internados por coronavírus, apesar de serem apenas 50% da população da região.

O professor Barhoum teme que o hospital não aguente um aumento do número de doentes - não por falta leitos, mas sim de equipe especializada. Até hoje, o centro médico não precisou enviar nenhum doente para outros locais, o que seria perigoso porque, segundo ele, "muitos hospitais do país já estão lotados". É o caso do Hospital Shaarei Tzedek, em Jerusalém, e do Centro Médico Assuta, em Ashdod, que anunciaram não poder mais receber pacientes.

Nesta terça-feira, o professor Barhoum decidiu abrir uma quarta ala de coronavírus no Centro Médico da Galileia Ocidental e suspender todas as operações eletivas não urgentes: "Pessoas que estão esperando há muito tempo por uma operação terão que esperar ainda mais", ele afirmou. "Não temos opção. É uma batalha."

"Nação Star-Up" que não consegue lidar com a Covid-19

Enquanto isso, o clima não está nada bom no país. Se, por um lado, muitos israelenses ignoram as instruções do segundo lockdown, por outro, se perguntam como o país conhecido como a "Nação Star-Up", um país com tanta tecnologia, não consegue domar o coronavírus. Esse é um paradigma complicado de entender. 

Muitos culpam o governo pelo fracasso no enfrentamento da segunda onda de contaminações, acusando os políticos, principalmente o primeiro-ministro Netanyahu, de sucumbir a pressões de alguns grupos para relaxar as medidas de lockdown. Isso não aconteceu apenas devido ao temor de uma maior crise econômica e do aumento do desemprego.

Foi o caso da minoria ultraortodoxa, que exigiu a reabertura das sinagogas e internatos rabínicos, onde o distanciamento social é difícil de ser mantido. Outro caso é o dos manifestantes anti ou pró-Netanyahu, que exigiram o direito de sair às ruas para protestar, o que ajudou na multiplicação de casos. O governo também teria dado autorização cedo demais para abertura do comércio e de escolas.

Neste contexto, a perspectiva é de que o inverno em Israel seja ainda mais complicado. O professor Barhoum teme o que pode acontecer quando o país tiver que lidar com surtos de gripe ao mesmo tempo que o de coronavírus.