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Despedida de Maradona vira campo de batalha com invasão na Casa Rosada

26/11/2020 17h31

O caixão de Maradona precisou ser retirado da sala de velório e ficou sob proteção da guarda militar, depois que 200 pessoas invadiram o palácio do governo para dar adeus ao ídolo morto. Do lado de fora, a polícia interveio com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e jatos d'água. Para conter a violência, a família de Maradona decidu prolongar o velório por mais três horas.

O caixão de Maradona precisou ser retirado da sala de velório e ficou sob proteção da guarda militar, depois que 200 pessoas invadiram o palácio do governo para dar adeus ao ídolo morto. Do lado de fora, a polícia interveio com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e jatos d'água. Para conter a violência, a família de Maradona decidu prolongar o velório por mais três horas.

Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

A homenagem a Diego Armando Maradona virou um caos, com violentos distúrbios, prisões e invasão da Casa Rosada, o lugar que deveria ser o mais seguro do país. A incursão de torcedores obrigou as autoridades a retirarem o caixão para proteger o corpo do ex-jogador.

Os fanáticos forçaram uma das portas de entrada onde estão as grades que protegem o palácio presidencial, derrubando o pessoal de segurança e gerando incidentes. Também pularam as grades, mesmo sendo altas. A polícia reprimiu com balas de borracha, bombas de gases lacrimonêo e carros hidrantes, mas cerca de 200 pessoas conseguiram invadir o local.

Os gases chegaram até dentro da Casa Rosada, afetando, inclusive, quem estava no velório. A Polícia do Exército entrou em ação para dispersar os invasores.

A última barreira de contenção foi vencida mesmo depois de a família de Maradona ter decidido estender o horário do velório por três horas, até as 19h, quando o corpo seria levado em caravana até o cemitério Jardín Bella Vista, a 40 km de Buenos Aires.

A extensão do horário já visava conter os enfrentamentos que aconteciam a 700 metros da Casa Rosada, na Avenida 9 de Julho, onde tem início o trajeto criado para conduzir a multidão em fila até o salão onde o corpo de Maradona é velado.

Para controlar a aglomeração e interromper a despedida no horário inicialmente previsto, às 16h, a polícia fechou o acesso. A multidão inconformada reagiu com violência, atacando os policiais. A tensão cresceu ganhando ares de batalha campal com o lançamento de pedras e garrafas pelos torcedores, que foram dispersados com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

A situação foi controlada pelas autoridades e o próprio presidente Alberto Fernández, dentro da Casa Rosada, avalia como irá prosseguir com a despedida de Maradona.

Desde o início do velório, entre a dor e o orgulho, milhares de pessoas desfilaram diante do caixão para dar o último adeus ao ídolo. A família quer enterrar Maradona ainda nesta quinta-feira, enquanto os fãs querem esticar a possibilidade de se aproximar do caixão. Pelas ruas e avenidas de Buenos Aires, cartazes de trânsito sinalizam: "Obrigado Diego".

Sobre o caixão fechado, uma bandeira da Argentina. Sobre a bandeira, as camisetas de número 10 da seleção argentina e do Boca Jrs, clube do qual Maradona era torcedor. E, por mais que os seguranças retirem, sobre o caixão são lançadas mais e mais camisetas de clubes, flores e bandeiras em forma de oferendas.

Antes da confusão, os admiradores entravam no salão do velório em grupos de 20 pessoas de cada vez.

"Isto é muito forte. A energia que se vive aqui me arrepia. Sinto como se não fosse verdade, como se não tivesse acontecido. Mal consigo andar. Senti o mesmo que quando o meu pai morreu. Estou anestesiado", explicou Fernando Martínez, 48 anos.

Os inevitáveis prantos, os aplausos de orgulho, os gritos de força para a família, os punhos erguidos em sinal de vitória, como fazia Maradona a cada gol, as mãos unidas em formato de prece. Com frequência, a tristeza é entrecortada pelo cântico típico das tribunas de futebol.

"Ele não vai morrer nunca, mas alguma coisa morreu em nós. E é isso o que dói", esforça-se para dizer sem chorar Ariel Gándara, 37 anos.

"Ele sempre foi fiel ao que sentia. Era frontal. Por isso, o povo se identifica com ele. E quando se metia em polêmica, bom, estava perdoado: era Maradona", diz envolta numa bandeira argentina Noemí Mendez, 42 anos.

Aglomerações e sinais de trânsito

Apesar de as fronteiras estarem fechadas, o governo argentino permitiu a entrada da imprensa internacional para acompanhar o funeral. Cerca de 840 jornalistas foram credenciados para cobrir o evento.

A ausência de distanciamento social e o pouco cuidado para evitar o contágio do coronavírus num país com elevado número de casos e mortes no mundo tem provocado polêmica.

As famílias que perderam entes queridos durante o ano, sem direito a velório nem despedida, sentem indignação ao ver a aglomeração em torno de Maradona.

Questionado pelo risco que a situação oferece, o ministro da Saúde, Ginés González García limitou-se a dizer "tomara que não".

Na capital argentina, os sinais de trânsito e os letreiros de informação foram programados para emitir um agradecimento a Maradona. O craque faleceu de parada cardíaca enquanto dormia.

"Obrigado, Diego", pode-se ver nas entradas do metrô, nos cartazes luminosos das rodovias e painéis das avenidas.