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Estratégia de Macron para frear a pandemia na França é posta em xeque e pode afetar seu futuro político

Arquivo - Macron sabe que a gestão da pandemia pode fazê-lo escalar ou despencar nas intenções de voto nas eleições presidenciais - ERIC GAILLARD/AFP
Arquivo - Macron sabe que a gestão da pandemia pode fazê-lo escalar ou despencar nas intenções de voto nas eleições presidenciais Imagem: ERIC GAILLARD/AFP

23/03/2021 06h40

"Frear sem trancar", a estratégia adotada pelo presidente francês Emmanuel Macron para tentar conter a terceira onda da covid-19 na França é deveras arriscada, afirma o jornal Le Parisien hoje. Lembrando que dentro de 13 meses teremos eleições presidenciais na França e Macron sabe que a gestão da pandemia pode fazê-lo escalar ou despencar nas intenções de voto.

"Emmanuel Macron sabe que está se arriscando. E não é por acaso, aliás, que (o primeiro-ministro) Jean Castex foi enviado para a frente", afirma um membro do partido do presidente, LREM, citado pelo jornal. Nos isolamentos precedentes, era o chefe de Estado quem ia dar a notícia em rede nacional. Dessa vez, ele enviou o primeiro-ministro, que evitou pronunciar a temida palavra "lockdown".

Quatro dias após o estabelecimento deste "lockdown leve" e territorializado, que afeta cerca de 21 milhões de franceses ou um terço da população, essa famosa "terceira via" foi criada para tentar deter a epidemia sem voltar para um estado de isolamento total do país, como ocorreu em março de 2020.

O chefe de Estado sabe que está mais do que nunca entre a cruz e a espada. O famoso "frear sem trancar", já sujeito a muitas interpretações e mal-entendidos, pode terminar por se voltar contra ele?, questiona Le Parisien.

Até os ministros estão céticos

De qualquer forma, a aposta é arriscada, especialmente quando a opinião pública francesa está particularmente tensa. Diante disso, o primeiro-ministro Jean Castex adiantou a reunião de ministros que deveria acontecer hoje para a noite de segunda-feira, para abordar as dificuldades de comunicação encontradas com essa estratégia do governo, que está sendo vista como uma piada por parte da população que não entendeu por que o site do governo fez três modelos diferentes de atestado para justificar a saída de casa para, em seguida, decidir que bastava apresentar um comprovante de residência.

As regras deste novo isolamento não ficaram claras no anúncio oficial e o governo ainda as mudou depois do anúncio, como no caso dos cabeleireiros, que antes deveriam fechar para, horas depois, terem a permissão de abrir.

Na tentativa de retomar a comunicação em mãos e para que os ministros finalmente pareçam alinhados, Jean Castex os incitou a se comunicarem com o slogan, "Dentro com os meus, fora como cidadão". Desmotivado, um ministro suspirou durante a reunião: "Quem ainda pode pensar que essas coisas são interessantes e úteis?", enquanto Castex iniciava a videoconferência com sua equipe lembrando que "os franceses não devem receber visitas em casa".

Risco duplo

Para Emmanuel Macron, o risco é duplo, avalia Le Parisien. Primeiro, a estratégia é insuficiente para impedir a propagação do vírus, e depois, ela tensiona ainda mais o nível de aceitabilidade dos franceses no caso de um endurecimento das regras.

"Não vejo como deter a epidemia com essas medidas", se preocupa um assessor ministerial, duvidoso em manter as cantinas escolares abertas "enquanto as variantes afetam muito mais os jovens". "Há pessoas que consideram que devemos deixar viver, outras que devemos fechar tudo. Temos de levar em conta todos estes imperativos", defende do seu lado o Eliseu, que recorda, de passagem, que "há países que tomaram medidas drásticas durante meses e cujos números da epidemia estão aumentando".

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