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Polícia prende centenas de participantes de protestos pró-Navalny na Rússia

23/01/2021 09h51

Mais de 300 pessoas foram presas neste sábado (23) em manifestações realizadas em 65 cidades da Rússia. Os protestos pedem a libertação do opositor Alexei Navalny, um dos principais inimigos do Kremlin. Ele está preso ao menos até 15 de fevereiro e é alvo de vários processos judiciais.  

Mais de 300 pessoas foram presas neste sábado (23) em manifestações realizadas em 65 cidades da Rússia. Os protestos pedem a libertação do opositor Alexei Navalny, um dos principais inimigos do Kremlin. Ele está preso ao menos até 15 de fevereiro e é alvo de vários processos judiciais.  

Milhares de manifestantes em todo o país atendem à convocação de Alexei Navalny e ocupam as ruas de dezenas de cidades russas. A maior das manifestações ocorre em Moscou, onde militantes desafiam a proibição das autoridades. 

"A Rússia será livre!", grita a multidão na Praça Pouchkine, centro da capital russa. A polícia prende dezenas de pessoas, enquanto divulga, repetidamente, uma mensagem dizendo aos participantes abandonarem "a concentração ilegal". Os manifestantes pretendem marchar até o Kremlin, sede do governo russo, que pode ser palco de fortes violências.

Os primeiros atos foram registrados nesta manhã no leste do país e na Sibéria. Em Vladivostok, Khabarovsk, Novossibirsk et Tchita, os manifestantes gritavam "Liberdade a Navalny! Liberdade aos prisioneiros políticos!", diante de um importante efetivo policial mobilizado. 

Em Vladivostok, as prisões foram brutais e cenas de violência foram registradas. Para dispersar a multidão, os policiais correram atrás de militantes e os agrediram a golpes de cassetete.

Em Iakoutsk, ao sul do círculo polar, uma centena de pessoas enfrentou o frio de -50°C para pedir a libertação do opositor. Cerca de 200 pessoas já haviam sido presas em cerca de 20 cidades no início da manhã, segundo a ONG OVD-info, especialista na observação de operações policiais em protestos. 

Prisão de apoiadores de Navalny

Vários colaboradores do opositor foram presos nos últimos dias, como a coordenadora da sede do opositor em Vladivostok, Ekaterina Vedernikova, e uma colaboradora da sede de Novosibirsk, na Sibéria, Elena Noskovets.

Uma figura crescente da oposição, Liubov Sobol, foi condenada pagar a 250.000 rublos (R$ 18,30 mil) por ter convocado uma manifestação. Georgui Alburov, que participa das investigações anticorrupção de Navalni, foi condenado a 10 dias de prisão.

A porta-voz da oposição, Kira Yarmish, foi sentenciada a nove dias de detenção após um julgamento que durou menos de cinco minutos na sexta-feira, segundo sua advogada Veronika Poliakova. A chefe da equipe de Navalny em Krasnodar, no sul da Rússia, Anastassia Pantchenko, também foi presa na quinta-feira.

A equipe do opositor informou a prisão da coordenadora de Tyumen, nos Urais, de outra colaboradora do enclave de Kaliningrado e de Serguei Boïko, cuja coalizão em Novosibirsk, na Sibéria, desafiou o partido do Kremlin nas eleições regionais de setembro.

A esposa de Navalni, Yulia, escreveu durante a última semana no Instagram que iria participar da manifestação em Moscou neste sábado. Na publicação, ela lembrou o suposto envenenamento de seu marido em agosto que muitos países ocidentais atribuem ao Kremlin. Nesta tarde, em outra publicação, ela postou uma foto dentro de uma viatura e disse ter sido detida pela polícia durante o protesto.

Manifestações são consideradas ilegais pelo governo

Diante da organização das mobilizações, o Kremlin, o Ministério Público e o Ministério do Interior da Rússia advertiram sobre a participação nos protestos, sugerindo uma possível dispersão brutal dos manifestantes. O porta-voz de Vladimir Putin, Dmitri Peskov, reiterou na sexta-feira que esses atos são "ilegais".

Autoridades ameaçaram as redes sociais com multas se não retirassem convocações para as manifestações e, em particular, alertaram as plataformas Tik Tok e Vkontakte, o equivalente russo do Facebook. Nos últimos dias, milhares de vídeos e mensagens de apoio ao opositor têm circulado no Tik Tok - uma plataforma popular entre os adolescentes - incluindo convocações para os atos e conselhos de como não ser preso pela polícia. Usuários publicaram gravações em salas de aula em que aparecem substituindo o retrato de Vladimir Putin pelo de Alexei Navalny. 

A imprensa russa afirmou que universidades e escolas tentaram desmotivar os alunos a saírem às ruas e pediram para os pais a "protegerem seus filhos". A chefe do canal de televisão estatal russo RT, Margarita Simonyan, acusou "o Tik Tok, de propriedade chinesa, de tentar orquestrar uma guerra entre crianças na Rússia". 

Apoio a Navalny

O advogado russo recebe o apoio de atores, músicos e atletas, incluindo personalidades geralmente afastadas da política, como o ex-capitão da seleção de futebol russa, Igor Denisov, ou do astro da música Monetotchka, muito popular entre os jovens.

No plano internacional, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, anunciou que havia telefonado para o presidente russo para exigir a "libertação imediata" de Navalny. O líder expressou "sérias preocupações" por parte da União Europeia em relação ao opositor e pediu "respeito total e incondicional por seus direitos".

Navalny foi preso em um aeroporto de Moscou, no último domingo (17), ao desembarcar de Berlim, onde estava desde que foi envenenado, em agosto, com uma substância neurotóxica do tipo Novitchok. Condenado a 3 anos e meio de prisão em um caso de fraude, ele não compareceu a uma revisão judicial na Rússia, há algumas semanas. A carta enviada para justificar sua ausência à audiência teria chegado tarde demais, alegam autoridades russas.

No final de dezembro, outra investigação criminal foi aberta contra o opositor. A Justiça russa o acusa de ter utilizado para fins pessoais cerca de € 4 milhões de um fundo anticorrupção. Por esse caso, ele pode ser condenado a até 10 anos de prisão.

Sua equipe contra-atacou na terça-feira (19), publicando no YouTube um vídeo de uma investigação sobre a enorme e suntuosa propriedade do presidente Vladimir Putin nas margens do Mar Negro. A construção teria custado mais de um US$ 1 bilhão. O material, de quase duas horas, foi acessado por dezenas de milhões de internautas no YouTube, um recorde para uma investigação do advogado russo.

(Com informações da AFP)