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Mais de mil brasileiros disputam regata virtual Vendée Globe

22/11/2020 15h02

Neste final de semana, a famosa regata Vendée Globe continua sua passagem pelo Atlântico Sul, nas proximidades da costa brasileira em direção ao Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Paralelamente ao desafio real de 32 skippers, quase 900 mil competidores fazem o mesmo trajeto na versão virtual da competição, entre eles, mais de mil brasileiros. 

Neste final de semana, a famosa regata Vendée Globe continua sua passagem pelo Atlântico Sul, nas proximidades da costa brasileira em direção ao Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Paralelamente ao desafio real de 32 skippers, quase 900 mil competidores fazem o mesmo trajeto na versão virtual da competição, entre eles, mais de mil brasileiros. 

Nesta fase da regata Vendée Globe, a diferença entre os navegadores diminui e a disputa fica mais acirrada e emocionante. A prova atualmente é liderada pelo francês Thomas Ruyant (LinketOut) e graças à tecnologia, tudo pode ser acompanhado de perto, praticamente em tempo real.

A Vendée Globe é uma das mais difíceis provas de navegação no mundo. Os competidores navegam sozinhos seus barcos à vela em um trajeto longo, mais de 50 mil quilômetros, sem escalas. Eles saem de Sable d'Olonne, no oeste da França, devem dar a volta ao mundo passando por três Cabos, o da Boa Esperança, de Leeuwin e Horn, e retornar ao ponto de partida. O recorde pertence ao francês Armel Le Cléac'h, que completou o trajeto em 74 dias.  

Este ano, por causa da pandemia de coronavírus, a largada da 9ª edição aconteceu em 8 de novembro com 33 skippers que se lançaram na grande aventura. Um deles, Jérémie Beyou, enfrentou problemas no barco e já voltou à terra firme. 

Regata Virtual

Muitos fãs da Vendée Globe, assim como de muitas outras competições de vela, não se limitam a acompanhar por meio da tela de computadores e celulares. Os mais fanáticos podem também participar da regata Vendée Globe virtual. Os meios tecnológicos permitem que de casa, ou onde estiver, um participante viva as mesmas dificuldades e sensações de quem está realmente no mar.

O jornalista e navegador Roberto Grenaes, um dos maiores especialistas em esportes náuticos do Brasil, participa desta regata de sua casa em Cunha, no interior de São Paulo. Ao mesmo tempo navega e escreve reportagens para o site Minuto Náutico, por quem compete. 

"É preciso ter uma conexão fácil com a internet e disponibilidade de tempo, inclusive à noite e de madrugada. Uma regata virtual, assim como a real, não para. Um veleiro está no mar, ele não para. Ele tem que ir no oceano até chegar em algum lugar. Na regata virtual, que é uma simulação, não bem um jogo, um game, é a mesma coisa. Não dá para salvar uma posição e voltar mais tarde. Não tem como fazer isso", explica.

Como em qualquer competição, são os objetivos e desafios que um competidor impõe para si mesmo que serão determinantes para seu envolvimento, dedicação e resultado na prova, segundo ele.

"Depende dos objetivos, se é apenas para se distrair, qualquer um pode participar. Mas se houver a intenção de vencer, estar entre os primeiros, é preciso ter bastante conhecimento de navegação, e saber lidar com as previsões meteorológicas. Um pouco de conhecimento de computador, informática, de internet também é bom porque o ambiente virtual tem umas exigências próprias. Os ventos que estão nas previsões são os mesmos presentes na vida real. Então, é preciso ficar atento a isso. O sistema americano é que define a previsão do tempo, com satélites espalhados pelo mundo a cada seis horas. Então, é preciso estar atento a esses satélites para fazer um planejamento de meteorologia e de rotas em função dos ventos", explica.

Mais do que os conhecimentos das técnicas de navegação e de domínio de programas de previsões meteorológicas, é preciso também ter bom condicionamento físico e resistência mental.  

"O maior desafio é o cansaço, porque você não vai conseguir dormir uma noite normal a não ser que você esteja participando no modo cruzeiro, simples, só brincando. Mas, para quem quer fazer a regata para valer, o maior desafio é aguentar o sono, porque não se pode dormir como normalmente", diz ele. 

Uma regata como a Vandée Globe leva mais de dois meses ou mesmo três meses para ser concluída, o que eleva o nível de exigência. "Durante este período tem que estar à meia-noite acordado, depois seis e meia de novo e geralmente até uma hora depois desses horários, fazendo as contas, o planejamento e acompanhando a regata, e também ficar de olho nos adversários, porque tem que ver o que os concorrentes estão fazendo para não ser ultrapassado", acrescenta.

Quase 1 milhão de inscritos

Na regata virtual, a concorrência é muito mais dura. Nesta edição da Vendée Globe são quase 900 mil inscritos, que podem entrar na competição a qualquer momento, o que muitas vezes dificulta o desempenho de quem encara seriamente a prova.  

"A Vendée Globe é a mais difícil pela extensão de tempo e pela quantidade de gente participando. Atualmente são quase 900 mil pessoas, o que acaba interferindo nos servidores. O tempo para entrar às vezes demora, você não consegue entrar de imediato. Isso às vezes até estressa porque você quer entrar, mudar o rumo e fica até 15, 20 minutos, uma hora para conseguir. É muita gente participando, do mundo inteiro, o que por outro lado é um desafio fantástico", ressalta.

Nesta edição, apenas 1.111 brasileiros participam desta regata, o que é considerado pouco expressivo, levando em consideração o número geral de participantes e a extensa costa brasileira. O pequeno interesse é reflexo também da falta de cultura desportiva náutica do país.

Uma das equipes em competição é a Brazilian Sailing Team (BST), que reúne 11 participantes virtuais. Nem todos podem se dedicar integralmente, mas quando estão navegando, vivem as emoções que a regata proporciona.  

"Cada jogador tem as suas reações. No mar real, as emoções são mais resultantes das expectativas físicas, sobre a resistência do barco, da resistência física corporal, da movimentação dos elementos, água, vento, sol e os fatos imponderáveis que podem acontecer. No mar virtual, as emoções resultam das diferentes estratégias, decisões e técnicas utilizadas para obtenção dos melhores posicionamentos", destaca KikoPR, executivo de uma grande empresa que só participa da prova em seu tempo livre.  

Para ele, um bom desempenho depende da "persistência e técnica e de uma boa dose de sorte e paciência".

Outro grande fator de motivação é tentar superar os adversários, muitos deles com ampla experiência em competições reais e virtuais. 

"É muito grande a emoção no momento de um desafio em que se está indo bem e quer vencer. E você não está competindo com 10, 20, 30 pessoas, como numa regata real. Você está enfrentando quase um milhão de pessoas, e entre elas, muitos são velejadores profissionais. A regata virtual não é uma coisa fácil que você participa e pode ganhar. Os maiores campeões, os maiores especialistas do mundo estão participando, é gente muito boa e muito séria. Não é nada fácil chegar ao final de uma regata virtual", ressalta o jornalista Negraes.

Aos 72 anos, ele afirma ser o único brasileiro que venceu uma regata virtual até o momento. Em 2011, Roberto Negraes chegou em primeiro em uma das cinco etapas da Velux Five Oceans, que deu a volta ao mundo. Apesar de ser tão pouco seguido, ele diz ter orgulho de representar o país, mesmo que o reconhecimento não esteja à altura de sua dedicação.  

"É uma emoção muito grande porque você, de qualquer jeito, está representando o Brasil. Você é brasileiro, o barquinho virtual tem suas bandeiras também. Então meu barco tem a bandeira brasileira. Estamos na luta para conseguir um bom desempenho e divulgar mais a náutica e os esportes náuticos, principalmente a vela, pois não existe coisa mais respeitosa do meio ambiente. Os barcos se movem com os ventos, com a natureza. E espero conseguir uma boa classificação nesta Vendée Globe. Boa sorte aos brasileiros e bons ventos", conclui, otimista. 

A Vendée Globe real e virtual deve terminar em janeiro de 2021.