PUBLICIDADE
Topo

Internacional

Conteúdo publicado há
1 mês

Biden isola príncipe saudita, provável alvo de relatório da CIA sobre morte de jornalista

Durante o telefonema, Biden reforçou o compromisso em "ajudar a Arábia Saudita a defender seu território dos ataques de grupos aliados ao Irã" - Saul Loeb/AFP
Durante o telefonema, Biden reforçou o compromisso em "ajudar a Arábia Saudita a defender seu território dos ataques de grupos aliados ao Irã" Imagem: Saul Loeb/AFP

26/02/2021 10h31

O presidente americano, Joe Biden, falou pela primeira vez por telefone nesta quinta-feira (25) com o rei Salman, da Arábia Saudita, na iminência da publicação de um aguardado relatório de inteligência sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, ocorrido na Turquia em 2018. As relações bilaterais se mostram tensas desde que Donald Trump deixou o poder nos Estados Unidos - Biden não parece disposto a tolerar as violações aos direitos humanos da monarquia saudita, ao contrário do ex-presidente americano.

Durante o telefonema, Biden reforçou o compromisso em "ajudar a Arábia Saudita a defender seu território dos ataques de grupos aliados ao Irã", mas também destacou a "importância que os Estados Unidos dão aos direitos humanos e ao Estado de Direito", informou a Casa Branca.

"O presidente destacou positivamente a libertação recente de vários ativistas saudita-americanos e de Loujain al Hathloul", detalhou o comunicado, em referência à militante solta há duas semanas.

Os dois dirigentes também discutiram os esforços dos Estados Unidos para "pôr fim à guerra no Iêmen", depois de Biden suspender o apoio de Washington à coalizão militar encabeçada por Riade, durante o governo Trump.

Relatório da CIA

A conversa ocorreu antes da suspensão do sigilo de um relatório de inteligência sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, no consulado de Riade em Istambul, na Turquia. A morte de Khashoggi, colaborador do jornal The Washington Post, gerou indignação internacional. Nesta quinta, o porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, disse que a publicação do documento é um passo importante para que os responsáveis "prestem contas".

Há especulações de que o relatório possa apontar a responsabilidade do príncipe herdeiro do reino saudita, Mohammed bin Salman, apesar de Riade negar as acusações. A suspensão do sigilo do relatório marca um profundo contraste com a política do ex-presidente republicano Donald Trump, que estreitou os vínculos com a Arábia Saudita. Seu próprio genro e assessor, Jared Kushner, trocava mensagens de texto com o príncipe Mohammed.

"É inegável que assistimos a uma ruptura da diplomacia de Trump em relação à Arábia Saudita", disse Karim Sader, cientista político especialista no Golfo, em entrevista à emissora France 24, parceira da RFI. "Entretanto, sejamos claros: trata-se sobretudo de uma mudança em relação a uma pessoa, o príncipe herdeiro, que era o queridinho do governo Trump", frisou.

"Recalibrar" as relações

Khashoggi - que morava nos Estados Unidos - era um crítico ferrenho do governo saudita e foi assassinado após entrar no consulado para buscar uma certidão para se casar. Após sua morte, um grupo bipartidário de senadores americanos que tiveram acesso a um relatório da CIA informaram, em dezembro de 2018, que o príncipe-herdeiro foi cúmplice no crime. Dias depois, o Senado aprovou uma resolução para assinalar o herdeiro como "responsável" pelo assassinato.

"Espero que este relatório mostre ainda mais claramente que MBS [como é conhecido o príncipe] esteve envolvido no assassinato de Khashoggi", disse à AFP o especialista Simon Henderson, do centro de estudos Near East Policy, com sede em Washington.

Apesar de o governo Biden ter acenado com a ameaça de ações punitivas, por enquanto não confirmou que esteja disposto a sancionar o príncipe. A respeito do impacto que terá nas relações com a Arábia Saudita, Price informou que Biden "vai revisar por completo as relações para se assegurar que promovam os interesses do povo americano e para se assegurar que reflitam seus valores".

A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse, por sua vez, que "há uma série de medidas sobre a mesa", sem dar mais detalhes. O novo governo americano já antecipou que vai "recalibrar" as relações com Riade e que seu interlocutor será o rei Salman, e não o príncipe, que dirige de fato a monarquia desde 2017 e era tratado como seu homólogo por Trump.

Ignorar o príncipe?

MBS assumiu o governo saudita com uma certa notoriedade no Ocidente, ao sinalizar que modernizaria a monarquia. Entretanto, a sua imagem de reformador desmoronou pouco a pouco, depois da revelação de métodos de governança pela força e uma deriva autoritária, a exemplo da detenção de militantes, opositores e intelectuais críticos ao reino.

A questão, agora, é se os Estados Unidos podem realmente manter um diálogo com a Arábia Saudita sem a participação do príncipe herdeiro, destinado a reinar o país. "Essa ruptura assinala o fim do sentimento de impunidade que poderia desfrutar o jovem príncipe", destaca Sader.

"O príncipe herdeiro sente a pressão desse novo governo e deixou de lado alguns assuntos que eram importantes, como a reconciliação com o Catar e detenção de Loujain al Hathloul. Mas ele está pressionado dos dois lados: de um, Joe Biden vai exigir mais abertura e reformas, e do outro, a ala conservadora do reino permanece hostil a mudanças e aos projetos de modernização do jovem príncipe", explicou o analista, à France 24.

Com informações da AFP

Internacional