PUBLICIDADE
Topo

Estudo sobre efeitos positivos da colchicina no tratamento da Covid-19 é comemorado por médicos

25/01/2021 15h24

Em um comunicado oficial publicado no sábado (23), o Instituto do Coração de Montréal (ICM), no Canadá, divulgou que um estudo randomizado realizado durante meses no hospital revelou que o uso do anti-inflamatório colchicina, que existe há mais de 50 anos e é utilizado no tratamento da gota, é eficaz contra casos potencialmente graves de Covid-19. Médicas brasileiras entrevistadas pela RFI comemoram a notícia. 

Em um comunicado oficial publicado no sábado (23), o Instituto do Coração de Montréal (ICM), no Canadá, divulgou que um estudo randomizado realizado durante meses no hospital revelou que o uso do anti-inflamatório colchicina, que existe há mais de 50 anos e é utilizado no tratamento da gota, é eficaz contra casos potencialmente graves de Covid-19. Médicas brasileiras entrevistadas pela RFI comemoram a notícia. 

O estudo do ICM, intitulado Colcorona, foi realizado entre 23 de março de 2020 e 21 de janeiro de 2021. Uma prévia do estudo, que já havia sido publicada em 2020, foi atualizada nesta segunda-feira (25) pelo site do NIH, a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. 

"Não vou analisar pois é apenas um pré-release e não saiu nem pré-print nem publicação. Porém, como o grupo é sério e os pesquisadores têm nome internacional, acho que são notícias animadoras", disse a médica, professora e pesquisadora Melania Amorim. 

"De acordo com o pré-release, a investigação concluiu que em 4.159 pacientes, nos quais o diagnóstico de Covid-19 foi confirmado por um teste de PCR nasofaríngeo, o uso de colchicina reduziu as hospitalizações em 25%. A necessidade de ventilação mecânica foi reduzida em 50% e as mortes em 44%", explica Melania em suas redes sociais para seus alunos e o público leigo. 

"A se confirmar esses achados, e em grupos selecionados (eles testaram em pacientes de risco), teríamos um enorme impacto para prevenção de formas graves e redução da mortalidade. Além do que colchicina é baratíssima (espero que não saiam correndo para fazer estoque nas farmácias) e uma droga muito conhecida, usada há décadas para o fragmento da gota", diz a pesquisadora, lembrando que a droga não é indicada para grávidas. 

"Grande descoberta científica"

Segundo o site com os critérios do estudo, os pacientes que receberam o tratamento tinham ao menos 40 anos de idade e pelo menos um fator de risco. 

O diretor de pesquisa do ICM, Jean-Claude Tardif, disse em entrevista à TV France Info que trata-se de "uma grande descoberta científica", que faz da colchicina "o primeiro medicamento oral do mundo capaz de tratar pacientes na fase pré-hospitalar".

Ele tem publicado uma série de tuítes sobre o estudo, um deles dizendo que a colchicina previne o fenômeno de "tempestade inflamatória grave" causado pela Covid-19 em alguns organismos. 

Empolgação e vídeo retirado

Letícia Kawano, médica pneumologista e pesquisadora clínica do Hospital do Coração de São Paulo que está na França para realizar uma pesquisa no Hospital Bichat, em Paris, fez um vídeo de cerca de nove minutos no seu Instagram explicando e celebrando a notícia.

O vídeo foi tirado do ar duas vezes, sob acusação de possibilidade de fake news. Letícia atribui isso aos algoritmos da rede social, que podem ter confundido sua mensagem com a de médicos que fazem apologia ao tratamento precoce, o que não é o caso. 

Em entrevista à RFI, ela explica por que celebrou a notícia preliminar e quis compartilhar isso com os seus milhares de seguidores. 

"O contexto da situação explica um pouco da empolgação diante de uma informação preliminar. Nós estamos, no Brasil, com a Covid acelerada, o número de mortes batendo recordes, hospitais lotados - alguns sistemas inclusive colapsando, como vimos em Manaus, e outros muito próximos disso. Eu converso com colegas que trabalham em terapia intensiva no país todo, por causa das minhas atividades de pesquisa, e o que eles me contam é: cansaço, sobrecarga e que estão chegando no limite", conta Letícia.

"Daí você vê um grupo sério, estamos falando do Instituto do Coração de Montréal e de um dos braços do NIH, que é uma instituição super séria nos Estados Unidos, passando esta nota para a imprensa a respeito da eficácia de uma droga para a Covid no nível ambulatorial, que foi capaz de prevenir hospitalização, prevenir necessidade de ventilação mecânica e morte. Diante da situação crítica em que nós encontramos, não tem como não ficar feliz", continua.

"Em outra situação, eu aguardaria para comentar. Mas é um instituto sério. Não tem nenhuma indústria farmacêutica por trás, é uma droga que já está no mercado há muito tempo, é barata. Se eles publicam esta nota para a imprensa, é porque o resultado tem impacto em medidas imediatas de controle da Covid, Nós estamos vivendo uma situação de emergência", explica a médica pneumologista e pesquisadora. 

"Em uma situação de emergência, aprova-se vacinas ainda em estudos preliminares, como a da AstraZeneca/Oxford, para ver se controla a situação no Reino Unido, junto com a vacina da Pfizer. Eu acho que no Brasil as pessoas estão perdendo a noção da gravidade da coisa e isso me assusta", desabafa. "Com a variante de Manau e a variante britânica, a situação é muito crítica, é uma situação de exceçã"o, acrescenta. 

Segundo Letícia, ter esta informação agora ajuda os governos a se prepararem para usar a droga quando o estudo for publicado na íntegra, o que deve ocorrer em breve. 

Ela lembra que no Brasil houve estudos menores que mostravam a efetividade na colchicina na resposta inflamatória do organismo à Covid e que a droga faz parte do chamado tratamento precoce, preconizado por alguns médicos, junto com outros medicamentos que nunca tiveram sua eficácia comprovada por um estudo sério. 

"Eu entendo que, diante da falta de tratamento se lance mão de opções do que a gente chama off label, mas sobre algumas destas opções já existe uma grande quantidade de estudos provando que não têm efeito e eles continuam usando (no Brasil), este é o problema", adverte a médica, citando a hidroxicloroquina, entre outros.

"O principal problema deste tratamento precoce é que em geral ele vem casado com um discurso de que não precisa de isolamento, não precisa de máscara e é contra a vacina. Daí é um absurdo completo para mim", conclui a médica.