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Para muitos libaneses, fracasso de Adib já era esperado e sistema político do país é insustentável

28/09/2020 06h35

A renúncia do primeiro-ministro do Líbano, o sunita Mustafa Adib, não foi nenhuma surpresa e teve apoio da maioria no Parlamento e dos presidentes líbanês, Michel Aoun, e francês, Emmanuel Macron. Os partidos do bloco xiita, como o movimento Amal e o Hezbollah, têm maior força nas questões políticas e econômicas no Líbano, principalmente em setores como segurança e finanças, explica o correspondente da RFI Brasil em Beirute.

A renúncia do primeiro-ministro do Líbano, o sunita Mustafa Adib, não foi nenhuma surpresa e teve apoio da maioria no Parlamento e dos presidentes líbanês, Michel Aoun, e francês, Emmanuel Macron. Os partidos do bloco xiita, como o movimento Amal e o Hezbollah, têm maior força nas questões políticas e econômicas no Líbano, principalmente em setores como segurança e finanças, explica o correspondente da RFI Brasil em Beirute.

Tariq Saleh, correspondente da RFI Brasil em Beirute

Adib enfrentou forte oposição deste bloco xiita, que insistia em reter o Ministério das Finanças, o que ia contrário à iniciativa de Macron por um gabinete de ministros independentes. Líderes xiitas temiam serem escanteados por Adib, que buscava apontar novos nomes para ministérios controlados há anos pelas mesmas facções políticas.

Segundo analistas libaneses, o boicote de Hezbollah e Amal, ambos apoiados pelo Irã, parece ser também uma tentativa de atrasar a formação de um governo até após o resultado da eleição presidencial nos Estados Unidos. O governo de Donald Trump, que tem tido uma postura dura contra o Irã, impôs sanções contra políticos libaneses ligados ao Hezbollah, incluindo o ex-ministro de Finanças. Alguns críticos de Adib disseram que seu erro foi não fazer consultas suficientes com os blocos parlamentares.

Para população, fracasso de Mustafa Adib já era esperado

Muitos libaneses e ativistas dos protestos antigoverno falam nas redes sociais e nas ruas que o fracasso de Mustafa Adib já era esperado. Alguns até falam de que Adib era parte do sistema falido que eles querem derrubar, já que ele mesmo foi apontado como embaixador em Berlim por um ex-primeiro-ministro e se beneficiou do sistema patronal e corrupto.

Muitos criticaram os políticos por continuar o jogo de preservar seus interesses acima dos interesses do país. Em mensagens em redes sociais, libaneses ironizavam que enquanto a maioria da população luta para sobreviver com inflação, desemprego e pobreza, os partidos minaram a tentativa de Adib em formar um governo e receber finalmente bilhões de dólares em ajuda financeira do FMI e outros países.

Outros acreditam que o fracasso de Adib é mais uma amostra para os políticos libaneses de que estão isolados e o sistema que eles tentam salvar é insustentável. Para eles, a única solução é a saída de toda a classe política que veem como corrupta. Para esses, o caminho é o boicote de Macron e outros líderes mundiais aos atuais líderes políticos libaneses.

Sucesso da mediação francesa ainda é uma incógnita

Tradicionalmente, a formação de governos no Líbano leva meses, até mais de um ano para acontecer, devido a divergências e interesses. E mesmo com o país em sua pior crise nas últimas décadas, não parece haver indícios de que os partidos políticos facilitem qualquer solução.

O próprio presidente Michel Aoun disse  a jornalistas dias antes da renúncia de Adib que o Líbano iria para o "inferno" se um novo governo não fosse formado e o plano de Macron fracassasse.

É consenso entre alguns políticos e analistas que o Líbano não tem muitas opções. O país parece caminhar cada vez mais para um colapso de sua economia, e ajuda internacional só virá com um governo que realize profundas reformas que significam acabar com o sistema patronal e corrupto que domina o Líbano há décadas.

Mas mesmo com o país em crise, com aumento significativo de pobreza e desemprego, a classe política continua com o jogo de se acusarem uns aos outros pelas falhas em formar um governo e realizar reformas.

Após o anúncio de Adib no sábado (26), o ex-primeiro-ministro Saad Hariri, o principal líder sunita do país, advertiu que aqueles que aplaudem o colapso da iniciativa de Macron se arrependeriam mais tarde.

Os partidos políticos, incuindo o bloco xiita, declararam que ainda estavam comprometidos ao plano de Emmanuel Macron. O ultimato do líder francês colocará ainda mais pressão para que abram mão de seus interesses pessoais e cheguem a um consenso. Resta então aguardar os próximos dias e semanas para ver como reagem as lideranças políticas libanesas.

Macron acusa partidos libaneses de traição

O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou neste domingo (27) que "tomou nota da traição coletiva" dos políticos libaneses após seu fracasso na formação de um governo, contrariamente ao compromisso que eles haviam firmado no início de setembro.

Em uma coletiva de imprensa dedicada ao Líbano, Macron afirmou que a elite política libanesa "traiu" seus compromissos e cometeu uma "traição coletiva" ao não formar um governo. Ao abrir mão do cargo no sábado, Mustafa Adib alegou ter falhado na formação de um gabinete reformista.

Os partidos políticos libaneses se comprometeram com Macron, que visitou o Líbano no início de setembro, a formar um governo de ministros "competentes" e "independentes" em até duas duas semanas.

Segundo o chefe de Estado francês, os partidos "têm total responsabilidade" por este fracasso. "As autoridades libanesas e as forças políticas preferiram favorecer seus interesses partidários e individuais em detrimento do interesse geral do país",  ressaltou.

Os líderes do país têm uma "última chance" de respeitar seus compromissos e formar um "governo de missão e obter ajuda internacional", acrescentou Macron. Ele também enviou um alerta ao grupo xiita Hezbollah, apoiado pelo Irã. O Hezbollah "não deve pensar que é mais poderoso do que é e deve mostrar que respeita todos os libaneses. E nos últimos dias, demonstrou claramente o contrário", declarou Macron.

O presidente francês visitou o Líbano duas vezes na semana da explosão no porto de Beirute. A deflagração em 4 de agosto de toneladas de nitrato de amônio armazenadas no porto de Beirute matou 190 pessoas, feriu milhares e devastou muitas áreas da capital. O drama gerou novos protestos contra a corrupção e a má gestão, levando o governo a renunciar.