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Workshop francês de genealogia resgata ancestralidade de descendentes de escravos

25/03/2021 14h03

Por ocasião do Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos nesta quinta-feira (25), o Workshop de Genealogia e História das famílias das Índias Ocidentais, organizado pela associação do comitê "Caminhada de 23 de maio de 1998" (CM98), permite aos cidadãos de Guadalupe, Guiana Francesa, Ilha de Reunião e Martinica retraçar suas histórias familiares e reencontrar seus ancestrais.

Por ocasião do Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos nesta quinta-feira (25), o Workshop de Genealogia e História das famílias das Índias Ocidentais, organizado pela associação do comitê "Caminhada de 23 de maio de 1998" (CM98), permite aos cidadãos de Guadalupe, Guiana Francesa, Ilha de Reunião e Martinica retraçar suas histórias familiares e reencontrar seus ancestrais.

Para a associação CM98, encontrar-se com seus ancestrais escravos e a origem de seu nome ajudaria a ficar em paz com sua própria história. O lema da associação é "encontrar, compreender, honrar". 

São histórias como a de Gilles Mith, carpinteiro da Martinica do século 19, que se casou em 1851 com sua ex-escrava Rose, número 469, após tê-la libertado. Eles tiveram juntos uma menina, uma "mulata", Rose-Tomasine, que cresceu livre.

Ou de Samuel, que foi finalmente libertado em 7 de setembro de 1849, mas cuja mãe, Henriette, morreu sendo escrava. Aos 49 anos, ele recebeu o nome de Cresson, atribuído aleatoriamente a partir de uma lista do registrador Yves-Guillaume Marlet.

Para sua bisneta, Marie-Josèphe Cresson, saber seus nomes e suas histórias foi fundamental. "Sinto-me mais tranquila agora que reconstruí esta história, esta genealogia, que me conforta e me reafirma em minha identidade", confidencia a senhora de 78 anos.

Um banco de dados com os nomes de 150.000 escravos libertos

Diferente do que ocorre normalmente em muitas famílias de descendentes de escravos, Marie-Josèphe pôde fazer sua própria genealogia e reencontrar seus ancestrais, que ela não conhecia, como testemunhou aos membros da associação CM98.

Desde 2005, a associação oferece oficinas de genealogia todas as terças-feiras à noite para permitir que descendentes de escravos encontrem seus ancestrais e reconstruam sua história familiar.

"A ideia nasceu após a grande marcha silenciosa de 1998, que reuniu 40.000 antilhenses em Paris para homenagear a memória das vítimas da escravidão", explicou Emmanuel Gordien, presidente e fundador do CM98. Dissemos a nós mesmos: "Caminhamos por nossos ancestrais, mas será que os conhecemos?", questionou.

A resposta foi um enorme "não". E assim começou um grande trabalho de pesquisa: os voluntários do CM98 identificaram os nomes dos 150 mil escravos libertados em 1848, durante a abolição da escravidão. Disto surgiu um importante banco de dados, o Anchoukaj.org, disponível gratuitamente na Internet.

O próprio Emmanuel Gordien encontrou nos registros dos "escravos libertos" de Guadalupe traços e "pegadas" de seu ancestral: "Georges, conhecido como Bouaki, nascido na África, residente na casa de Saint-Pierre, com a matrícula 2.660, recebe o nome patronímico de Gordien, em 2 de fevereiro de 1849", recita ele de memória, emocionado.

Ligando histórias complexas e cheias de nuances

Evelyne também foi capaz de encontrar alguns de seus ancestrais e conectar a história em todas as suas nuances e complexidade. Seu avô, Jean-Baptiste Vincent, que comprou e libertou sua mãe, Manette, em 1832, sendo ele mesmo um feitor de escravos, que não os emancipou até 1848.

"Acho que ele nasceu de uma relação entre um senhor de escravos e uma escrava", resume Evelyne, moradora de Guadalupe. "Era pedreiro, sabia ler e escrever, o que é típico dos 'mestiços' da época", relatou.

Mas, para além dos registros, Evelyne se deu conta, uma vez que o rastro de seu avô foi encontrado no banco de dados, que seu ancestral estava por perto: um primo idoso disse a ela que conhecia o filho de Jean-Baptiste, que continuava a cuidar de seu túmulo.

"Vivo em ancestrais ??imaginários"

"Este é o objetivo desta pesquisa", disse ela. "Pude falar com vários membros da minha família, surgiram memórias de infância. Esta não é uma abordagem voltada para o passado, ela ajuda a se apropriar melhor do presente e a fazer conexões com o resto da família", garantiu.

Mesmo se muitos participantes dos workshops são confrontados com o silêncio de seus pais, que se recusaram a discutir o período da escravidão, a pesquisa genealógica ajudou a desbloquear memórias perdidas no tempo e no esquecimento. Histórias preciosas que devolvem a esses ancestrais escravos uma identidade mais forte do que apenas registros em papel.

"[O poeta e ensaísta martiniquês, pioneiro do Movimento Negro na literatura francesa] Aimé Césaire disse: 'Vivo em ancestrais ??imaginários'", cita Emmanuel Gordien. "Os meus não são mais imaginários, eles existem. Por meio da pesquisa, podemos dizer aos descendentes de escravos: "Seus nomes vêm de algum lugar, eles têm uma história", lembrou Gordien.

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