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América Latina não é prioridade para Biden, aponta cientista político americano

Biden e Bolsonaro não são exatamente amigos, mas devem buscar relação pragmática entre países, avalia o cientista político Scott Mainwaring - Rob Carr/Getty Images
Biden e Bolsonaro não são exatamente amigos, mas devem buscar relação pragmática entre países, avalia o cientista político Scott Mainwaring Imagem: Rob Carr/Getty Images

20/01/2021 15h45

O novo presidente americano toma posse hoje e uma nova página se abre nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos. Joe Biden e Jair Bolsonaro não são exatamente amigos, mas devem buscar uma relação pragmática entre os dois países, avalia o cientista político Scott Mainwaring, pesquisador da Universidade de Notre Dame e especialista em política brasileira em Harvard.

Em entrevista à RFI, o pesquisador frisa, entretanto, que a América Latina não está entre as prioridades do democrata. Nos primeiros meses, Biden vai se esforçar em reparar os danos do predecessor dentro do próprio país e, no plano internacional, na relação com a Europa.

RFI: O presidente Jair Bolsonaro aguardou até o fim para reconhecer a vitória de Biden. É possível uma relação harmônica, pragmática, depois de um começo tão adverso?

Scott Mainwaring: Acho que sim. Os dois países têm interesse em ter uma relação pragmática, razoável. Biden não é uma pessoa muito ideológica e a política externa dele também não será. Não vai estar entre as relações mais amigáveis que os Estados Unidos terão com os seus parceiros no mundo, mas os dois lados procurarão buscar uma relação pragmática.

Os Estados Unidos sempre exerceram uma forte influência política, cultural e econômica sobre o Brasil. Como fica essa influência a partir de agora? Lembrando que Biden não é exatamente um político de esquerda e tem um perfil mais de centro.

Certamente, nesse sentido o mundo mudou, sobretudo em termos comerciais, mas também temos visto na questão da vacina contra a Covid-19. A China tem muito mais influência na América Latina do que tinha 20 anos atrás. Eu acho que Biden vai valorizar a relação com a América Latina, mas a política de Trump causou tantos problemas internos para os Estados Unidos - crise econômica, crise sanitária e das instituições democráticas - que a primeira orientação do governo Biden será para dentro, embora por motivos muito diferentes do que foi com Trump. Não será de America First, uma política de nacionalismo branco. Mas a crise é muito profunda, com mais de 400 mil mortes pelo coronavírus e muitas mais por vir no próximo mês. Em segundo lugar, eu acho que a prioridade internacional será a relação com a Europa, já que Trump levou essa relação para uma crise. Não quer dizer que ele não vai prestar atenção na América Latina, uma relação que é importante em muitos temas.

A posse de Joe Biden acontece sob um esquema de segurança e isolamento inéditos na história do país, depois dos acontecimentos dramáticos de 6 de janeiro, com a invasão do Capitólio por manifestantes radicais trumpistas. Para o senhor, quais serão as consequências destes eventos na política americana nos próximos anos? O começo do fim da polarização política, ou ainda mais radicalização?

É uma excelente pergunta. Os grupos de extrema direita militarizada vão se manter, mas o que talvez possa acontecer é o FBI prestar mais atenção neles. Em segundo lugar, o Partido Republicano vive um drama muito profundo hoje. A maioria da base segue muito fiel a Trump, mas provavelmente a grande massa da elite republicana quer se livrar dele. Pela primeira vez, a popularidade de Trump realmente desceu, nas últimas duas semanas. Ele não poderia vencer uma eleição presidencial. Mas numa primária republicana, ninguém é capaz de batê-lo hoje. Isso é um problema muito profundo para o partido. Se o partido conseguir se livrar de Trump, a ala da extrema direita antidemocrática vai desmilinguir, pelo menos um pouco. Isso poderia diminuir a polarização, que tem aumentado ao longo dos últimos 25 anos aqui, mas o período de Trump exacerbou muito.

No Brasil como nos Estados Unidos, a possibilidade de impeachment desses dois presidentes é evocada. O senhor vê um paralelo entre o que acontece nos dois países?

Existe, sim, um paralelo. Eu não me arrisco a dizer quais seriam as probabilidades maiores, no caso brasileiro. Os dois presidentes têm muitas afinidades, não só ideológicas, mas também de estilo político, afinidades por figuras ideológicas. São paralelos bastante fortes.

Jair Bolsonaro sobrevive politicamente sem Donald Trump no poder nos Estados Unidos?

Certamente ele poderá sobreviver. Acho que o que vai pesar mais é a economia. Se a economia brasileira não se recuperar, a possibilidade de impeachment aumenta e a de reeleição, cai.

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