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1 mês

PIB brasileiro: crescimento deve voltar a ser robusto só em cinco ou seis anos

04/03/2021 06h23

A economia brasileira, que já vinha patinando, teve em 2020 maior recuo desde o confisco da poupança do governo Collor. Economistas ouvidos pela RFI concordam que a pandemia assolou as previsões e que vai demorar para o país alcançar uma recuperação sólida. Mas divergem sobre trabalho do ministro Paulo Guedes

A economia brasileira, que já vinha patinando, teve em 2020 maior recuo desde o confisco da poupança do governo Collor. Economistas ouvidos pela RFI concordam que a pandemia assolou as previsões e que vai demorar para o país alcançar uma recuperação sólida. Mas divergem sobre trabalho do ministro Paulo Guedes

Raquel Miura, correspondente da RFI Brasil em Brasília

Uma economia que já vinha mal das pernas, crescendo a 1% ao ano, foi esmagada por uma pandemia contra a qual o governo se mostrou o tempo todo inerte. O resultado foi uma queda de 4,1% do PIB, pior desempenho em 30 anos e, mais grave, num cenário de perspectivas muito ruins para o futuro próximo.

A RFI ouviu especialistas para entender o que, além da crise sanitária, contribuiu para derrubar o PIB, e colher expectativas para os anos seguintes. Nelson Barrizzelli, economista e coordenador de projetos da Fundação Instituto de Administração, disse que uma recuperação de fato levará alguns anos.

"2021 será mais um ano perdido, com PIB entre 1% e 2%. Será o sétimo ano com crescimento abaixo do necessário para um país com 210 milhões de habitantes. As razões se devem ao acúmulo de problemas, ao aumento da pandemia, ao forte deficit fiscal, à impossibilidade de avançar sobre o teto de gastos e à necessidade de atender 45 milhões de pessoas que trabalham hoje para comer amanhã", explica. "Ano que vem temos eleições e em geral isso movimenta a economia. Porém, para um crescimento no ritmo que o país precisa, acredito que só em cinco ou seis anos. Primeiro, teremos de reduzir os prejuízos para então atrair investimentos."

Outro economista, Evilasio Salvador, que é também professor de política social da Universidade de Brasília, avalia que o país vive uma crise de desindustrialização: "A economia brasileira não vai bem há muitos anos. Mesmo antes da pandemia, a previsão do PIB era de 1%, o que é muito pouco para aquela que já foi a sexta economia do mundo. Não dá para aceitar níveis de crescimento como esse", ressalta. "Isso é fruto de um processo de desindustrialização que estamos vendo. Só o agronegócio não vai sustentar uma nação do tamanho da nossa. E, claro, houve o impacto direto da pandemia, numa crise sanitária sem perspectiva de melhora."

Já o Ministério da Economia disse que o tombo de 4,1% do PIB foi moderado, não tão ruim quanto se esperava, mantendo o discurso de que a recuperação pode vir no mesmo ritmo. Admite, porém, que as incertezas continuam altas este ano.

Desconfiança

Existe um ponto de interrogação sobre a capacidade da atual equipe econômica de reduzir o endividamento do país e fazer a roda da economia girar, cumprindo promessas mais liberais de campanha. As interferências da Petrobras reforçaram as dúvidas de investidores sobre o peso da política nas decisões econômicas, num momento de queda na arrecadação e necessidade de se elevar os gastos em meio à pandemia. Já para outros analistas, a maior dificuldade é que não se avista um projeto de país claro, que não seja apenas o ajuste fiscal.

Neste ponto, os dois economistas ouvidos pela RFI têm opiniões diferentes. Evilásio Salvador considera que o país está sem rumo: "Não há nenhum plano de recuperação da economia, não há perspectiva de futuro, nenhuma aposta de fato no desenvolvimento, na geração de renda e emprego. O governo nem sequer consegue executar o orçamento destinado à situação emergencial, dinheiro já autorizado e que não sai. É a derrota total dessa equipe ultraneoliberal", comenta o professor da Fundação Instituto de Administração. "A única arma que eles tinham era a ideia da varinha mágica, achando que os investidores viriam para cá num processo de confiança, a partir das políticas que eles diziam que levariam à frente. Mas nada disso. O país está ladeira abaixo, com empresas saindo daqui, como a Ford e a Sony", destaca.

Já o economista Nelson Barrizzelli afirma que o ministro da Economia é preparado e conseguiu formar uma boa equipe, embora considere demasiado o peso da política nos ditames econômicos, inclusive desidratando o time de Paulo Guedes

"A equipe econômica do governo era das melhores já vistas no país. Infelizmente, por razões políticas, muitos desses integrantes foram deixando o governo. Hoje, o ministro tem sua equipe bastante prejudicada", afirma o especialista da UNB. "Paulo Guedes, por sua vez, está lutando bravamente para cumprir a maior parte do que prometeu. Mas, também por questões políticas, ele enfrenta problema atrás de problema, derrota atrás de derrota."

No meio econômico, muitos alertaram que a vacinação em massa e de forma rápida era a condição básica para a retomada do crescimento, pois disso depende o ânimo e a coragem dos investimentos. E nesse quesito o Brasil está em ritmo de tartaruga.

"Nós deveríamos ter cuidado da compra de vacinas em maio e junho do ano passado, mas tivemos problemas gravíssimos no Ministério da Saúde. Sempre a política prejudicando a economia. E a população brasileira também não tem ajudado a controlar a disseminação do vírus'', afirmou Barrizzelli.

Auxílio Emergencial

Nos bastidores, interlocutores do governo viam com preocupação a possível saída de Paulo Guedes do governo se ele não conseguisse do Congresso a junção, num só texto, do auxílio emergencial com medidas de controle fiscal.

Para agravar o cenário, dados negativos da economia vieram no pior momento da pandemia no Brasil, quando muitas cidades estão decretando lockdown para tentar conter o vírus, reforçando as pressões sobre o governo para garantir uma nova etapa da ajuda financeira a milhares de brasileiros que passam por situação dramática de sobrevivência. Assim prosperou no Congresso uma emenda constitucional que tenta reunir as duas equações: assegura recursos furando as obrigações fiscais, mas aciona gatilhos como contenção de reajuste dos servidores e concursos públicos. A proposta ia além, dispensando o poder público dos gastos mínimos com saúde e educação, mas essa parte foi retirado do texto.

"O governo percebeu que o Congresso não estava disposto a implantar auxílio emergencial com corte de gastos na saúde e educação. Por outro lado, permanece essa proposta de um benefício de apenas 250 reais. Eles chamam isso de PEC do Auxílio, mas é um eufemismo pois, na verdade, se trata de uma PEC de ajuste fiscal, e o valor da ajuda é muito baixo", criticou o senador Jean Paul Prates, do PT.

Já os governistas mais alinhados à equipe econômica dizem que é preciso colocar na balança a condição dos necessitados e as contas públicas. "Como está complexa a situação financeira do país, ainda mais diante da pandemia, temos de atender a várias demandas, mas não podemos esquecer da falta de recurso. Ano passado, fechamos com um rombo de R$ 176 bilhões. Nós precisamos ter um cuidado todo especial porque, do contrário, algo que parece positivo agora pode se converter em uma situação muito ruim, como a volta da inflação, que prejudica principalmente os mais pobres", afirmou a deputada Alê Silva, do PSL.

A proposta aprovada pelo Senado fixou um teto de R$ 44 bilhões para o pagamento da nova rodada do auxílio emergencial este ano e seguirá para votação na Câmara.