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Artista brasileira desenvolve projeto fotográfico com pacientes de centro psiquiátrico na França

26/02/2021 06h33

Sans Titre (Sem Título) é o nome do projeto fotográfico desenvolvido pela artista, fotógrafa e antropóloga catarinense Andrea Eichenberger com a participação de pacientes de um centro psiquiátrico no norte da França.

Sans Titre (Sem Título) é o nome do projeto fotográfico desenvolvido pela artista, fotógrafa e antropóloga catarinense Andrea Eichenberger com a participação de pacientes de um centro psiquiátrico no norte da França.

O objetivo do seminário - de maio de 2019 a janeiro de 2020 - era a fabricação de uma memória coletiva do centro psicoterápico de Saint Saulve, na região de Valenciennes, tendo como resultado uma exposição. A instituição estava prestes a fechar as portas após 40 anos de funcionamento.

O convite veio a partir de um trabalho anterior de Eichenberger, Les Mille Briques (Os Mil Tijolos), sobre um centro de detenção em Beauvais, norte de Paris, que também estava prestes a cessar suas atividades. Nesse projeto de residência artística, ela recolheu depoimentos e fotografou detentos e detentas. O resultado foi uma mostra e um livro, lançado em 2018.

As semelhanças entre os dois projetos - fabricar uma memória visual de um local prestes a desaparecer - ficam por ali. O segundo teve a diferença de ser coletivo, com a participação de pacientes, e depois, de enfermeiros, do centro psiquiátrico.

"O convite foi feito para construir a memória visual do local, a partir de um ateliê de criação e mediação, ou seja, as pessoas teriam de trabalhar comigo sobre a questão do espaço e a vida nesse local onde eles se encontravam", conta Andrea.

"Inicialmente, quando o projeto me foi proposto, fiquei com um certo receio da ideia de criar a memória de um local onde as pessoas não necessariamente têm vontade de estar", continua. "Nem sabia se haveria voluntários. Mas cinco pessoas apareceram, porque se interessavam por fotografia. Então começamos a trabalhar questões outras que a de um centro psiquiátrico. Discutimos a representação de um lugar na fotografia, o que um lugar pode contar sobre as experiências de vida, evitando falar sobre psiquiatria, a representação da loucura na sociedade, como é se sentir num lugar desses. Evitei essas questões no início, não queria que fossem um peso a mais, pois são pessoas que já têm de lidar com o fato de serem orientadas e controladas o tempo todo."

Logo Andrea se deu conta que só a fotografia não bastaria para embasar o projeto, então ela se lançou à escrita, para contar como se passava cada encontro semanal. "Quando desenvolvo um trabalho, não procuro necessariamente chegar a um objetivo, mas ter uma experiência através da fotografia", explica.

A participação dos pacientes foi flutuante, dependendo do interesse da pessoa ou mesmo se continuavam internadas. Elas tiveram à disposição pequenas câmeras digitais com a liberdade de fotografar o que quisessem. A princípio, todos se voltaram para o exterior, para o jardim do centro psiquiátrico. Aos poucos, ao fio dos encontros semanais, as câmeras foram entrando para dentro do estabelecimento, com as visões muito pessoais de cada participante.

A pedido dos próprios pacientes, a fotógrafa fez seis retratos. Mas por causa da condição estabelecida anteriormente de que os participantes não seriam fotografados, Eichenberger acrescentou camadas de branco nas imagens, até quase as pessoas desaparecerem. Para a exposição, os retratos foram impressos em tecido muito fino e os visitantes precisam se aproximar das imagens para tentar visualizar os personagens.

Com os relatos de Andrea, a exposição ganhou também uma edição limitada impressa no formato de um fichário médico, com três cadernos no interior: as fotos feitas pelos pacientes, os retratos realizados pela artista e o diário de bordo da experiência.

A exposição Sans Titres fica em cartaz no Centro Hospitalar de Valenciennes até 15 de março. Por causa da pandemia, o acesso é restrito a pacientes e funcionários do hospital.