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Brasileiros dizem que se sentem mais seguros na África do sul durante a pandemia

07/03/2021 04h23

Já são quase 14 anos morando em países africanos, vivendo diferentes experiências. Tempo suficiente para dizer que perseverança é uma palavra que combina perfeitamente com Marília Gabriela Ferreira e Jeferson Santos Barbosa, ambos de cidades do interior de São Paulo. Os dois atualmente vivem na África do Sul, onde o governo acabou de flexibilizar as regras de circulação no país, depois de ter implementado um dos confinamentos nacionais  mais rígidos do mundo, quase um ano atrás. O país se fechou pouco depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19, no fim de março de 2020. 

Já são quase 14 anos morando em países africanos, vivendo diferentes experiências. Tempo suficiente para dizer que perseverança é uma palavra que combina perfeitamente com Marília Gabriela Ferreira e Jeferson Santos Barbosa, ambos de cidades do interior de São Paulo. Os dois atualmente vivem na África do Sul, onde o governo acabou de flexibilizar as regras de circulação no país, depois de ter implementado um dos confinamentos nacionais  mais rígidos do mundo, quase um ano atrás. O país se fechou pouco depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19, no fim de março de 2020.

 

Vinícius Assis, correspondente na África do Sul

Os dois tinham acabado de abrir um negócio próprio. Mesmo que ainda estejam sentindo o impacto econômico das medidas decretadas pelo governo sul-africano, os brasileiros elogiaram a forma do presidente Cyril Ramaphosa enfrentar a pandemia e afirmaram que se sentem mais seguros onde estão do que se estivessem no Brasil.

"Vejo pela minha família. Eles estão realmente se preocupando mais, porque estão vendo que as pessoas mais próximas estão sofrendo perdas. Está chegando mais perto e está todo mundo meio que em pânico. Eu me sinto muito mais tranquilo aqui", disse Jeferson. O casal contou que sempre obedeceu as regras impostas pelo governo sul-africano nos últimos meses.

Marília acha natural que as pessoas se espantem mais quando recebem uma notícia de fora do ambiente onde vivem. Amigos e parentes se preocuparam quando leram sobre a variante do coronavírus identificada na África do Sul, no fim do ano passado, responsável pelo aumento de casos na segunda onda de infecções. "Mas a nossa vida aqui continua normal. Não tem pânico", tranquiliza a brasileira.

Ela disse que tem acompanhado notícias sobre a pandemia no Brasil. "A impressão é que lá está for a de controle. Então eu me sinto mais segura aqui, porque aqui eu sei que por hora está controlado", concluiu.

No ano passado, o casal até pensou em voltar para o Brasil em um dos voos de repatriação organizados pela embaixada do Brasil na África do Sul, só que eles não se juntaram aos aproximadamente 700 brasileiros ao todo repatriados e decidiram encarar a pandemia vivendo com os três filhos na Cidade do Cabo.

 

 

Jeferson conta que em algum momento a dúvida até surgiu. "A gente chegou a se perguntar 'e agora? Vamos fechar as portas e voltar para o Brasil, fazer alguma coisa por lá? Será que vale a pena? Balançamos", admite. Mas o casal de cristãos disse que decidiu ficar, depois de muita oração. "Sentimos uma paz no coração e vimos que é o local que temos que ficar", disse Jeferson. "Nosso plano está só começando", completou a esposa.

Mudança para o continente africano ainda namorando

Os dois estão juntos desde 2006. Ela é fisioterapeuta, nascida no município de Tanabi. Ele nasceu em Lins e é engenheiro civil. O primeiro destino do casal foi Angola, em setembro de 2007, depois que Jeferson recebeu um convite para trabalhar em uma obra na ilha de Mussulu. Era pra ser apenas um período de três meses, mas o casal resolveu viver no continente africano. Os dois ainda namoravam na época. Ele se mudou primeiro. Um mês depois Marília viajou para encontrar o namorado.

Ela chegou a exercer a profissão em Angola e também trabalhou como decoradora. "Já fiz um milhão de coisas", lembrou. Mesmo com os desafios enfrentados no país africano eles, na realidade, não queriam voltar para o Brasil. Juntos chegaram a abrir uma empresa de organização de eventos, mas não queriam continuar em Angola.

"Sentíamos que era um ciclo que estava chegando ao fim. E não tínhamos vontade de voltar para o Brasil. Estávamos naquele momento 'para onde iremos?'", lembrou Marília, contando que foi durante uma viagem para a África do Sul que eles se encantaram com a Cidade do Cabo e decidiram que seria o próximo destino da família. A ideia era abrir um negócio próprio em vez de procurar emprego, como tentam fazer muitos brasileiros no exterior.

Importando Açaí do Brasil

O projeto de importar algum produto brasileiro deu início a um período de pesquisas e aprendizado. Foi quando o açaí - fruto típico da região amazônica - passou a fazer parte de um novo capítulo da história do casal. A primeira missão foi conquistar o paladar de angolanos e sul-africanos, introduzindo um produto até então desconhecido pela maioria.

"Eu comecei a pesquisar algumas coisas e eu comecei a pensar: nunca vi açaí lá. Era uma coisa que nunca tinha passado pela nossa cabeça e a gente não sabia nada sobre isso", revelou ao falar de como identificaram uma oportunidade e começaram a estudar sobre o fruto e planejar a mudança para o segundo país africano.

Em 2016 eles contam que ainda não tinha açaí sendo vendido na Cidade do Cabo. Fizeram uma pesquisa com o público, incluindo degustação. "As pessoas que conheciam eram os turistas, na maioria", contou Marília.

 

 

O sonho saiu do papel primeiro em Angola, como um teste. "Tivemos que adaptar o formato que era do Brasil para Angola, que é totalmente diferente. A própria formulação do açaí foi adaptada. No Brasil o pessoal gosta de muito doce. A gente diminuiu drasticamente o xarope de guaraná que é utilizado no Brasil", contou Jeferson.

A mudança para a África do Sul foi em 2017. "Acho que aqui é muito bom para criar as crianças. É o que a gente quer proporcionar para nossos filhos", disse Marília ao falar do estilo de vida da paradisíaca Cidade do Cabo.

O açaí que eles vendem é importado do Pará, o que significou, já no início, alguns desafios. "Todo negócio que depende de importação tem sua dificuldade. O produto pode vir de navio ou avião. Os fornecedores lá não têm muita experiência em exportação porque não precisam. O próprio mercado já consome tudo o que a gente faz, praticamente. Então, o desafio já começa em você encontrar o fornecedor adequado.

Sabe-se que a vida de qualquer empresário tem altos e baixos. A primeira "queda" desde que decidiram investir no mercado sul-africano foi no fim de 2019, quando perderam cerca de 800 kg de açaí em um navio.

"Na alfândega a carga entrou para o canal vermelho na inspeção do Brasil, porque muitas coisas que vêm para a África há a suspeita de envio de drogas. O pessoal simplesmente fez a vistoria na nossa carga toda e deixou descongelar tudo para ver se tinha droga e depois entregou a carga", contou o empresário que disse ter contratado advogados para cuidar do assunto.

A loja que montaram para vender açaí na Cidade do Cabo abriu as portas em janeiro do ano passado no bairro de Sea Point, um mercado que logo se mostrou mais atraente do que Angola.

"Na primeira semana aqui vendemos mais açaí do que as nossas três lojas em Angola juntas no mesmo período", revelou Jeferson.

Dificuldades no caminho

O investimento na África do Sul foi de cerca de US$ 200 mil, valor que o casal esperava recuperar em dois ou três anos trabalhando. Só que dois meses depois da inauguração, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa anunciou o lockdown. Mesmo que o país agora esteja na fase mais branda do confinamento, eles ainda enfrentam dificuldades pra importar açaí do Brasil.

"Depois da pandemia, principalmente para a África do Sul, a dificuldade de transporte aumentou demais. E os preços também aumentaram. Agora consegue-se importar, mas com custo um pouco mais alto do que um ano atrás. Está muito difícil neste momento", contou Jeferson.

 

A loja chegou a ficar 10 dias sem o principal produto por problemas logísticos. O empresário contou que normalmente a polpa do açaí chegava em 15 ou 20 dias de avião. Eles tinham comprado uma carga em novembro, mas não conseguiam transportá-la. "Ficamos quase três meses em busca de voos para trazer a nossa carga e não conseguíamos. Ou porque os preços eram muito altos ou porque inviabilizava por causa do tempo que a carga ficaria em algum lugar sem refrigeração. Mas conseguimos", disse a empresária.

Atualmente, os dois importam do Brasil pelo menos 15 toneladas de açaí por ano e empregam 38 pessoas, isso na África do Sul e em Angola. Jeferson conta que acabou tendo que diminuir o quadro de funcionários na Cidade do Cabo, apenas, e que pagou o salário dos funcionários mesmo durante a pandemia.

Outro produto tipicamente brasileiro que vendem é tapioca, sucesso em Angola, mas nem tão popular entre os clientes na África do Sul. Neste caso, não precisam importar o material do Brasil.

Os dois estão praticamente reinaugurando o negócio, de um jeito diferente do que no início do ano passado. O local foi decorado com almofadas em tons próximos aos da cor do açaí, móveis de madeira clara e uma grande foto do fruto na parede. Quem chega é recebido com álcool e tem a temperatura checada por funcionáros, seguindo protocolos estabelecidos pelo governo sul-africano.

Mesmo com as dificuldadese eles ainda recomendam aos brasileiros que quiserem empreender no exterior que importem produtos do Brasil. Deixam claro que são determinados e estão pouco se importando com o julgamento alheio.

"Eu sou um cara muito positivo. As dificuldades sempre vão aparecer. Você pode estar na Suíça, em qualquer lugar você vai ter alguma dificuldade. Todo mundo vai te fechar portas, falar que não vai dar certo, que você não vai conseguir. Fuja disso. Trabalhe. A partir do momento que você faz alguma coisa com carinho, com amor e vontade de fazer a recompensa é automática", aconselha Jeferson, lembrando que isso deve estar estruturado dentro de um plano financeiro e sabendo que qualquer operação dessas demora para dar resultado. "Não é fácil abrir mercado, trabalhando com produtos que as pessoas não conhecem. Mas depois que este caminho se abrir, tenho certeza que vai ser positivo", concluiu.

Depois de já terem sido chamados de loucos por várias pessoas, Marília lembra que o mais importante é a confiança em si mesmo. "Só você precisa acreditar. Você não precisa convencer ninguém nem esperar que os outros acreditem.