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Produtor musical negro é espancado por policiais franceses, vídeo viraliza e abre nova crise no governo

Michel Zeeler, produtor musical francês espancado por policiais franceses em Paris, França - Reprodução/L"Obs
Michel Zeeler, produtor musical francês espancado por policiais franceses em Paris, França Imagem: Reprodução/L'Obs

26/11/2020 20h07

Quatro policiais franceses foram suspensos de suas funções hoje depois da divulgação de um vídeo nas redes sociais que mostra pelo menos três agentes espancando um produtor musical negro, no último sábado (21), quando ele chegava em um estúdio de gravação no 17° distrito de Paris. As imagens viralizaram nas redes sociais e provocam a indignação de jogadores de futebol, ativistas e políticos de oposição. Todos denunciam o racismo e abusos da polícia francesa.

Até o início da noite, o vídeo mostrando a violenta agressão ao produtor musical negro Michel Zecler tinha sido visto por 7 milhões de pessoas. As imagens, publicadas pela mídia independente Loopsider, mostram o homem sendo surrado pelos policiais. Três agentes alegaram que intervieram porque o produtor estava na rua sem máscara. Eles disseram que "foram arrastados" pela vítima para dentro do prédio. Um quarto policial, que chegou de reforço para "ajudar os colegas", é suspeito de ter jogado uma bomba de gás lacrimogêneo no estúdio de música.

Michel Zecler, que prestou queixa acompanhado por sua advogada na sede da Inspecção-Geral da Polícia Nacional em Paris (IGPN), órgão equivalente à corregedoria da polícia no Brasil, disse que os policiais o chamaram várias vezes de "crioulo sujo". Ao final de seu depoimento, ele destacou que sua única expectativa é que "o trabalho de corregedoria da polícia (IGPN) seja feito". O ministro do Interior, Gérald Darmanin, declarou que os policiais envolvidos serão demitidos.

O caso vem à tona em uma semana em que a política de segurança pública do presidente Emmanuel Macron é criticada pela oposição de esquerda e enfrenta uma onda de protestos nas ruas.

Na segunda-feira (23), uma violenta operação policial de retirada de migrantes afegãos da praça da República, em Paris, chocou até o ministro do Interior. No dia seguinte, a Assembleia Nacional aprovou uma lei controversa que proíbe e criminaliza a filmagem de policiais durante suas intervenções. Antes dessa votação, durante dez dias sindicatos de jornalistas e defensores dos direitos civis fizeram uma série de manifestações para denunciar o texto, considerado uma censura à liberdade de informar. Elogiado pelos sindicatos da polícia, apoiado pela direita e pela extrema direita, esse artigo da nova Lei de Segurança Global é apontado como uma deriva autoritária de Macron.

O presidente não se manifestou. O primeiro-ministro, Jean Castex, disse que o polêmico artigo será modificado e enviado para avaliação do Conselho Constitucional.

Reações indignadas

As imagens de violência gratuita contra o produtor negro geram forte indignação.

"O Estado de Direito não é negociável", tuitou a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo. Ela disse ter ficado "profundamente chocada com este ato intolerável".

Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical, viu no vídeo que circula nas redes sociais "a prova terrível da natureza vital do direito de filmar a ação policial". Ele chamou a polícia francesa de "milícia bárbara" e exige a renúncia do chefe de polícia de Paris, Didier Lallemend, adepto da linha dura. "O prefeito Lallement deve partir", tuitou Mélenchon.

Em uma rara declaração pública, o procurador de Paris, Rémy Heitz, disse esperar que o caso seja investigado e concluído "o mais rapidamente possível". "Este é um assunto extremamente importante para mim e que tenho acompanhado pessoalmente desde sábado", disse o procurador.

"Tolerância zero contra o racismo e contra esta violência, que não tem lugar na nossa República", tuitou por sua vez Christophe Castaner, ex-ministro do Interior que deixou o cargo criticado por sua atuação contra os coletes amarelos e hoje é o líder dos deputados do partido presidencial LREM na Assembleia Nacional.

"Estão machucando minha França" tuitou o atacante Antoine Griezmann, mencionando o ministro do Interior. Samuel Umtiti, seu companheiro de equipe na seleção francesa, também compartilhou o vídeo. O atacante Mbappé descreveu a violência policial como "intolerável". "Minha França tem valores (...) Basta de racismo", tuitou o jogador do PSG.

Policiais mentem em relatório

Em imagens de câmeras do circuito interno do estúdio, também vistas pela agência AFP, os três policiais são vistos entrando no local, agarrando o homem e dando socos, chutando ou batendo nele. Em seu relatório, os agentes escreveram que Zecler é que havia agredido os policiais.

Segundo essas mesmas imagens, o produtor resiste para evitar ser levado até a viatura, depois tenta proteger o rosto e o corpo. A cena dura cinco minutos e não parece que a vítima tenha batido nos policiais. Num segundo momento, as pessoas que estavam no porão do estúdio conseguem chegar à entrada, fazendo com que os policiais recuem para a rua, batendo a porta do estúdio. A polícia, então, tenta forçar a porta e lança uma bomba de gás lacrimogêneo no local.

Machucado e sangrando, Zecler foi levado para uma delegacia, onde foi aberto um inquérito por "violência contra pessoa que detém autoridade pública" e "rebelião". Mas a procuradoria de Paris encerrou esta investigação e abriu um novo inquérito na terça-feira, desta vez por "violência cometida por detentores de autoridade pública" e "falsificação de BO".

"Se não tivéssemos os vídeos, meu cliente poderia estar atualmente na prisão", disse a advogada do produtor, Hafida El Ali.

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